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  1. A Camillo Castello Branco
  2. PARTE I OS DOENTIOS
  3. A Ruiva
  4. Sempre Amigos
  5. O Tio da America
  6. A Idéa da Comadre Monica
  7. Historia de Dois Patifes
  8. A Desforra de Baccarat
  9. Quatro Épocas (CONTADO POR UM MISANTHROPO)
  10. O Funambulo de Marmore
  11. O Milagre do Convento
  12. Dois Primos
  13. A Expulsão dos Jesuitas
  14. O Ninho d’Aguia
  15. A Dor
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Contos

Fialho de Almeida

kostenlos · 76.442 Wörter · ~5 Std. Lesezeit

Text von Project Gutenberg

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Pag.
A Camillo Castello Branco 5
A Ruiva 9
Sempre amigos 119
O tio da America 157
A idéa da comadre Monica 175
Historia de dois patifes 189
A desforra de Baccarat 205
Quatro épocas 221
O funambulo de marmore 241
O milagre do convento 257
Dois primos 323
A expulsão dos jesuitas 341
O ninho d’aguia 357
A dôr 373

A
Camillo Castello Branco


Acabo de relêr toda a sua obra. Quanto no artista e no escriptor, o talento tem de malleavel, de voluntarioso e de grande—a ironia na sua expansão facetada e cortante, o estylo na elastica elegancia nervosa dos seus moldes plasticos, e a observação no seu processo tenaz de analyse e de critica—tudo nos seus livros se encontra, a mãos plenas, com uma opulencia que deslumbra.

Não sei negar admiração aos homens do seu tamanho, nem lh’a recusarão com sinceridade e justiça os que, como eu, tiverem passado em revista os seus trinta annos de gloriosa e efflorescente actividade.

Peço-lhe que aceite a dedicatoria d’este livro mediocre, que pude elaborar nos ocios de uma vida, cortada de trabalhos e dissabores. Duas cousas me levam a consagrar-lh’o—o intento de amortisar uma divida de gratidão pelo que nos seus livros me foi salutar, e o dever honesto de tirar o chapéo diante do que é superior.

PARTE I
OS DOENTIOS

A Ruiva

A taberna do Pescada ficava mesmo em frente ao cemiterio dos Prazeres, e era frequentada pela gente do sitio, especialmente de noite, á hora em que os cabouqueiros e os britadores abandonam os seus trabalhos e entram na cidade, em ruido.

Tratava-se então de levantar um muro de cantaria que fosse como a fachada opulenta da gelida cidade de cadaveres; na planura que medeia entre o cemiterio e as terras, o terreno via-se revolto; os carros de mão jaziam esquecidos; os montes de pedras miudas e de argamassas antigas tornavam penoso o transito. Na lama constante do caminho, eram profundos os sulcos que as seges de enterro deixavam até á porta do cemiterio, escancarada sempre, como a guela d’um plesiosauro faminto.

Em anoitecendo, tudo aquillo era de uma contemplação lugubre e mysteriosa, em que se adivinhava o trabalho de milhões de larvas; o ladrar dos cães tinha um echo desolado, que tornava depois mais sinistro o silencio; a porta fechava-se sem rumor, girando em gonzos discretos, e uma luz esmaecia na treva, no fundo dos cyprestes e dos tumulos, diante de um santuario deserto, onde o Christo, do alto, olhava vagamente o guarda-vento.

Começavam então a chegar á tasca os guardas encanecidos no mister de receber enterros, graves nos seus uniformes fatidicos, os coveiros angulosos e vesgos lançando de si um fetido deleterio; e cada um, dando boas noites á tia Lauriana, ia sentar-se á banca, no seu lugar, chupando pontas de cigarro e pedindo decilitros. Todas as noites a casa se enchia, e o aspecto era sempre o mesmo.

Ao fundo, encostada ao balcão forrado de zinco, a tia Lauriana, mulher de grandes seios e arrecadas, que tinha a especialidade dos pasteis de bacalhau, e pernas masculas sahindo de grosseiras saias de baetilha; ao canto, o cego de chapeirão derrubado, attitude fria, faminta, dolorida e apagada, a rebeca nos joelhos, a manta de riscas ao hombro, a eterna noite nas feições. O grupo dos trolhas junto da porta, discutia o preço das couves e o numero de ventres perfurados com facas de ponta, durante a semana. Zé Claudino tinha a palavra; a sua authoridade indiscutivel de orador popular, fazia-lhe cahir dos labios, como um rosario de sons, as palavras graves, indecorosas, chulas e poeticas, em mixto turbulento e intelligente.

Bebedos extraordinarios fallam de tudo e descrevem parabolas no sólo, com a sombra de seus copos embrutecidos. Dous ou tres embirram com a sombra.

—Mette-te commigo, resmungam; cahe n’essa, minha tyranna!

—A velhaca, commentam, tem agora a mania de ir adiante de mim. Esta manhã era atraz. Mas não me larga! Bebeda!

—Era o que me faltava! Sucia de marmanjos!

E insistentes, aos zig-zagues:

—Persegue-me anda, persegue-me, que levas dois butes.

—Lá isso, ouve-se outro dizer na rua, lá isso, não digo eu... Que elle ha um Deus que nos governa: é boa!

Eu entrava, comprimentando os velhos conhecimentos.

—Ditosos olhos, estudantinho! dizia um.

—Ó seu casaca! fazia outro.

—Seja bem apparecido e pague-nos dois dedos de marufo.

Um velho fressureiro, com o olho esgazeado de sicario experiente, tocando-me o braço com a sua mão ensanguentada, ia aconselhando baixo:

—Prove-me do branco, doutor; prove-me do branco que é uma reinação! Com um pastelinho, não lhe conto nada...

Aquelles eram os meus amigos, perigosos amigos contrahidos na intimidade do vicio e no surdo deboche das tascas.

Sentava-me. A Lauriana vinha, sorrindo, servir-me; e o seu olho pardo, sequioso, acariciava a brancura do meu pescoço, appetecia os meus cabellos de um louro claro, tons insipidos, sob as abas do chapéo esburacado. O seu halito empestava a dez passos, trazido nas azas do seu amor quente e brutal, de uma infamia cheia de mercancia. Ouvindo-me pedir qualquer cousa, o olhar adoçava-se-lhe como o d’essas gatas a quem coçamos o craneo; e eu sentia exhalar-se d’ella um fartum de gorduras fundidas, que me perturbava. N’essa noite chegou o tio Farrusco.

Era coveiro e o mais asqueroso,—o da valla; aspecto repellente, perfil aspero e cortante, descarnadas as faces, as mãos aduncas e gastas, cheias de terra e de cabellos.

Sobre a testa, de uma pollegada de largo, cahiam grenhas fermentadas; as orelhas desappareciam-lhe sob a lã sebacea d’um barrete cinzento; por um rasgão da camisa, furava uma moita de cabellos hirsutos, brancos como um pé de junco sêcco, nascido entre as pedras d’um muro arruinado de azenha decrepita. Quasi lhe ficavam pelas esquinas a que se encostava, os farrapos em que embrulhava o corpo esqueletico e lustroso, como de couro curtido.

Um cabouqueiro tostado, perfil adunco de coruja, bateu-lhe no hombro.

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