Así se sentirá leer la historia.
A morte vence
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Obras de JOÃO GRAVE
| Os Famintos | Paixão e morte da Infanta | ||
| A Eterna Mentira | Os Sacrificados | ||
| O Último Fauno | Os que amam e os que sofrem | ||
| O Passado | Cruel Amor | ||
| Gente Pobre | Fogueiras de Santo António | ||
| Jornada romântica | Vida do Espíríto (pensamentos). | ||
| Reflorir | |||
| Reinado trágico | |||
| A Inimiga | No prélo: | ||
| O Mutilado | |||
| A Morte Vence | Almas ínquietas. | ||
| Vitória de Parsifal |
JOÃO GRAVE
DA ACADEMIA DAS SCIÊNCIAS DE LISBOA
A MORTE VENCE
ROMANCE
shakespeare.
PORTO
Livraria Chardron, de Lélo & Irmão,
L.da
editores—Rua das Carmelitas, 144
Aillaud e Bertrand—Lisboa-Paris
1922
A MORTE VENCE
I
A criança dormia tranqùilamente, deitada no seu pequenino berço vaporoso de rendas e resplandecendo de brancura, por êsse glorioso meio-dia de calor e de luz, no grande e benéfico silêncio que envolvia a vivenda feliz. A sua carne viriginal e transparente, ainda mal formada, parecia exalar claridade e tinha a coloração suave de certas rosas pálidas e orvalhadas. A cabeleira anelada e loura espalhava-se, como uma ligeira nuvem de ouro, na alvura da almofada, macia e fôfa, que servia de travesseiro; e sôbre essa fronte angélica não profanada por impuros, venenosos pensamentos, baixava um halo de inocência luminosa e de graça imaterial.
Havia no quarto uma penumbra sedosa e frouxa que refrescava o ambiente inefável e que tornava mais imprecisas, mais vagas, as linhas e as formas do mobiliário. Na pacificação deleitosa tudo repousava docemente. Em cima do mármore do toucador, em frente dum largo espêlho em que se reflectiam imagens baças e indecisas, floriam perfumados ramos de cravos brancos em jarras de cristal cheias de água límpida; e da parede alta pendia, como a protecção celeste da infância adormecida, uma cópia a óleo da Virgem, de Murillo, que, entre anjos alados, extasiava os puros olhos nos fulgores siderais. Cá fóra, o sol—um ardente sol de junho—rutilava e ardia na atmosfera pesada e abafadiça.
Brandamente, na ponta dos pés para não fazer barulho, Júlia entrou no compartimento solitário, aproximou-se do casto leito do filho, que tinha apenas meses de vida, contemplando-o com enlêvo e ternura. Ela contava então vinte e quatro anos, estava em pleno esplendor da sua beleza e do seu encanto de mulher, a alegria reflectia-se-lhe no rosto e a ventura iluminava-se-lhe na alma. Duma elegância natural e sóbria, vestia um amplo roupão de cassa creme apertado na cinta por laços de veludo preto. O curto decote deixava a descoberto a pele do colo que era setinosa, dourada e sem o mais ligeiro vinco. Um pente de tartaruga com embutidos de ouro segurava a massa dos seus cabelos castanhos enrolados no alto da nuca. Os seios direitos e rijos formavam uma delicada curva sob os tecidos flexíveis, ao arfarem. Dois anos antes, em Vizela, apaixonara-se sériamente por Nuno Aragão, para quem fôra levada por um forte impulso de sentimento; e com êle casara ao fim dum romântino idílio em que os seus sonhos de felicidade deram flor. Essa união íntima que a fizera espôsa e mãe e a que se devotou com um admirável espírito de abnegação, completou-a. Os dias do seu noivado tam doce fugiram de leve sem que dêles ficassem resíduos de tédio...
Absorvida na visão do frágil sêr que lhe trouxera, com a sua pureza e a sua formosura, uma revelação à inteligência e à subtileza emotiva, Júlia ajoelhou junto do berço, compondo a roupa à volta da cabecinha ideal, que a virgindade aureolava, com dedos mais ágeis do que asas—e nem sequer notava a presença de Nuno que a seguira de perto e que, por detrás dela, sorria comovido. Houve um momento em que Júlia se curvou sôbre a face gorda e picada de còvinhas do filho, roçando-a com os lábios.
—Cautela, não vás acordá-lo!—murmurou o marido em voz de segrêdo.
Ela voltou a cabeça, sorridente: e, fitando-o com uma emoção que o olhar traía, interrogou:
—Estavas aí?
—Quis acompanhar-te na tua amorável visita—respondeu.
—Olha, vem cá!...— pediu Júlia. Não é verdade que é lindo?
Nuno aninhou-se tam perto dela que lhe sentia o sussurro brando da respiração, passou-lhe um braço à volta do pescoço, puxou-a tôda para o peito e ambos se embeberam na adoração da criança que continuava dormindo com a gracilidade e a poesia dum botão de rosa, fazendo um pequeno volume sob as lãs quentes e as cambraias ténues.
—Não é lindo?—insistiu Júlia. Fala!...
—Como não havia de ser lindo, se veio de ti, da tua purificação, do teu amor!...
—Do nosso amor!—emendou ela, com palavras de mimo e de queixume, beijando-o demoradamente na bôca.
—Do nosso amor, dizes bem!—confirmou Nuno, enleado.
—E é curioso como já na sua carinha se desenham as tuas feições. Vê... O nariz, a testa, o queixo...
—São os teus...
—Não! São os teus!—atalhou Júlia, indicando com o dedo os traços fisionómicos do filho. Ora observa com atenção...
—Não lhe toques, que podes magoá-lo, coitadinho!—exclamou êle. A sua carninha é tam tenra, que até tenho mêdo de amolgá-la, quando a beijo.
—Que tolice!...—exclamou Júlia, rindo.
Por um instante, as cabeças de ambos, unidas, fizeram um docel animado sôbre o berço inocente que agasalhava, embalava, um destino misterioso para o qual aspiravam tôda a grandeza, todo o génio, tôda a bondade, todos os favores generosos da sorte enigmática, nessa hora bemdita e profética em que os seus corações palpitavam com o mesmo ritmo e a mesma ânsia, as suas vontades se fundiam numa só vontade e as suas ambições se irmanavam. Depois, com os olhos humedecidos de lágrimas de gôzo interior, ergueram-se, sempre estreitados num apertado abraço, fitaram-se com enternecimento, emmudecidos, penetrados por idêntico júbilo, com a imaginação perdida no encanto das mesmas idealizações.
—Abençoada sejas!—disse Nuno.
—E tu tambêm, por esta paz, esta certeza, esta confiança, esta bôa fortuna que comunicaste à minha vida—atalhou Júlia com convicção, afagando-o no rosto.
Saíram do quarto, mirando ainda o filho—que fôra como que a visitação duma divindade propícia à adoração que nunca deixara de aproximá-los mais desde o instante admirável em que pela primeira vez se conheceram e que, entre os ternos cuidados dos dois, cresceria, se faria homem, prolongaria as suas existências, iria para as éras vindouras, cantando um hino de esperança. Êle representava a expressão definitiva e tangível do amor que os identificara, do desejo puro que os fizera vibrar e que alvoroçara a sua carne, da simpatia física que os juntou. Nas suas veias corria um sangue que era de ambos; no seu corpo latejava uma carne que lhes pertencia; e, mais tarde, quando fôsse grande, teria a mesma fé, as mesmas crenças, as mesmas ideias, as mesmas piedades, as mesmas finuras de sentir, a mesma nobreza de aspirações.
—Estou hoje tam contente!—afirmou Júlia já na sala, dispondo um bibelot sôbre a mesa do centro, coberta com um largo pano pintado, enquanto Nuno acendia um charuto. E êste contentamento vem-me de ti, da tua fidelidade, da tua delicadeza, e vem tambêm do nosso filho. A luz e a ventura que esta criancinha veio trazer à nossa casa, Nuno! Pois não é assim?
—É, querida!
—Parece um milagre! Às vezes, nem quero acreditar!...
—Um milagre que merecíamos.
recuperando tu lugar…
cargando el resto…