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  1. A Morgadinha dos Cannaviaes Volume I Volume II
  2. BIBLIOTHECA ESCOLHIDA XXIII
  3. ROMANCE III A MORGADINHA DOS CANNAVIAES Vol. I
  4. CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28 TELEPHONE 2337
  5. A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
  6. (CHRONICA DA ALDEIA)
  7. DECIMA-SETIMA EDIÇÃO
  8. LISBOA J. RODRIGUES & C.a, EDITORES 186—Rua Aurea—188 1920
  9. OBRAS DE JULIO DINIZ
  10. A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
  11. I
  12. II
  13. III
  14. IV
  15. V
  16. VI
  17. VII
  18. VIII
  19. IX
  20. X
  21. XI
  22. XII
  23. XIII
  24. XIV
  25. XV
  26. XVI
  27. FIM DO PRIMEIRO VOLUME
  28. BIBLIOTHECA ESCOLHIDA XXIII
  29. ROMANCE III A MORGADINHA DOS CANNAVIAES Vol. II
  30. CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28 TELEPHONE 2337
  31. A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
  32. (CHRONICA DA ALDEIA)
  33. DECIMA-SETIMA EDIÇÃO
  34. LISBOA J. RODRIGUES & C.a, EDITORES 186—Rua Aurea—188 1920
  35. A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
  36. XVII
  37. XVIII
  38. XIX
  39. XX
  40. XXI
  41. XXII
  42. XXIII
  43. XXIV
  44. XXV
  45. XXVI
  46. XXVII
  47. XXVIII
  48. XXIX
  49. XXX
  50. XXXI
  51. XXXII
  52. XXXIII
  53. CONCLUSÃO
  54. FIM DO SEGUNDO E ULTIMO VOLUME
  55. Lista de erros corrigidos
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A Morgadinha dos Cannaviaes

Chronica da aldeia

Júlio Dinis

kostenlos · 146.189 Wörter · ~10 Std. Lesezeit

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Nota de editor: Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Jun. 2009)




A Morgadinha dos Cannaviaes

Volume I
Volume II





BIBLIOTHECA ESCOLHIDA

XXIII


ROMANCE

III

A MORGADINHA DOS CANNAVIAES

Vol. I





CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL
LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28
TELEPHONE 2337



JULIO DINIZ

A MORGADINHA
DOS
CANNAVIAES


(CHRONICA DA ALDEIA)




DECIMA-SETIMA EDIÇÃO




LISBOA
J. RODRIGUES & C.a, EDITORES
186—Rua Aurea—188
1920





OBRAS DE JULIO DINIZ


A Morgadinha dos Cannaviaes
Os Fidalgos da Casa Mourisca
As Pupillas do Senhor Reitor
Uma Familia Ingleza
Ineditos e Esparsos
Poesias
Serões da Provincia
Agenda Julio Diniz (registo de anniversarios e lembranças)






Todos os direitos d'esta publicação
estão reservados em conformidade com a lei
em Portugal e Brasil



J. Rodrigues & C.a





A MORGADINHA DOS CANNAVIAES





I

Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e genuino dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretenciosamente gosava das honras de estrada, á falta de competidora, em que melhor coubessem.

Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracissima provincia começa já a resentir-se, senão ainda nos valles e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Traz-os-Montes.

O sitio, n'aquelle ponto, tinha o aspecto solitario, melancolico, e, n'essa tarde, quasi sinistro. D'alli a qualquer povoação importante, e com nome em carta corographica, estendiam-se milhas de pouco transitaveis caminhos. Vestigios de existencia humana raro se encontravam. Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do rachador, mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam do que a absoluta solidão.

Não se moviam em perfeita igualdade de condições os dois viandantes, que dissemos.

Um, o mais moço e pela apparencia o de mais grada posição social, era transportado n'um pouco esculptural, mas possante muar, de inquietas orelhas, musculos de marmore e articulações fieis; o outro seguia a pé, ao lado d'elle, competindo, nas grandes passadas que devoravam o caminho, com a quadrupedante alimaria, cujos brios, além d'isso, excitava por estimulos menos brandos do que os da simples e nobre emulação.

Contra o que seria plausivel esperar d'este desigual processo de transporte, dos dois o menos extenuado e impaciente com as longuras e fadigas da jornada não se pode dizer que fôsse o cavalleiro.

A postura de abatimento que lhe tomára o corpo, o olhar melancolico, fito nas orelhas do macho, a indifferença, a taciturnidade ou o manifesto mau humor, que nem as bellezas e accidentes da paizagem natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silencio que apenas de quando em quando interrompia com uma phrase curta mas energica, com uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza de gestos e desempenado jôgo de membros do pedestre, com a sua torrencial verbosidade, a que não oppunha diques, e com as joviaes cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quaes se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbatico companheiro.

Explica-se bem esta differença, dizendo que o cavalleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão.

O leitor provavelmente ha de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto que o grato e quasi voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planisa qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que d'ella guardamos depois, são coisas de incomparavelmente muito maiores delicias, do que as impressões experimentadas no proprio momento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e mórmente nas classicas estalagens das nossas provincias. As pequenas impertinencias, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou que a saudade consegue até dourar e poetisar a seu modo; esses microscopicos martyrios, que de longe não avultam, actuam-nos, na occasião, a ponto de nos inhabilitar para o gôso do que é realmente bello. A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre que se monta, o tempêro ou destempêro do heteróclito cozinhado com que se enche o estomago, a lama que nos encrusta até os cabellos, o pó que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o cerebro, tudo então nos desafina o espirito, que traziamos na tensão necessaria para vibrar perante as maravilhas da natureza ou da arte.

Só pelo preço de muitas jornadas se compra o habito de ficar impassivel no meio dos episodios d'estas pequenas odyssêas, que atormentam e exhaurem o animo dos Ulysses novatos; mas ai, quando se adquire esse habito, tambem nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as commoções do bello.

Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos enthusiasmo; analysa-se mais e melhor; porém a propria analyse é a prova de que se sente menos. Onde domina o sentimento e a imaginação, mal teem cabida a paciencia e phleúgma, necessarias aos processos analyticos. O homem positivo e frio recolhe de qualquer excursão á patria com a carteira cheia de apontamentos; o enthusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu mais.

Mas Henrique de Souzellas—que era este o nome do cavalleiro—fôra educado e passado da infancia á plena juventude, em Lisboa, levantando-se por avançada manhã, frequentando o theatro, o Gremio, as camaras, parolando no Chiado ou no Rocio, e indo alguns dias no anno a Cintra, ou qualquer praia de banhos, desenfadar-se da monotonia da capital.

Desde que fazia perfeito e consciente uso da razão, fôra esta jornada, em que o encontramos, a primeira levada a effeito, e logo sob tão maus auspicios, que era para suffocar-lhe á nascença os instinctos de touriste, se porventura quizessem despertar n'elle.

Havia dois dias que cavalgava aquelle rocinante, unico vehiculo accommodado aos caminhos por que passára. E então que dois dias! D'aquelles, durante os quaes o céo, uniformemente pardo, parece desfazer-se em agua, e a chuva cae sem interrupção e com uma teimosia e constancia impacientadoras; d'aquelles em que a terra saciada rejeita já a agua que recebe, a qual escorre nos declives, transborda dos algares, e encharca-se nos terrenos baixos, transformando em brejos as lezirias; em que as lufadas do sul vergam e torcem os ramos, melancolicamente despidos, dos álamos e sobreiros, e emprestam aos pinheiraes a voz dos mares; em que os campos se mostram desertos, a noite se anticipa, e tão densas nuvens cobrem o firmamento, que parece tomar-nos a persuasão de que nunca mais o veremos com as suas formosas vestes de azul.

Vejam se, n'estas circumstancias, o pobre rapaz podia deixar de ir cabisbaixo, triste e dando ao diabo a viagem que commettera.

E para quê e por quê a commettera elle assim?

Em poucas palavras procuraremos satisfazer a natural interrogação, que é de suppôr nos dirigissem os leitores, se podessem fazel-o.

Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos vinte e sete annos, vivendo, como dissémos, aquella enlanguescedora vida da capital, e dividindo as attenções do espiri Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos vinte e sete annos, vivendo, como dissémos, aquella enlanguescedora vida da capital, e dividindo as attenções do espirito pela politica, pela litteratura e pelos destinos do theatro de S. Carlos, do qual estava habilitado a fazer circumstanciada chronica, que abrangesse os ultimos dez annos.

Não concebia vida fóra d'aquillo.

O mundo para elle era Lisboa. Não sentia desejos, nem imaginava possibilidade de visitar a Europa, quanto mais a provincia; o que seria maior façanha.

Não que lhe faltassem recursos para realisar qualquer projecto d'esta natureza.

Henrique herdára dos paes rendimentos bastantes, dos quaes vivia folgadamente e sem precisar de sacrificar nos altares da economia.

Mas a indolencia lisbonense manietava-o alli. A poucos ia tão direita a apostrophe de Garrett aos seus «queridos alfacinhas», a qual se pode ler no livro setimo das Viagens.

De certo tempo em deante começou, porém, a incommodal-o uma especie de vácuo interior, um mal-estar, doença infallivel nos celibatarios sem familia, quando chegam á idade a que chegou Henrique, e passam a vida como elle.

Tudo lhe causava fastio. Bocejava em S. Carlos, bocejava nas camaras, bocejava no Gremio, bocejava no Suisso, no Chiado e nos circulos dos seus amigos, os quaes principiaram tambem a achal-o insupportavel de insipidez; porque poucas coisas ha que mais perturbem o espirito, do que o espectaculo d'um homem que boceja ou dorme, onde e quando os outros forcejam por divertir-se.

O demonio da hypocondria, esse demonio negro e lugubre, implacavel verdugo dos ociosos e egoistas, o qual havia muito o espiava, apoderou-se d'elle em corpo e alma.

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A Morgadinha dos Cannaviaes von Júlio Dinis. Der Text ist in den USA gemeinfrei, digitalisiert von den Freiwilligen von Project Gutenberg. Wir liefern ihn aus unserer eigenen Kopie aus.

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