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É assim que a leitura vai ficar.

Os filhos do padre Anselmo

António José da Costa Couto Sá de Albergaria

grátis · 116.187 palavras · ~8 h de leitura

texto de Project Gutenberg

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Nota de editor: Devido à quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Fev. 2008)





SÁ D'ALBERGARIA




OS FILHOS DO PADRE ANSELMO


ROMANCE








PORTO LIVRARIA CHARDRON
DE
Lello & Irmão, Editores



1904







Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica

178, rua de D. Pedro, 184






OS FILHOS DO PADRE ANSELMO




I

Os irmãos da mão negra

O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze badaladas da meia noite.

O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado, recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito.

Era em fins do outono.

As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima, despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e sussurrante protesto de espoliadas.

Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria, encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella noite agreste e frigidissima.

Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a meia noite no relogio da torre, levou a mão ao bolso e, aproximando-se de um dos candieiros da illuminação publica, consultou o seu relogio.

—Aquelle anda adiantado cinco minutos—murmurou.

E deu alguns passos distrahidamente como para illudir a sua impaciencia.

Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão, notaremos que é um rapaz de 18 annos, decentemente vestido e de gentil presença, não obstante as feições finas e delicadas quasi lhe desapparecerem encobertas pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini.

Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do lado da rua do Calvario avançou a trote rasgado um trem, que parou em frente d'elle.

—És tu, Paulo?—disse de dentro uma voz.

—Sou.

—Entra depressa, que a noite está agreste!

E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a entrada.

O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola fechou-se, e os cavallos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da Restauração e subindo a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario.

Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se trava dentro d'elle.

Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28 a 30 annos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu joven companheiro:

—Meu amigo, como já te expliquei, isto são negocios em que se requer a maior circumspecção e escrupulo na observancia das praxes. Has-de consentir que te vende os olhos.

—Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?

—De modo algum. Mas é uma obrigação que o regulamento me impõe, e eu não posso faltar a ella sem trahir o meu dever.

—Pois bem, seja!

O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então do bolso um lenço e vendou com elle os olhos do companheiro.

—Has-de dar-me a tua palavra de honra que não tentarás arrancar a venda sem que para isso recebas ordem...

—Dou. Mas se o fizesse?

—Poderia isso custar-te a vida, meu caro.

—Apre!—fez o outro, sorrindo—vocês são intransigentes!

—Está n'isso a nossa força. Não violentamos ninguem a seguir-nos, damos ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associação, mas defendemos a nossa existencia e mantemos o nosso segredo.

—É justo.

—Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu juramento, reconsiderar e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecerá por isso, a tua vontade será respeitada, a tua independencia mantida. Mas não saberás dizer onde estiveste nem as pessoas com quem fallaste.

—Poderei dizer que fallei comtigo...—gracejou o outro.

—Que importa? Eu não sou uma associação. Comigo póde fallar toda a gente...

voltando para onde você parou…

carregando o resto…

Leia a seguir

  • A Cidade e as Serras Eça de Queirós
    Jacinto tem todas as engenhocas que a Paris de 1890 lhe pode vender e está morto de tédio, enquanto o amigo Zé Fernandes o observa com olhar irónico. Depois a história sobe às serras portuguesas, e Eça torna-se divertido e terno a propósito da sopa e dos campos.
  • A Confissão de Lúcio Mário de Sá-Carneiro
    Lúcio conta-lhe logo de início que cumpriu dez anos de prisão por um assassínio que não cometeu, e depois faz-lhe percorrer de novo a sua estranha amizade com o poeta Ricardo de Loureiro, numa Paris e numa Lisboa decadentes. É curto, febril e mais estranho do que imagina.
  • A Escrava Isaura Bernardo Guimarães
    Isaura é instruída, talentosa e clara o bastante para passar por branca, mas continua sendo legalmente propriedade de Leôncio, um senhor que a deseja e não a deixa ir. É um melodrama, assumidamente, escrito para fazer os leitores da década de 1870 sentirem a crueldade da escravidão.

—

obrigado pela leitura

Os filhos do padre Anselmo, de António José da Costa Couto Sá de Albergaria. O texto está em domínio público nos EUA, digitalizado pelos voluntários do Project Gutenberg; esta é a nossa própria cópia.

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