Novelas do Minho
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Novellas do Minho
Volume I
SEGUNDA EDIÇÃO
LISBOA Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA-EDITORA Rua Augusta, 50, 52 e 54 1903
OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO
EDIÇÃO POPULAR
XVII
NOVELLAS DO MINHO
VOLUMES PUBLICADOS
I—Coisas espantosas.
II—As tres irmans.
III—A engeitada.
IV—Doze casamentos felizes.
V—O esqueleto.
VI—O bem e o mal.
VII—O senhor do Paço de Ninães.
VIII—Anathema.
IX—A mulher fatal.
X—Cavar em ruinas
XI }
} Correspondencia epistolar.
XII }
XIII—Divindade de Jesus.
XIV—A doida do Candal.
XV—Duas horas de leitura.
XVI—Fanny.
XVII }
XVIII } Novellas do Minho.
XIX }
CAMILLO CASTELLO BRANCO
NOVELLAS DO MINHO
SEGUNDA EDIÇÃO
LISBOA Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA EDITORA Rua Augusta, 50, 52 e 54 1903
LISBOA Officinas Typographica e de Encadernação Movidas a vapor Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.^o 1903
I
GRACEJOS QUE MATAM
Isto de querer ter graça e de fazer rir os outros anda por boa
gente no dia de hoje.
Theatro de Manoel de Figueiredo. Censores do theatro, T. VI, pag.
36
Ao Dr. Thomaz de Carvalho
*GRACEJOS QUE MATAM*
Ordinariamente, chamam-se á franceza—espirituosos—uns sugeitos dotados de genio motejador, applaudidos com a gargalhada, e aborrecidos áquelles mesmos que os applaudem. São os caricaturistas da graciosidade.
O «espirituoso», á moderna, abrange os variados officios que, antes da nacionalisação d'aquelle extrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de caza, outros importados:
Chocarreiro—tregeiteador—arlequim—palhaço—proxinella—polichinello— —maninêllo—truão—jogral—goliardo—histrião—farcista—farçola—végete— —bobo—pierrot—momo—bufão—folião, etc.
Esta riqueza de synonimia denota que o bobo medieval bracejou na peninsula iberica vergonteas e enxertias em tanta copia que foi preciso dar nome ás especies.
Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga jogralidade, que era mestér vil, acendrada nos secretos crizoes do progresso social, chegou a nós afidalgada em «espirito», e com o fôro maior de faculdade poderosa, caustica, implacavel.
Ainda assim o estreme espirito portuguez, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo: não se emancipa da velha escola das farças: é chalaça.
Ha poucos mezes, falleceu em Lisboa um «espirituoso» que andou trinta ou quarenta annos a passear a sua reputação entre o Chiado e o Rocio. As gazetas, ao mesmo passo que nos inculcavam o defunto como pessoa que vivêra aventurosamente uns setenta annos tingidos com primoroso pincel, descontavam n'estes defeitos a sua immensa graça, e reproduziram nova edição melhorada das suas anecdotas.
Averiguado o «espirito» do homem em coisas burlescas de que fez mercancia na feira politica, liquida-se, quando muito, um folião que desbragava a penna e desembestava asselvajadamente o insulto. Por este, que não deixou nome sobre-vivente para vinte quatro horas—nem o terá aqui—orça a maioria dos jograes que tenho visto, nos ultimos trinta annos, esburgar o osso da facção que lhes alquilla o engenho detrahidor, e acabarem antes da geração que os galardoou com a moeda falsa das rizadas.
O satyrico de sala e botequim é mais funesto e menos trivial que o politico; mais funesto por que vulnéra melindres—coisa que o callôso peito da politica não tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne não apégou aqui, nem se adelgaça á feição da nossa indole, bem accentuada nas chocarrices plebeas de Gil Vicente e Antonio José.
É mais funesto, repito; por que me occorre hoje, regressando das Caldas de Vizella, uma historia funestissima de que só eu posso lembrar me. Duas chalaças terçadas entre dois amigos, cavaram sepulturas de vidas e honras. Se as novellas podessem ensinar alguma coisa, corrigindo aleijões da alma, eu pediria aos gracejadores que lessem isto; e, nas occasiões em que a lingua lhes descabe na bocca, engrossada pela opilação da dicacidade, a refreassem com os dentes.
* * * * *
Era em 1851.
Apresso me a declarar que, no tocante a nomes e localidades, desfigurei tudo, salvo generalidades vagas e o logar em que principia a narrativa. O que menos monta na exactidão da historia é o que ahi se illide. Nomear pessoas e terras seria denunciar inutilmente um crime. O criminoso está diante do Juiz inappellavel, e seus filhos innocentes respeitam-lhe a memoria.
Era, pois, em 1851, aos 15 de junho, nas Caldas de Vizella.
Entre os salgueiros que enverdecem uma ilhêta acima da ponte, que hoje chamam «velha», á hora de sesta, emboscaram-se sete pessoas que preferiam aquelle frescor acre do arvoredo, golpeado por meandros do rio, ao cheiro sulphuroso e até sulphydrico da «Lameira».
O grupo compunha-se de pessoas de diversas procedencias:
D. Helena da Penha, chamada na sua terra a Morgada velha. Cincoenta e tantos annos, viuva do capitão-mór de Athey, educada em convento, murmurando da educação e dos costumes do claustro, d'onde sahira com incertos conhecimentos do cathecismo, e alguma instrucção em bisca sueca, e no Feliz independente do padre Theodoro d'Almeida. Excellente senhora que se conteve viuva desde os trinta e dois annos viçosos e temperados sanguinamente para não dar padrasto á filha unica.
D. Irene, a Morgada nova, vinte e sete annos, galante, mais menina que a sua idade, cheia de denguices, amimada, acriançando-se em tregeitos e dizeres, descompondo os artificios pueris com uns ares de desgarro e desinvoltura—em bom sentido, aliás.
Decerto já observou, leitor, em senhoras de provincia um desembaraço bronco, um remecherem-se e bacharellarem despropositadamente,—desaires resultantes de lhes haverem dito que o pejo e o acanhamento são indicios de educação aldeã. Estes despêjos improvisados sem delicadeza nem natural, quando topam diversa sociedade em praias ou caldas, dão-lhes ares do que não são, e abrem margem a suspeitas indecorosas; por que ellas, com taes artes, conseguem desornar-se dos commedimentos do pudor.
D. Irene era assim. Depois veremos o que ella era mais compridamente.
Direi agora dos cinco sugeitos do grupo.
O abbade de Santa Eulalia, passante da meia idade, pagão em litteratura, mestre de latim no seu concelho de Cabeceiras. Citava Virgilio apropositadamente. Quando alguem se dizia regalado com a frescura do salgueiral, declamava um trecho das Églogas em que havia sálices. Ao sentar-se na corcova do tronco retorcido de um amieiro, exclamava sempre, sibilando as delicias do meio-grosso: sub tegmine. Tinha rheumatismo e contava muitos cazos milagrosos d'aquellas aguas, e outros cazos de amores que alli passaram, quando elle acompanhava sua mãe, no tempo em que as senhoras de Cabeceiras de Basto por la faziam (dizia elle) o seu S. Miguel d'amor. Em cavaco de homens, gretava-lhe a indole, e declarava-se o personagem ou protogonista dos cazos attribuidos a terceira pessoa em prezença das morgadas. Honestava com citações de Ovidio (Ars amandi-passim) a lubricidade dos peccados da sua juventude: e dizia com uncção de velhaco: Delicta juventutis meoe, suspirando. Ás vezes, encontrando senhoras sertanejas de Basto, acotovelava o companheiro de passeio, e murmurava: «Aqui vem uma das taes»—Uma das taes vinha a ser uma das suas amadas, de 1825, a sylphide que elle havia ensinado a dançar o minuete e a gavota com outras prendas, e não dava agora, no pizar coixo e na gordura fôfa, o minimo vislumbre de ter sido sylphidica e bastante leveira para o gingar picado da gavota. «Está como eu» dizia o abbade.
……………………….. Mudado como eu, como ella, Que a vejo sem conhecêl-a!…
Cantava Garrett de uma das suas estrellas cadentes. O abbade, ao menos, conhecia-as, embora enrocadas em tecido adiposo, e remoçava-as na sua imaginação saudosa, alindando-as com o colorido escarlate da paixão. Bom e discreto conversador, se a materia obrigava á seriedade: philosopho ecletico, alegre, rijo de estomago, cabralista por amor da ordem, e herege, por que negava que o Espirito-Santo concorresse ao Concilio Tridentino. Em sciencias ecclesiasticas, ignorantissimo por livre vontade e voto deliberado. Eis o abbade de Santa Eulalia.
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