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  1. A DAMA-PÉ-DE-CABRA
  2. RIMANCE DE UM JOGRAL
  3. SECULO XI
  4. TROVA PRIMEIRA.
  5. TROVA SEGUNDA.
  6. TROVA TERCEIRA
  7. O BISPO NEGRO
  8. NOTA
  9. A MORTE DO LIDADOR
  10. O PAROCHO DA ALDEIA
  11. PROLOGO.
  12. I
  13. A ALDEIA E O PRESBYTERIO.
  14. II
  15. NOITADAS PAROCHIAES.
  16. III
  17. UMA ESCORREGADELA.
  18. IV
  19. ALHOS E BUGALHOS.
  20. V
  21. EXCURSO PATRIOTICO.
  22. VI
  23. BARTHOLOMEU DA VENTOSA.
  24. VII
  25. TANTAENE ANIMIS?
  26. VIII
  27. GLORIA AO PADRE PRIOR.
  28. DE JERSEY A GRANVILLE.
  29. FIM DO TOMO II.
  30. INDICE.
  31. A DAMA PÉ-DE-CABRA
  32. (SECULO XI)
  33. O BISPO NEGRO (1130)
  34. A MORTE DO LIDADOR (1170)
  35. O PAROCHO DA ALDEIA (1825)
  36. DE JERSEY A GRANVILLE (1831)
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Lendas e Narrativas (Tomo II)

Alexandre Herculano

kostenlos · 58.586 Wörter · ~4 Std. Lesezeit

Text von Project Gutenberg

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A DAMA-PÉ-DE-CABRA
RIMANCE DE UM JOGRAL

SECULO XI

TROVA PRIMEIRA.

1

Vós os que não crêdes em bruxas, nem em almas penadas, nem nas tropelias de Satanás, assentae-vos aqui ao lar, bem junctos ao pé de mim, e contar-vos-hei a historia de D. Diogo Lopes, senhor de Biscaia.

E não me digam no fim:—"não póde ser."—Pois eu sei cá inventar cousas destas? Se a conto é porque a li n'um livro muito velho, quasi tão velho como o nosso Portugal. E o auctor do livro velho leu-a algures, ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral em seus cantares.

É uma tradição veneranda; e quem descrê das tradições lá irá para onde o pague.

Juro-vos que se me negaes esta certissima historia sois dez vezes mais descridos do que S. Thomé antes de ser grande sancto. E não sei se eu estarei de animo de perdoar-vos, como Cbristo lhe perdoou.

Silencio profundissimo; porque vou principiar.

2

D. Diogo Lopes era um infatigavel monteiro: neves da serra no inverno, soes dos estevaes no verão, noites e madrugadas, d'isso se ria elle.

Pela manhan cedo de um dia sereno estava D. Diogo em sua armada, em monte selvoso e agreste, esperando um porco montez, que, batido pelos caçadores, devia saír naquella assomada.

Eis senão quando começa a ouvir cantar ao longe: era um lindo, lindo cantar.

Alevantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre ella estava assentada uma formosa dama; era a dama quem cantava.

O porco fica desta vez livre e quite; porque D. Diogo Lopes não corre, voa para o penhasco.

"Quem sois vós, senhora tão gentil; quem sois, que logo me captivastes?"

"Sou de tão alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis, como tu, senhor de Biscaia."

"Se já sabeis quem eu seja, offereço-vos a minha mão, e com ella as minhas terras e vassallos."

"Guarda as tuas terras, D. Diogo Lopes, que poucas são para seguires tuas montarias; para o desporto e folgança de bom cavalleiro que és. Guarda os teus vassallos, senhor de Biscaia, que poucos são elles para te baterem a caça."

"Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu offerecer digno de vós e de mim; que se a vossa belleza é divina, eu sou em toda a Hespanha o rico homem mais abastado?"

"Rico-homem, rico-homem, o que eu te acceitára em arrhas cousa é de pouca valia; mas apesar d'isso não creio que m'o concedas; porque é um legado de tua mãe, a rica-dona de Biscaia."

"E se eu te amasse mais que a minha mãe, porque não te cederia qualquer dos seus muitos legados?"

"Então se queres ver-me sempre ao pé de ti não jures que farás o que dizes, mas dá-me d'isso a tua palavra."

"A la fé de cavalleiro, não darei uma, darei milhentas palavras."

"Pois sabe que para eu ser tua é preciso esqueceres-te de uma cousa que a boa rica-dona te ensinava em pequenino, e que estando para morrer ainda te recordava."

"De quê, de quê, donzella?"—acudiu o cavalleiro com os olhos faiscantes.—"De nunca dar treguas á mourisma, nem perdoar aos cães de Mafamede? Sou bom christão. Guai de ti e de mim se és dessa raça damnada!"

"Não é isso, dom cavalleiro,"—interrompeu a donzella a rir.—"O de que eu quero que te esqueças é do signal da cruz: o que eu quero que me promettas é que nunca mais has-de persignar-te."

"Isso é outra cousa:"—replicou D. Diogo, que nos folgares e devassidões perdêra o caminho do céu. E poz-se um pouco a scismar.

E scismando dizia comsigo:—"De que servem benzeduras? Matarei mais duzentos mouros e darei uma herdade a Sanctiago. Ella por ella. Um presente ao apostolo e duzentas cabeças de agarenos valem bem um grosso peccado."

E erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura, exclamou:—"Seja assim: está dicto. Vá, com seiscentos diabos."

E levando a bella dama nos braços, cavalgou na mula em que viera montado.

Só quando á noite no seu castello pôde considerar miudamente as fórmas nuas da airosa dama, notou que tinha os pés forcados como os de cabra.

3

Dirá agora alguem:—"Era por certo o demonio que entrou em casa de D. Diogo Lopes. O que lá não iria!"—Pois sabei que não ía nada.

Por annos a dama e o cavalleiro viveram em boa paz e união. Dous argumentos vivos havia d'isso: D. Inigo Guerra e D. Sol, enlevo ambos de seu pae.

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Lendas e Narrativas (Tomo II) von Alexandre Herculano. Der Text ist in den USA gemeinfrei, digitalisiert von den Freiwilligen von Project Gutenberg. Wir liefern ihn aus unserer eigenen Kopie aus.

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