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  1. Lisboa--Imprensa Nacional--1874
  2. VIAGENS MARAVILHOSAS
  3. JULIO VERNE
  4. DA TERRA Á LUA
  5. VIAGEM DIRECTA EM 97 HORAS E 20 MINUTOS TRADUCÇÃO DE HENRIQUE DE MACEDO
  6. BIBLIOTHECA ILLUSTRADA DE INSTRUCÇÃO E RECREIO EMPREZA HORAS ROMANTICAS Rua dos Calafates, 102, 1.º andar LISBOA
  7. --JULIO VERNE--
  8. DA TERRA Á LUA
  9. CAPITULO I
  10. O GUN-CLUB
  11. CAPITULO II
  12. COMMUNICAÇÃO DO PRESIDENTE BARBICANE
  13. CAPITULO III
  14. EFFEITO DA COMMUNICAÇÃO BARBICANE
  15. CAPITULO IV
  16. RESPOSTA DO OBSERVATORIO DE CAMBRIDGE
  17. CAPITULO V
  18. O ROMANCE DA LUA
  19. CAPITULO VI
  20. O QUE NÃO É POSSÍVEL IGNORAR E O QUE JÁ NÃO É PERMITTIDO ACREDITAR NOS ESTADOS UNIDOS
  21. CAPITULO VII
  22. O HYMNO DA BALA
  23. CAPITULO VIII
  24. HISTORIA DO CANHÃO
  25. CAPITULO IX
  26. QUESTÃO DA POLVORA
  27. CAPITULO X
  28. UM INIMIGO POR VINTE E CINCO MILHÕES DE AMIGOS
  29. CAPITULO XI
  30. A FLÓRIDA E O TEXAS
  31. CAPITULO XII
  32. URBI ET ORBI
  33. CAPITULO XIII
  34. STONE'S-HILL
  35. CAPITULO XIV
  36. ALVIÃO E TROLHA
  37. CAPITULO XV
  38. A FESTA DA FUNDIÇÃO
  39. CAPITULO XVI
  40. A COLUMBIADA
  41. CAPITULO XVII
  42. UM DESPACHO TELEGRAPHICO
  43. CAPITULO XVIII
  44. O PASSAGEIRO DO ATLANTA
  45. CAPITULO XIX
  46. UM MEETING
  47. CAPITULO XX
  48. ATAQUE E REPLICA
  49. CAPITULO XXI
  50. COMO UM FRANCEZ ARRANJA UMA PENDENCIA DE HONRA
  51. CAPITULO XXII
  52. O NOVO CIDADÃO DOS ESTADOS UNIDOS
  53. CAPITULO XXIII
  54. O WAGON-PROJECTIL
  55. CAPITULO XXIV
  56. O TELESCOPIO DAS MONTANHAS PENHASCOSAS
  57. CAPITULO XXV
  58. ULTIMOS PORMENORES
  59. CAPITULO XXVI
  60. FOGO!
  61. CAPITULO XXVII
  62. CÉU ENCOBERTO
  63. CAPITULO XXVIII
  64. UM ASTRO NOVO
  65. FIM DE «DA TERRA Á LUA».
  66. INDICE DOS CAPITULOS
  67. Lista de erros corrigidos
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Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos

Jules Verne

kostenlos · 57.972 Wörter · ~4 Std. Lesezeit

Text von Project Gutenberg

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Lisboa--Imprensa Nacional--1874



VIAGENS MARAVILHOSAS


JULIO VERNE


DA TERRA Á LUA

VIAGEM DIRECTA

EM 97 HORAS E 20 MINUTOS

TRADUCÇÃO

DE

HENRIQUE DE MACEDO


Lente de mathematica na escola polytechnica e astronomo no observatorio
de marinha





BIBLIOTHECA ILLUSTRADA DE INSTRUCÇÃO E RECREIO
EMPREZA HORAS ROMANTICAS
Rua dos Calafates, 102, 1.º andar
LISBOA



Traducção auctorisada e reservada







--JULIO VERNE--



DA TERRA Á LUA


CAPITULO I

O GUN-CLUB

Durante a guerra federal dos Estados Unidos fundou-se, na cidade de Baltimore, mesmo no centro do Maryland, um novo club de grande influencia.

É notoria a energia com que se desenvolveram os instinctos militares por entre aquella população de armadores, de negociantes e de machinistas. Insignificantes mercadores saltaram por cima do balcão e acharam-se de improviso transformados em capitães, em coroneis e até em generaes, sem terem passado pelas escolas de applicação de West-Point[1]; em curto espaço foram na arte da guerra dignos rivaes dos collegas do velho continente, e, á imitação d'estes, alcançaram, á força de prodigalisar balas, milhões e homens, brilhantes victorias.

Mas em que os americanos excederam singularmente os europeus foi na sciencia da balistica; e não porque as armas americanas attingissem mais elevado grau de perfeição, senão porque apresentaram dimensões desusadas, e tiveram por consequencia alcances correspondentes e até então desconhecidos.

Pelo que diz respeito a tiros rasantes, immergentes ou em cheio, a fogos de escarpa de enfiada ou de revez, já não têem, inglezes, francezes nem prussianos cousa alguma que aprender; mas os canhões, obuzes e morteiros europeus são apenas pistolas de algibeira, comparados com os formidaveis machinismos bellicos da artilheria americana.

Não deve causar espanto o que deixâmos dito. Os yankees, que são os primeiros mechanicos do mundo, nascem engenheiros como qualquer italiano nasce musico, ou qualquer allemão, philosopho transcendental; portanto nada mais natural do que ve-los demonstrar na applicação á sciencia da balistica o audacioso engenho de que são dotados.

Assim se explicam esses gigantescos canhões, que, muito menos uteis que as machinas de coser, são pelo menos tão admiraveis e de certo ainda mais admirados. Os maravilhosos inventos, n'este genero, de Parrott, de Dahlgreen e de Rodman são bem conhecidos; os Armstrong, os Palliser, os Treuille de Beaulieu não tiveram mais remedio do que curvar-se vencidos perante os seus rivaes de alem mar.

Tudo isto deu causa a que, durante a terrivel lucta entre os partidarios do norte e os do sul, occupassem os artilheiros em toda a parte o primeiro logar; celebravam-lhes os jornaes da União os inventos com enthusiasmo, e sem exceptuar o mais insignificante dos logistas ou o mais ingenuo dos booby[2], todos quebravam a cabeça dia e noite a calcular trajectorias impossiveis.

Ora quando a uma cabeça de americano acode uma idéa, busca logo o seu possuidor segundo americano que a acceite: chegam a tres, elegem logo presidente e dois secretarios; quatro, nomeiam archivista e funcciona a mesa; cinco, convocam-se em assembléa geral, e está constituido um club. Assim succedeu em Baltimore.

O primeiro que inventou um novo canhão associou-se com o primeiro que o fundiu e com o primeiro que o perfurou. Tal foi o primitivo nucleo do Gun-Club[3], que um mez depois da sua inauguração contava mil oitocentos e trinta e tres socios effectivos, e trinta mil quinhentos e setenta e cinco socios correspondentes.

A todos que queriam fazer parte da associação era imposta uma condição sine qua non, a de ter inventado, ou pelo menos aperfeiçoado, um canhão; na falta de canhão uma arma de fogo qualquer. Mas, para dizer a verdade inteira, bem pouca consideração gosavam os inventores de revolvers de quinze tiros, de carabinas girantes ou de sabres-pistolas. Em tudo lhe levavam os artilheiros primazia.

A estima de que é credor qualquer socio, disse um dia um dos mais entendidos oradores do Gun-Club, é proporcional «ás massas» do canhão que inventou, e está «na rasão directa do quadrado das distancias a que alcançam os respectivos projectis!»


Os artilheiros de Gun-Club (pag. 12).

Com pequena differença, era a lei de Newton ácerca da gravitação universal transportada ás cousas do mundo moral.


O presidente Barbicane (pag. 19).

Fundado o Gun-Club, facil é imaginar o que produziria n'este genero o engenho inventivo dos americanos. Os machinismos de guerra assumiram proporções colossaes, e os projectis foram alem dos limites permittidos partir em dois bocados inoffensivos transeuntes. Todos estes inventos deixaram a perder de vista os timidos instrumentos da artilheria europea. Forme-se juizo pelos seguintes algarismos.

Outr'ora «bom tempo era esse» uma bala de trinta e seis, á distancia de trezentos pés, varava trinta e seis cavallos apanhados de flanco ou sessenta e oito homens. Era a infancia da arte. Desde essa epocha progrediram muito os projectis. O canhão Rodman, que, com uma bala de meia tonelada[4] alcançava a sete milhas[5], facilmente poria fóra de combate cento e cincoenta cavallos e trezentos homens. Chegou-se até a discutir no Gun-Club a conveniencia e possibilidade de submetter a uma experiencia solemne as qualidades d'este canhão monstruoso. Porém se os cavallos consentiram em tentar a experiencia, infelizmente a respeito de homens nem um só se offereceu.

Em todo o caso, o que é fóra de duvida é que o effeito d'estas armas era extremamente mortifero e que por cada tiro caíam os combatentes como espigas sob a foice do ceifador. Que valiam, comparados com taes projectis, aquella famosa bala que, em Contras, em 1785, poz fóra de combate vinte e cinco homens, ou aquella outra que, em Zorndoff em 1758, matou quarenta infantes, e o canhão austriaco de Kesselsdorf, em 1742, que por cada tiro derrubava setenta inimigos?

Que importancia tinham esses surprehendentes fogos de Iena ou de Austerlitz, que decidiram da sorte de uma batalha? Durante a guerra federal na America viram-se cousas muito mais de pasmar! No combate de Gettysburg, um projectil conico lançado por um canhão raiado feriu cento e setenta e tres confederados, e, na passagem do Potomac, uma bala Rodman mandou para um mundo evidentemente melhor duzentos e quinze partidarios do Sul. Não é menos digno de menção um formidavel morteiro inventado por J.-T. Maston, socio distincto e secretario perpetuo do Gun-Club, cujos effeitos foram sem comparação mais mortiferos, visto como, do primeiro tiro de experiencia, matou trezentas e trinta e sete pessoas; verdade é que o morteiro rebentou!

Que havemos de accrescentar a estes numeros já de per si tão eloquentes? Nada. Assim, por certo, será admittido sem contradicção o seguinte calculo apresentado pelo estatistico Pitcairn, que dividindo o numero das victimas de tiro de bala pelo dos socios do Gun-Club, demonstrou que cada um d'estes tinha morto em «media», dois mil trezentos e setenta e cinco homens e uma fracção.

Para quem reflectir em tal algarismo, fica evidente que a unica preoccupação d'aquella sociedade scientifica era a destruição da humanidade, com um fim philanthropico, o aperfeiçoamento das armas de guerra, consideradas como instrumentos de civilisação. Era uma reunião de anjos exterminadores, e a fóra isto, as melhores pessoas do mundo.

Cumpre-nos accrescentar que estes yankees corajosos a toda a prova, não se ficavam em formulas e experimentavam com o proprio corpo. Havia no Club officiaes de todas as graduações, de tenente a general, militares de todas as idades, dos que debutavam na carreira das armas, como dos que iam já encanecendo sobre os reparos. Muitos tinham ficado nos campos de batalha, cujos nomes estavam inscriptos no livro de honra do Gun-Club, e dos que tinham voltado a maior parte trazia no proprio corpo signaes indiscutiveis de intrepidez. Moletas, pernas de pau, braços articulados, mãos de gancho, maxilas de caoutchouc, craneos de prata, narizes de platina... a collecção era completa. O supradito Pitcairn calculou tambem que no Gun-Club havia um pouco menos de um braço por quatro pessoas e sómente duas pernas por cada seis socios.

Mas os valentes artilheiros pouca importancia ligavam a similhantes ninharias, e com legitimo fundamento se ufanavam, quando o boletim da batalha contava o numero das victimas pelo decuplo dos tiros disparados.

Porém um dia, triste e lamentavel dia, foi assignada a paz pelos sobrevivos da guerra; cessaram pouco a pouco as detonações, calaram-se os morteiros, os obuzes para largo tempo açaimados e os canhões de cabeça pendida, recolheram aos arsenaes; as balas empilharam-se nos parques, foram-se apagando as recordações sanguinolentas, brotaram com magnificencia os algodoeiros dos campos pinguemente adubados, foram-se fazendo velhos a par das dores e das saudades os fatos de luto, e o Gun-Club ficou immerso na mais profunda inacção.

Um ou outro trabalhador afferrado e incansavel se entregava ainda a calculos balisticos e fazia seu pensamento dilecto de bombas gigantescas e obuzes incomparaveis.

Mas sem pratica de que serviam theorias vãs?

Por isso as salas do Club viam-se desertas, dormiam os creados nas antecamaras, os jornaes creavam bafio por cima das mesas, ouviam-se tristes roncos, que partiam dos cantos escuros das salas, e os membros do Gun-Club, outr'ora tão ruidosos, agora reduzidos ao silencio por uma paz desastrosa, adormeciam engolfados em meditações de artilheria platonica.

«Que desconsolação, dizia uma noite o valente Tom Hunter, e no entretanto ia-lhe o lume do fogão carbonisando as pernas de pau: Nada que fazer! nem uma esperança! Que fastidiosa existencia! Onde vae o tempo em que as alegres detonações do canhão nos despertavam todas as manhãs?

Esse tempo já lá vae, retorquiu o inquieto Bilsby, esperguiçando-se com os braços que já não tinha. Era um feliz tempo esse. Inventava qualquer o seu obuz, e apenas fundido, corria a experimenta-lo no inimigo; quando regressava, ao acampamento sempre tinha ouvido alguma palavra animadora a Sherman ou recebido um aperto de mão de Mac-Clellan! Mas hoje, os generaes voltaram aos seus balcões, e em vez de projectis, expedem inoffensivos fardos de algodão! Ai! por santa Barbara! Está perdido o futuro da artilheria na America!

--É verdade, Bilsby, exclamou o coronel Blomsberry, são bem crueis estes desenganos! Deixa a gente um dia os seus habitos socegados, exercita-se no manejo das armas, troca Baltimore pelos campos de batalha, porta-se como um heroe, e dois ou tres annos depois, ha de perder o fructo de tantas fadigas, adormecer em deploravel ociosidade, e encaixar as mãos nas algibeiras.»

Bem podia fallar o valente coronel, havia de ver-se em graves difficuldades, se quizesse dar tal prova de inactividade, e não eram as algibeiras que lhe faltavam.

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danke fürs Lesen

Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos von Jules Verne. Der Text ist in den USA gemeinfrei, digitalisiert von den Freiwilligen von Project Gutenberg. Wir liefern ihn aus unserer eigenen Kopie aus.

tale.fyi