tale.fyi

Inhalt▾
Inhalt
  1. PORTO
  2. LIVRARIA PORTUENSE
  3. DE
  4. PORTO
  5. TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL
  6. I
  7. II
  8. III
  9. OS CAPTIVOS
  10. OS VENCIDOS
  11. ENTRE SOMBRAS
  12. HYMNO DA MANHÃ
  13. A FADA NEGRA
  14. IGNOTO DEO
  15. LAMENTO
  16. A M.C.
  17. ASPIRAÇÃO
  18. A FLORIDO TELLES
  19. PSALMO
  20. A M.C.
  21. A M. C.
  22. A M. C.
  23. AD AMICOS
  24. BEATRICE
  25. AMOR VIVO
  26. VISITA
  27. PEQUENINA
  28. A SULAMISA
  29. IDYLLIO
  30. NOCTURNO
  31. SONHO
  32. AMARITUDO
  33. ABNEGAÇÃO
  34. APPARIÇÃO
  35. ACCORDANDO
  36. MÃE…
  37. MEA CULPA
  38. JURA
  39. IDEAL
  40. DESPONDENCY
  41. UMA AMIGA
  42. A IDEA
  43. I
  44. II
  45. III
  46. IV
  47. V
  48. VI
  49. VII
  50. VIII
  51. DIALOGO
  52. MAIS LUZ!
  53. I
  54. II
  55. A UM POETA
  56. HOMO
  57. I
  58. II
  59. MORS-AMOR
  60. ESTOICISMO
  61. ANIMA MEA
  62. I
  63. II
  64. O CONVERTIDO
  65. ESPECTROS
  66. NOX
  67. EM VIAGEM
  68. IGNOTUS
  69. NO CIRCO
  70. NIRVÂNA
  71. CONSULTA
  72. VISÃO
  73. EVOLUÇÃO
  74. I
  75. II
  76. III
  77. IV
  78. V
  79. VI
  80. REDEMPÇÃO
  81. I
  82. II
  83. LUCTA
  84. LOGOS
  85. INDICE
Deutsch ▾

Os sonetos completos de Anthero de Quental

Antero de Quental

kostenlos · 19.310 Wörter · ~1 Std. Lesezeit

Text von Project Gutenberg

scroll mal ↓weiter ↓

(von vorn beginnen)

publicados por

J. P. Oliveira Martins

PORTO
LIVRARIA PORTUENSE
DE

LOPES & C.^a—EDITORES

119, Rua do Almada, 123*

1886

PORTO

TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

Rua da Fabrica, 66

Escrevendo estas breves paginas á frente dos Sonetos de Anthero de Quental tenho a satisfação intima de cumprir o dever de tornar conhecida do publico a figura talvez mais caracteristica do mundo litterario portuguez, e decerto aquella sobre que a lenda mais tem trabalhado. Estou certo, absolutamente certo, de que este livro, embora sem écco no espirito vulgar que faz reputações e dá popularidade, ha-de encontrar um acolhimento amoroso em todas as almas de eleição, e durar emquanto houver corações afflictos, e emquanto se fallar a linguagem portugueza.

Procurarei, no que vou dizer, guardar para mim aquillo que ao publico não interessa: a viva amisade, a estreita communhão de sentimentos, o affecto quasi fraterno que ha perto de vinte annos nos une, ao poeta e ao seu critico de hoje, fazendo da vida de ambos como que uma unica alma, misturando invariavelmente as nossas breves alegrias, muitas vezes as nossas lagrimas, sempre as nossas dores e os nossos enthusiasmos ou o nosso desalento.

Discutindo em permanencia, discordando frequentemente, ralhando a miudo, zangando-nos ás vezes e abraçando-nos sempre: assim tem decorrido para nós perto de vinte annos. Mas o leitor é que nada tem que vêr com esses casos particulares, nem com o abraço que trocámos no dia em que primeiro nos conhecemos e que só terminará n'aquelle em que um de nós, ou ambos nós, formos descançar para sempre sob meia duzia de pás de terra fria.

I

Eu não conheço phisionomia mais difficil de desenhar, porque nunca vi natureza mais complexamente bem dotada. Se fosse possivel desdobrar um homem, como quem desdobra os fios de um cabo, Anthero de Quental dava alma para uma familia inteira. É sabidamente um poeta na mais elevada expressão da palavra; mas ao mesmo tempo é a intelligencia mais critica, o instincto mais pratico, a sagacidade mais lucida, que eu conheço. É um poeta que sente, mas é um raciocinio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa.

Inventa, e critíca. Depois, por um movimento reflexo da intelligencia, dá corpo ao que criticou, e raciocina o que imaginou.—O seu temperamento apresenta um contraste correlativo: é meigo como uma creança, sensitivo como uma mulher nervosa, mas intermittentemente é duro e violento.

É fraco, portanto? Não. A vontade, em obediencia á qual, e com esforço, se faz colerico, fal-o tambem forte—d'esta força persistente, raciocinada e na apparencia placida, como a superficie do mar em dias de bonança. O Oceano, porém, é interiormente agitado pelo gulf stream quente e invisível: tambem ás vezes a placidez extrema da sua face encobre ondas de afflicção que sobem até aos olhos e rebentam em lagrimas ardentes. Sabe chorar, como todo o homem digno da humanidade.

É d'estas crises que nasceram os seus versos, porque Anthero de Quental não faz versos á maneira dos litteratos: nascem-lhe, brotam-lhe da alma como solluços e agonias. Mas, apezar d'isso, é requintado e exigente como um artista: as suas lagrimas hão de ter o contôrno de perolas, os seus gemidos hão de ser musicaes. As faculdades artisticas geradoras da estatuaria e da symphonia são as que vibram na sua alma esthetica. A noção das fórmas, das linhas e dos sons, possue-a n'um gráo eminente: não já assim a da côr nem a da composição. Aos quadros chama paineis com desdem, e por isso mesmo tem horror á descripção e ao pittoresco. É artista, no que a arte contém de mais subjectivo. A sua poesia é esculptural e hieratica, e por isso phantastica. É exclusivamente psychologica e dantesca: não pode pintar, nem descrever: acha isso inferior e quasi indigno.

Os seus versos são sentidos, são vividos como nenhuns; mas o sentir e o viver d'este homem é de uma natureza especial que tem por fronteiras phisicas as paredes do seu craneo, mas que não tem fronteiras no mundo real, porque a sua imaginação paira librada nas azas de uma razão especulativa para a qual não ha limites.

O poeta é por isso um mystico, e o critico um philosopho. O mysticismo e a metaphisica, o sentimento e a razão, a sensibilidade e a vontade, o temperamento e a intelligencia, combatem-se, ás vezes dilacerando-se. Eis ahi a explicação d'esta poesia que é o retrato vivo do homem. O genio, esse quid divinatorio, que não é honra para nenhuma creatura possuir, porque só nos dá merecimento aquillo que ganhámos á força de intelligencia e de vontade; o genio, que é uma faculdade tão accidental como a côr dos cabellos, ou o desenho das feições; o genio, que pode andar ligado a uma intelligencia mediocre, mas que o não anda no caso de Anthero de Quental—é o predicado particular e a chave do enygma d'este homem. O genio presuppõe a intuição de uma verdade visceral ou fundamental da natureza. Essa intuição, essa aspiração absorvente, é para o nosso poeta a synthese da verdade racional ou positiva e do sentimento mystico: uma poesia que exprima o raciocinio, ou antes uma philosophia onde caibam todas as suas visões. O proprio do genio é querer realisar o irrealisavel; é ser chimerico, no sentido critico da palavra, quando por chimera entendemos uma verdade essencial que não pode todavia reduzir-se a formulas comprehensiveis, ou uma cousa cuja realidade se sente, sem se poder ver.

Dos aspectos quasi inexgotavelmente variaveis d'esta singular phisionomia de homem, d'esta mistura excepcional de pensamentos e de temperamentos n'um mesmo individuo, resulta porém um typo de sinceridade e de rectidão mais singular ainda, porque mais facilmente podia resultar d'ella um grande cynico. É sobretudo um stoico, sem deixar de ter bastante de sceptico; é um mystico, mas com uma forte dose de ironia e humorismo; e um mysanthropo, quando não é o homem do trato mais affavel, da convivencia mais alegre; é um pessimista, que todavia acha em geral tudo optimo. Intellectualmente é a phisionomia mais dubia, complexa e contradictoria por vezes; moralmente é o caracter mais inteiro e melhor que existe. A sua intelligencia encontra-se permanentemente no estado de alguem que, querendo ir para um sitio, resiste por não querer ao mesmo tempo, sem todavia ter rasões bastantes para querer nem tambem para não querer. O nucleo da sua personalidade, se a encaramos pelo lado praticamente humano, está na energia do seu querer moral, e não na lucidez do seu pensamento; embora tenha a pretenção de julgar que a sua vontade obedece sempre á sua razão. É verdade que dentro de si tem permanentemente um espelho facetado que representa e critíca as modalidades do seu pensamento; mas, por isso mesmo, vê ou inventa faces de mais ás cousas, e tambem por vezes o cristal embacia. O que nunca esmorece é a bondade luminosa da sua alma. É um homem fundamentalmente bom.

A complexidade do seu espirito dá-lhe uma variedade de aptidões singular. Conversador como poucos, facil, espontaneo, original e suggestivo, ironico, humorista, espirituoso, descendo até á propria charge, não ha ninguem como elle para soltar o carro da sua phantasia critica na ladeira de uma these, e, explorando-a em todos os sentidos, architectar uma theoria. Os seus opusculos em prosa (da melhor prosa portugueza d'este tempo) têm em geral este caracter. São logicos, são bem deduzidos—sem serem sufficientemente pensados. São fructos da imaginação; são conversas escriptas, d'essas conversas que durante horas seduzem os que o ouvem—porque é um charmeur.

Elle proprio se embriaga, não com as suas palavras, mas sim com aquella theoria passageira que inventou ad hoc, e, quando alguem lhe objecta um pequeno senão, todavia essencial ao seu edificio logico, resiste, defende-se, irrita-se ás vezes, mas por fim é elle proprio que, com um dito, desfaz toda a construcção. Seria um orador, um jornalista de primeira ordem, se não tomasse apenas a sério a sua missão de poeta, ou antes de philosopho.

Depois de tudo isto dirão pessoas pouco dadas ao estudo do animal homem que Anthero de Quental é um assombro. Longe d'isso. A sua força e a prodigalidade com que a natureza dotou o seu espirito; mas essa força é uma fraqueza. Tem demasiada imaginação para ver bem; e por outro lado o raciocinio critico peia-lhe os vôos luminosos da phantasia. Vê de mais para poder ser activo, ou não tem a energia correspondente á sua visão. Se a tivesse, seria verdadeiramente um assombro. A imaginação e a razão, irreductiveis nos cerebros humanos com as circumvoluções limitadas que contêm, são egualmente poderosas no seu cerebro para que qualquer d'ellas domine. Luctam em permanencia, procurando entender-se, combinar-se, penetrar-se, e, no desejo chimerico da synthese, desequilibram o homem, atrophiando-lhe a energia activa. Ainda assim, felizes d'aquelles cuja inercia désse um livro comparavel a este!

Mas é que as suas paginas foram escriptas com sangue e lagrimas! E doe ver a vida do mais bello espirito consumir-se em agonias de uma alma em lucta comsigo mesmo! O commum da gente, ao ler as paginas d'este volume, dirá então: Quantas catastrophes, que desgraças, este homem soffreu! que singular hostilidade do mundo para com uma creatura humana!—E todavia o mundo nunca lhe foi propriamente hostil, nenhuma desgraça o acabrunhou; a sua vida tem corrido serena, placida, e até para o geral da gente em condições de felicidade.

É que o geral da gente não sabe que as tempestades da imaginação são as mais duras de passar! Não ha dores tão agudas como as dores imaginarias. Não ha problemas mais difficeis do que os problemas do pensamento, nem crises mais dolorosas do que as crises do sentimento. As agonias dilacerantes da morte com as ancias do stertor, os horrores mais inverosimeis dos crimes monstruosos, as afflicções mais pungentes da saudade, as tristezas mais dolorosas da solidão, as luctas do dever com a paixão, os gritos do homem arruinado, os ais da orphandade faminta… tudo, tudo, quanto no mundo pode haver de doloroso, desde a miseria até á prostituição, desde o andrajo até ao velludo arrastado pela immundicie, desde o cardo que dilacera os pés até ao punhal que rasga o coração: tudo isso é menos, do que a agonia de um poeta vendo passar diante de si, em turbilhão medonho, as lugubres miserias do mundo. Todas as afflicções têm o seu quê de imaginativas, e por isso ha apenas uma especie de homens que não sentem: são os cynicos, esses que perderam os nervos da moralidade, os anesthesiados do sentimento.

Quando se é poeta como Anthero de Quental, a imaginação exacerbada vibra como as harpas que os gregos expunham ás virações da brisa nos ramos das arvores. Nenhum dedo lhes feria as cordas, e todavia tocavam! Nenhuma d'essas desgraças do mundo feriu a harpa da vida do poeta; e todavia essa harpa geme e chora, solluça e grita, porque pelas suas cordas passa o vento agreste das idéas, passa o écco ullulante do egoismo dos homens, afflictivo como os uivos de uma alcateia de lobos famintos.

II

Esta collecção de Sonetos é, portanto, ao mesmo tempo biographica e cyclica. Conta-nos as tempestades de um espirito; mas essas tempestades não são os quaesquer episodios particulares de uma vida de homem: são a refracção das agonias moraes do nosso tempo, vividas, porem, na imaginação de um poeta.

O primeiro periodo, de 1860-2, contém em embryão todos os successivos, da mesma fórma que as flores incluem em si a substancia dos fructos. Denuncía uma alma sensivel, mas patenteia já a preoccupação metaphisica na sua phase rudimentar de duvida theologica, e apresenta uns assomos de tristeza que são como os farrapos de nuvens quando velam intermittentemente o sol, deixando antever a tempestade para o dia seguinte. Estes primeiros sonetos são o balbuciar de uma creança. Romantica? De modo nenhum. Este poeta não se filia em escholas, não obedece a correntes litterarias: a sua poesia é exclusivamente pessoal. Succedia, porem, que n'esse tempo já os nossos bardos classicamente romanticos tinham passado da moda; e a Coimbra chegavam por via de Paris os éccos do espirito novo, expresso nas obras de Michelet, de Quinet, de Vera-Hegel, etc.

Tudo isso fermentava no cerebro de Anthero de Quental, mas a sua personalidade não se deixava absorver pelo optimismo que, depois dos romanticos, se espalhou na Europa, lyricamente ingenuo no Occidente afrancezado, systematicamente philosophico na Allemanha hegeliana. Schopenhauer, ninguem o lia. Não era moda. Pois foi essa corrente, dominante hoje, aquella em que o nosso poeta, espontaneamente, por um movimento do seu temperamento, se achou levado. Aos dezoito ou vinte annos, ignorante ainda, mas inquieto e perscrutador, o poeta que desdenha sinceramente da fama e da gloria, vê no eterno feminino de que nos falla Goethe a synthese da existencia. Os seus amores já são phantasticos: só tem realidade no ceu.

Alli, ó lyrio dos celestes valles,
Tendo seu fim, terão o seu começo,
Para não mais findar, nossos amores.

E se ainda o dia, a luz, o sol esposo amado, têm o condão de o encher de enthusiasmo, é mister desconfiar de um homem mais caprichoso do que todas as mulheres, porque

Pedindo á forma, em vão, a idea pura
Tropeço, em sombras, na materia dura
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Esta nota é mais constitucionalmente verdadeira. «Seja a terra degredo, o ceu destino» diz n'um ponto; e n'outro:

Minha alma, ó Deus, a outros ceus aspira:
Se um momento a prendeu mortal belleza
É pela eterna patria que suspira…

Não acreditemos tambem demasiadamente n'isto, porque Deus não passa ainda de uma interrogação:

Pura essencia das lagrimas que choro
E sonho dos meus sonhos! Se és verdade,
Descobre-te, visão, no ceu ao menos!

deine Stelle wird wiederhergestellt…

der Rest wird geladen…

Als Nächstes lesen

  • UbirajaraJosé Martiniano de Alencar
    Jaguarê, um jovem caçador, conquista o nome de Ubirajara, senhor da lança, e precisa escolher entre duas mulheres, Araci e Jandira. Alencar imagina o Brasil antes da chegada dos europeus, e o livro se lê como uma lenda, de tom elevado e breve.
  • Viagens na Minha Terra (Completo)João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
    Garrett parte de Lisboa para Santarém e deixa a viagem divagar para onde lhe apetece, por piadas, política e digressões sobre as digressões. A meio do caminho conta a história de Joaninha, a menina dos olhos verdes, e o livro torna-se uma coisa terna.
  • Yayá GarciaMachado de Assis
    Iaiá Garcia é uma menina esperta e cheia de vida cujo pai viúvo se casou com Estela, mulher orgulhosa com um passado discreto que envolve Jorge, um rapaz de volta da Guerra do Paraguai. O romance de juventude de Machado é contido e observador, e fala mais de dignidade do que de paixão.

—

danke fürs Lesen

Os sonetos completos de Anthero de Quental von Antero de Quental. Der Text ist in den USA gemeinfrei, digitalisiert von den Freiwilligen von Project Gutenberg. Wir liefern ihn aus unserer eigenen Kopie aus.

tale.fyi