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  1. A FILHA DO ARCEDIAGO
  2. CAPITULO I
  3. CAPITULO II
  4. CAPITULO III
  5. CAPITULO IV
  6. CAPITULO V
  7. CAPITULO VI
  8. CAPITULO VII
  9. CAPITULO VIII
  10. CAPITULO IX
  11. CAPITULO X
  12. CAPITULO XI
  13. CAPITULO XII
  14. CAPITULO XIII
  15. CAPITULO XIV
  16. CAPITULO XV
  17. CAPITULO XVI
  18. CAPITULO XVII
  19. CAPITULO XVIII
  20. CAPITULO XIX
  21. O NOIVADO
  22. DRAMA EM UM ACTO
  23. PERSONAGENS
  24. SCENA I
  25. O SENHOR ANTONIO
  26. O SENHOR FERNANDES
  27. O SENHOR ANTONIO
  28. D. MARIA ELISA
  29. D. ANGELICA
  30. D. MARIA ELISA
  31. D. ANGELICA
  32. O SENHOR ANTONIO
  33. D. ANGELICA
  34. O SENHOR ANTONIO
  35. D. ANGELICA
  36. O SENHOR FERNANDES
  37. D. ANGELICA
  38. D. MARIA ELISA
  39. D. ANGELICA
  40. D. MARIA ELISA
  41. D. ANGELICA
  42. O SENHOR FERNANDES
  43. O SENHOR BAPTISTA
  44. O SENHOR RODRIGUES
  45. D. MARIA ELISA
  46. O SENHOR ANTONIO
  47. SCENA II
  48. OS MESMOS E O SENHOR JOÃO PEREIRA
  49. O SENHOR PEREIRA
  50. D. ANGELICA
  51. O SENHOR ANTONIO
  52. O SENHOR PEREIRA
  53. D. MARIA ELISA
  54. O SENHOR PEREIRA
  55. D. MARIA ELISA
  56. O SENHOR PEREIRA
  57. O SENHOR ANTONIO
  58. O SENHOR PEREIRA
  59. O SENHOR FERNANDES
  60. O SENHOR PEREIRA
  61. O SENHOR FERNANDES
  62. O SENHOR PEREIRA
  63. D. ANGELICA
  64. O SENHOR PEREIRA
  65. D. ANGELICA
  66. D. MARIA ELISA
  67. O SENHOR ANTONIO
  68. D. MARIA ELISA
  69. O SENHOR ANTONIO
  70. D. MARIA ELISA
  71. OS SENHORES BAPTISTA E RODRIGUES
  72. O SENHOR FERNANDES
  73. O SENHOR ANTONIO
  74. O SENHOR FERNANDES
  75. O SENHOR ANTONIO
  76. O SENHOR FERNANDES
  77. O SENHOR ANTONIO
  78. O SENHOR FERNANDES
  79. D. MARIA ELISA
  80. O SENHOR ANTONIO
  81. O SENHOR FERNANDES
  82. D. MARIA ELISA
  83. O SENHOR ANTONIO
  84. O SENHOR FERNANDES
  85. O SENHOR ANTONIO
  86. O SENHOR FERNANDES
  87. O SENHOR ANTONIO
  88. O SENHOR FERNANDES
  89. O SENHOR ANTONIO
  90. O SENHOR FERNANDES
  91. D. MARIA ELISA
  92. O SENHOR ANTONIO
  93. O SENHOR FERNANDES
  94. O SENHOR ANTONIO
  95. O SENHOR FERNANDES
  96. O SENHOR ANTONIO
  97. D. MARIA ELISA
  98. O SENHOR ANTONIO
  99. O SENHOR FERNANDES
  100. O SENHOR ANTONIO
  101. O SENHOR FERNANDES
  102. O SENHOR ANTONIO
  103. O SENHOR PEREIRA, do chinó
  104. D. ANGELICA
  105. O SENHOR PEREIRA
  106. O SENHOR FERNANDES
  107. O SNR. PEREIRA
  108. O SENHOR FERNANDES
  109. O SENHOR PEREIRA
  110. O SENHOR FERNANDES
  111. O SENHOR PEREIRA
  112. O SENHOR FERNANDES
  113. O SENHOR PEREIRA
  114. O SENHOR FERNANDES
  115. D. MARIA ELISA
  116. O SENHOR FERNANDES
  117. D. ANGELICA
  118. O SENHOR PEREIRA
  119. D. ANGELICA
  120. O SENHOR PEREIRA
  121. D. ANGELICA
  122. O SENHOR ANTONIO
  123. O SENHOR FERNANDES
  124. O SENHOR ANTONIO
  125. O SENHOR PEREIRA
  126. O SENHOR FERNANDES
  127. O SENHOR PEREIRA
  128. O SENHOR ANTONIO
  129. D. ANGELICA
  130. O SENHOR ANTONIO
  131. D. ANGELICA
  132. O SENHOR PEREIRA
  133. O SENHOR FERNANDES
  134. O SENHOR PEREIRA
  135. O SENHOR ANTONIO
  136. D. ANGELICA
  137. D. MARIA ELISA
  138. O SENHOR PEREIRA
  139. D. MARIA ELISA
  140. O SENHOR ANTONIO
  141. D. MARIA ELISA
  142. O SENHOR ANTONIO
  143. D. MARIA ELISA
  144. O SENHOR PEREIRA
  145. O SENHOR ANTONIO
  146. D. ANGELICA
  147. O SENHOR PEREIRA
  148. D. ANGELICA
  149. O SENHOR PEREIRA
  150. D. ANGELICA
  151. O SENHOR PEREIRA
  152. O SENHOR ANTONIO
  153. O SENHOR PEREIRA
  154. D. ANGELICA
  155. O SENHOR PEREIRA
  156. D. ANGELICA
  157. O SENHOR ANTONIO
  158. D. ANGELICA
  159. O SENHOR ANTONIO
  160. D. ANGELICA
  161. O SENHOR PEREIRA
  162. O SENHOR ANTONIO
  163. SCENA ULTIMA
  164. OS MESMOS E UM ENCAPOTADO
  165. ENCAPOTADO
  166. D. ANGELICA
  167. O SENHOR ANTONIO
  168. D. ANGELICA
  169. O ENCAPOTADO
  170. D. ANGELICA
  171. O ENCAPOTADO
  172. D. ANGELICA
  173. O ENCAPOTADO
  174. UMA VOZ
  175. CAPITULO XX
  176. CAPITULO XXI
  177. CAPITULO XXII
  178. CAPITULO XXIII
  179. CAPITULO XXIV
  180. CAPITULO XXV
  181. CAPITULO XXVI
  182. CAPITULO XXVII
  183. CAPITULO XXVIII
  184. CAPITULO XXIX
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A Filha do Arcediago

Terceira Edição

Camilo Castelo Branco

kostenlos · 75.557 Wörter · ~5 Std. Lesezeit

Text von Project Gutenberg

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(von vorn beginnen)

Leitores! Se ha verdade sobre a terra, é o romance, que eu tenho a honra de offerecer ás vossas horas de desenfado.

Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de scenas, que se viram, que se realisaram, e deixaram de si vestigios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracterisa todas as cousas d'este globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infallivel symptoma de que o meu romance é o unico verdadeiro.

Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a vida do meu proximo, nem ando pelos salões atraz d'uma ideia, que possa estender-se por um volume de trezentas paginas, que, depois, vil espião, venho vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.

Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, é-me contado por uma respeitavel senhora, que não vai ao theatro, nem aos cavallinhos, e que tem necessidades organicas, mas todas honestas, e, entre muitas, é predominada pela necessidade de fallar onze horas em cada dez. Desde que tive a ventura de conhecel-a, não invejo a sorte de ninguem, porque vivo debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a mais imperiosa necessidade da minha organisação, que é estar calado. É que não podemos fallar ambos ao mesmo tempo.

E, depois, a sua conversação, escassa d'arrebiques, e despretenciosa, abunda em riquezas naturaes, em thesouros impagaveis para o escriptor publico, em estudos sociaes adquiridos no testemunho de factos da vida, que não vieram ás locaes do jornalismo, porque a imprensa, ha poucos annos que denuncia os casamentos, os obitos, e os suicidios.

Ingrato seria eu, se não significasse aqui, com toda a cordialidade de que sou susceptivel, o meu reconhecimento á dita pessoa, que promette elevar-me á importancia de escriptor veridico, n'um genero em que todos os meus collegas mentem sempre.

No momento infausto em que os sêllos do tumulo me fecharem este livro do passado, obliterar-se-ha a fecunda veia de romancista, d'onde tenho havido uma barata immortalidade para mim, e para a minha collaboradora.

O publico, maravilhado da minha esterilidade, dirá então que os meus romances eram d'ella; e um nome, hoje obscuro, será exhumado do esquecimento para quinhoar da gloria dos escriptores-fêmeas d'esta nossa terra tão escassa—ainda bem—d'esse contra-senso.

A FILHA DO ARCEDIAGO

CAPITULO I

Em 1815, um dos mais abastados mercadores de pannos da rua das Flores na cidade do Porto, era o senhor Antonio José da Silva. E a 23 d'agosto, do mesmo anno, o negociante da rua das Flores que mais suava, e bufava afflicto com a calma, era o mesmo senhor Antonio José da Silva. O senhor Antonio, como os seus caixeiros o chamavam, tinha razão para suar. As bochechas balofas e tremulas, dilatadas pelo calor do estio, ressumavam-lhe um succo oleoso, que descia em rêgos pelos tres rofêgos da barba, e vinha adherir a camisa ás duas grandes esponjas, que formavam os seios cabelludos do nosso amigo attribulado.

O senhor Silva inquieto, e resfollegando como um hippopótamo, passeava no seu escriptorio. O seu traje era muito simples: andava de cuecas, e alpercatas de estôpa com sola de cortiça. Este vestido, com quanto singelissimo, e o primeiro talvez que se seguiu ao que trajou Adão no Paraizo, dava-lhe ares d'um sátyro voluptuosamente gordo.

O negociante representava cincoenta e cinco annos, bem conservados. No ôlho direito tinha muita vida; o esquerdo, porém, n'esta occasião tinha um tersolho, e inflammado, de mais a mais, pelo calor.

Além do dito, o senhor Silva estava soffrendo um segundo tersolho no espirito. Era uma paixão, uma paixão d'alma, a mocidade na velhice, essa ancia impotente d'um coração, que quer romper os tecidos atrophiados de cincoenta e cinco annos para dar quatro pulos em pleno ar.

Quem era a victima d'esta paixão impetuosa? Uma menina de quinze annos, que a leitora enjoada das indecentes cuecas do senhor Silva, póde vêr, no segundo andar d'esta mesma casa, sentada a costurar na varanda, com uma gata malteza no regaço, e um papagaio ao lado, que lhe depenica os sapatos de cordovão.

É uma bonita menina, para quem gosta d'um rosto oval, olhos azues, leite e rosas na face, labios acerejados e pequenos, dentes como perolas, olhar alegre e penetrante. Conversa com o papagaio, e o metal da sua voz tem aquelle timbre sonoro e puro, que nos faz jurar na belleza de quem falla, sem lhe vermos as feições. O papagaio salta-lhe á mão, e esta mão é pequena, dedos longos, rosados nas extremidades, transparentes como o collo de sua dona, onde o proprio Lucifer de Gautier choraria uma segunda lagrima, por se vêr impossibilitado de armar ás boas mulheres (quando é de suppôr que lhe não vão lá ter as peores...)

Concordemos em que Rosa Guilhermina era uma bonita moça, e desculparemos a paixão fatal do infeliz negociante, que, no andar de baixo, está fumegando por todos os orificios, e distillando por todos os póros.

Como veio esta menina para a casa do negociante?

Da seguinte maneira:

Quatro annos antes, o arcediago de Barroso, padre Leonardo Taveira, amigo velho do senhor Silva, em expansiva conversa com o seu amigo, n'um domingo de tarde, nas hortas de Campanhã (onde semanalmente saturavam as respectivas massas adiposas com o excellente vinho verde de Cabeceiras de Basto), quatro annos antes, vinha eu dizendo, fallava assim, com o seu amigo, o rubicundo arcediago:

—Sabes tu, Silva, que me está dando bastante cuidado o futuro de Rosa!

—Deixa-te disso. Não tens tu, em minha mão, um bom patrimonio que lhe dês?! Acho que vinte mil cruzados, afóra o juro de cinco por cento, ha dez annos, capitalisado no proprio, a vencer até que ella faça os vinte e cinco, acho eu que é um dote de lhe tirar o chapéo.

—Bom dote é; mas isso não é o que me dá cuidado. O que eu queria para minha filha é um bom marido...

—Ó homem, já tratas disso!? Que idade tem a tua filha?

—Tem onze annos; d'aqui a três é mulher, e póde talhar futuros por sua conta e risco. É o que eu não quero. A pequena está em mestra-de-dentro; mas isto de mestras ensinam a cozer e a bordar, mas não sabem adivinhar o coração d'uma rapariga, que... emfim, Silva, vou ser franco comtigo...

—Diz, padre Leonardo...

—Que é filha de tal pae e de tal mãe... Eu tenho sido o que tu sabes...

—Isso lá é verdade... tu tens sido levadinho da breca com o gado de contrabando...

—E a mãe, se queres que te diga a verdade, tinha uma perfeita embocadura...

—Diz-m'o a mim, Leonardo! Era uma namoradeira dos quatro costados... Mas, emfim, está casada, e já não é a mesma.

—Caro me custou o casamento...

—Isso custou! O que tu déste ao francez p'ra montar a loja de livros, ainda que não rendesse senão a sete por cento, podia hoje montar a reis... deixa vêr... quatro vezes sete vinte e oito, vão dous, com cinco cifras, faz... faz...

—Aguas passadas... não fallemos n'isso. Agora o que me importa é a rapariga, já que fiz a asneira de a procurar na roda... Tira-me o somno, Silva! Lembra-me ás vezes que esta pequena ha de ser a disciplina com que hei de ser castigado por muitas asneiras que fiz...

—Isso lá é verdade. Diz o dictado: «Onde se fazem, ahi se pagam.» Já vem dos velhos a experiencia... Sabes tu que mais? Casa a rapariga assim que ella pozer as ventas no ar a contar os ventos. Não lhe dês tempo a namoricos. Janella fechada, e marido entre mãos, era o systema de minha mãe, que Deus haja, e minhas irmãs não deram desgosto á sua familia.

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—

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