tale.fyi

Inhalt▾
Inhalt
  1. Volume I
  2. SEGUNDA EDIÇÃO
  3. OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO
  4. EDIÇÃO POPULAR
  5. XVII
  6. NOVELLAS DO MINHO
  7. VOLUMES PUBLICADOS
  8. CAMILLO CASTELLO BRANCO
  9. NOVELLAS DO MINHO
  10. SEGUNDA EDIÇÃO
  11. I
  12. GRACEJOS QUE MATAM
  13. *GRACEJOS QUE MATAM*
  14. CONCLUSÃO
  15. II
  16. O COMMENDADOR
  17. O COMMENDADOR
  18. PRIMEIRA PARTE
  19. SEGUNDA PARTE
  20. FIM
  21. III
  22. O CEGO DE LANDIM
  23. O CEGO DE LANDIM
  24. I
  25. II
  26. III
  27. IV
  28. V
  29. VI
  30. VII
  31. VIII
  32. IX
  33. X
  34. XI
  35. CONCLUSÃO
  36. AQUI JAZ ANTONIO JOSÉ PINTO MONTEIRO NASCEU A 11 DE DEZEMBRO DE 1808 FALLECEU A 1 DE DEZEMBRO DE 1868
  37. TRIBUTO DE GRATIDÃO DE ETERNA SAUDADE QUE LHE DEDICA SUA INCONSOLAVEL FILHA GUILHERMINA
  38. IV
  39. A MORGADA DE ROMARIZ
  40. A
  41. POR
  42. BENTO MORENO
  43. A MORGADA DE ROMARIZ
  44. I
  45. II
  46. III
  47. IV
  48. V
  49. VI
  50. VII
  51. VIII
  52. IX
  53. X
  54. XI
  55. CONCLUSÃO
  56. FIM
Deutsch ▾

Novelas do Minho

Camilo Castelo Branco

kostenlos · 45.710 Wörter · ~3 Std. Lesezeit

Text von Project Gutenberg

scroll mal ↓weiter ↓

(von vorn beginnen)

Novellas do Minho

Volume I

SEGUNDA EDIÇÃO

LISBOA Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA-EDITORA Rua Augusta, 50, 52 e 54 1903

OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIÇÃO POPULAR
XVII
NOVELLAS DO MINHO

VOLUMES PUBLICADOS

I—Coisas espantosas.
II—As tres irmans.
III—A engeitada.
IV—Doze casamentos felizes.
V—O esqueleto.
VI—O bem e o mal.
VII—O senhor do Paço de Ninães.
VIII—Anathema.
IX—A mulher fatal.
X—Cavar em ruinas
XI }
    } Correspondencia epistolar.
XII }
XIII—Divindade de Jesus.
XIV—A doida do Candal.
XV—Duas horas de leitura.
XVI—Fanny.
XVII }
XVIII } Novellas do Minho.
XIX }

CAMILLO CASTELLO BRANCO

NOVELLAS DO MINHO

SEGUNDA EDIÇÃO

LISBOA Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA EDITORA Rua Augusta, 50, 52 e 54 1903

LISBOA Officinas Typographica e de Encadernação Movidas a vapor Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.^o 1903

I

GRACEJOS QUE MATAM

     Isto de querer ter graça e de fazer rir os outros anda por boa
     gente no dia de hoje.

     Theatro de Manoel de Figueiredo. Censores do theatro, T. VI, pag.
     36

Ao Dr. Thomaz de Carvalho

*GRACEJOS QUE MATAM*

Ordinariamente, chamam-se á franceza—espirituosos—uns sugeitos dotados de genio motejador, applaudidos com a gargalhada, e aborrecidos áquelles mesmos que os applaudem. São os caricaturistas da graciosidade.

O «espirituoso», á moderna, abrange os variados officios que, antes da nacionalisação d'aquelle extrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de caza, outros importados:

Chocarreiro—tregeiteador—arlequim—palhaço—proxinella—polichinello— —maninêllo—truão—jogral—goliardo—histrião—farcista—farçola—végete— —bobo—pierrot—momo—bufão—folião, etc.

Esta riqueza de synonimia denota que o bobo medieval bracejou na peninsula iberica vergonteas e enxertias em tanta copia que foi preciso dar nome ás especies.

Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga jogralidade, que era mestér vil, acendrada nos secretos crizoes do progresso social, chegou a nós afidalgada em «espirito», e com o fôro maior de faculdade poderosa, caustica, implacavel.

Ainda assim o estreme espirito portuguez, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo: não se emancipa da velha escola das farças: é chalaça.

Ha poucos mezes, falleceu em Lisboa um «espirituoso» que andou trinta ou quarenta annos a passear a sua reputação entre o Chiado e o Rocio. As gazetas, ao mesmo passo que nos inculcavam o defunto como pessoa que vivêra aventurosamente uns setenta annos tingidos com primoroso pincel, descontavam n'estes defeitos a sua immensa graça, e reproduziram nova edição melhorada das suas anecdotas.

Averiguado o «espirito» do homem em coisas burlescas de que fez mercancia na feira politica, liquida-se, quando muito, um folião que desbragava a penna e desembestava asselvajadamente o insulto. Por este, que não deixou nome sobre-vivente para vinte quatro horas—nem o terá aqui—orça a maioria dos jograes que tenho visto, nos ultimos trinta annos, esburgar o osso da facção que lhes alquilla o engenho detrahidor, e acabarem antes da geração que os galardoou com a moeda falsa das rizadas.

O satyrico de sala e botequim é mais funesto e menos trivial que o politico; mais funesto por que vulnéra melindres—coisa que o callôso peito da politica não tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne não apégou aqui, nem se adelgaça á feição da nossa indole, bem accentuada nas chocarrices plebeas de Gil Vicente e Antonio José.

É mais funesto, repito; por que me occorre hoje, regressando das Caldas de Vizella, uma historia funestissima de que só eu posso lembrar me. Duas chalaças terçadas entre dois amigos, cavaram sepulturas de vidas e honras. Se as novellas podessem ensinar alguma coisa, corrigindo aleijões da alma, eu pediria aos gracejadores que lessem isto; e, nas occasiões em que a lingua lhes descabe na bocca, engrossada pela opilação da dicacidade, a refreassem com os dentes.

* * * * *

Era em 1851.

Apresso me a declarar que, no tocante a nomes e localidades, desfigurei tudo, salvo generalidades vagas e o logar em que principia a narrativa. O que menos monta na exactidão da historia é o que ahi se illide. Nomear pessoas e terras seria denunciar inutilmente um crime. O criminoso está diante do Juiz inappellavel, e seus filhos innocentes respeitam-lhe a memoria.

Era, pois, em 1851, aos 15 de junho, nas Caldas de Vizella.

Entre os salgueiros que enverdecem uma ilhêta acima da ponte, que hoje chamam «velha», á hora de sesta, emboscaram-se sete pessoas que preferiam aquelle frescor acre do arvoredo, golpeado por meandros do rio, ao cheiro sulphuroso e até sulphydrico da «Lameira».

O grupo compunha-se de pessoas de diversas procedencias:

D. Helena da Penha, chamada na sua terra a Morgada velha. Cincoenta e tantos annos, viuva do capitão-mór de Athey, educada em convento, murmurando da educação e dos costumes do claustro, d'onde sahira com incertos conhecimentos do cathecismo, e alguma instrucção em bisca sueca, e no Feliz independente do padre Theodoro d'Almeida. Excellente senhora que se conteve viuva desde os trinta e dois annos viçosos e temperados sanguinamente para não dar padrasto á filha unica.

D. Irene, a Morgada nova, vinte e sete annos, galante, mais menina que a sua idade, cheia de denguices, amimada, acriançando-se em tregeitos e dizeres, descompondo os artificios pueris com uns ares de desgarro e desinvoltura—em bom sentido, aliás.

Decerto já observou, leitor, em senhoras de provincia um desembaraço bronco, um remecherem-se e bacharellarem despropositadamente,—desaires resultantes de lhes haverem dito que o pejo e o acanhamento são indicios de educação aldeã. Estes despêjos improvisados sem delicadeza nem natural, quando topam diversa sociedade em praias ou caldas, dão-lhes ares do que não são, e abrem margem a suspeitas indecorosas; por que ellas, com taes artes, conseguem desornar-se dos commedimentos do pudor.

D. Irene era assim. Depois veremos o que ella era mais compridamente.

Direi agora dos cinco sugeitos do grupo.

O abbade de Santa Eulalia, passante da meia idade, pagão em litteratura, mestre de latim no seu concelho de Cabeceiras. Citava Virgilio apropositadamente. Quando alguem se dizia regalado com a frescura do salgueiral, declamava um trecho das Églogas em que havia sálices. Ao sentar-se na corcova do tronco retorcido de um amieiro, exclamava sempre, sibilando as delicias do meio-grosso: sub tegmine. Tinha rheumatismo e contava muitos cazos milagrosos d'aquellas aguas, e outros cazos de amores que alli passaram, quando elle acompanhava sua mãe, no tempo em que as senhoras de Cabeceiras de Basto por la faziam (dizia elle) o seu S. Miguel d'amor. Em cavaco de homens, gretava-lhe a indole, e declarava-se o personagem ou protogonista dos cazos attribuidos a terceira pessoa em prezença das morgadas. Honestava com citações de Ovidio (Ars amandi-passim) a lubricidade dos peccados da sua juventude: e dizia com uncção de velhaco: Delicta juventutis meoe, suspirando. Ás vezes, encontrando senhoras sertanejas de Basto, acotovelava o companheiro de passeio, e murmurava: «Aqui vem uma das taes»—Uma das taes vinha a ser uma das suas amadas, de 1825, a sylphide que elle havia ensinado a dançar o minuete e a gavota com outras prendas, e não dava agora, no pizar coixo e na gordura fôfa, o minimo vislumbre de ter sido sylphidica e bastante leveira para o gingar picado da gavota. «Está como eu» dizia o abbade.

……………………….. Mudado como eu, como ella, Que a vejo sem conhecêl-a!…

Cantava Garrett de uma das suas estrellas cadentes. O abbade, ao menos, conhecia-as, embora enrocadas em tecido adiposo, e remoçava-as na sua imaginação saudosa, alindando-as com o colorido escarlate da paixão. Bom e discreto conversador, se a materia obrigava á seriedade: philosopho ecletico, alegre, rijo de estomago, cabralista por amor da ordem, e herege, por que negava que o Espirito-Santo concorresse ao Concilio Tridentino. Em sciencias ecclesiasticas, ignorantissimo por livre vontade e voto deliberado. Eis o abbade de Santa Eulalia.

deine Stelle wird wiederhergestellt…

der Rest wird geladen…

Mehr von Camilo Castelo Branco

  • A Queda d'um Anjo
    Calisto Elói, um morgado severo da província, sempre a citar latim, vai para Lisboa como deputado censurar os costumes da capital e, pouco a pouco, deixa-se seduzir até perder os seus. Camilo está aqui em grande veia satírica, e a queda é muito divertida.
  • Amor de Perdição
    Simão Botelho e Teresa de Albuquerque vêm de famílias que se odeiam, e Mariana, a filha do ferrador, ama Simão sem pedir nada em troca. Camilo escreveu-o na prisão em cerca de duas semanas, e lê-se depressa, com febre.

—

danke fürs Lesen

Novelas do Minho von Camilo Castelo Branco. Der Text ist in den USA gemeinfrei, digitalisiert von den Freiwilligen von Project Gutenberg. Wir liefern ihn aus unserer eigenen Kopie aus.

tale.fyi