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Dom Casmurro
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DOM CASMURRO
POR
MACHADO DE ASSIS
DA ACADEMIA BRAZILEIRA
B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
RUA MOREIRA CEZAR, 71
RIO DE JANEIRO
6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6
PARIZ
1899
I
Do titulo.
Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéo. Comprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos póde ser que não fossem inteiramente maus. Succedeu, porém, que como eu estava cançado, fechei os olhos tres ou quatro vezes; tanto bastou para que elle interrompesse a leitura e mettesse os versos no bolso.
—Continue, disse eu accordando.
—Já acabei, murmurou elle.
—São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tiral-os outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os visinhos, que não gostam dos meus habitos reclusos e calados, deram curso á alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anecdota aos amigos da cidade, e elles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: «Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.»—«Vou para Petropolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Rhenania; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vae lá passar uns quinze dias commigo.»—«Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do theatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça.»
Não consultes diccionarios. Casmurro não está aqui no sentido que elles lhe dão, mas no que lhe poz o vulgo de homem calado e mettido comsigo. Dom veiu por ironia, para attribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Tambem não achei melhor titulo para a minha narração; se não tiver outro d'aqui até ao fim do livro, vae este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o titulo seu, poderá cuidar que a obra é sua. Ha livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.
II
Do livro.
Agora que expliquei o titulo, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a penna na mão.
Vivo só, com um creado. A casa em que moro é propria; fil-a construir de proposito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimil-o, mas vá lá. Um dia, ha bastantes annos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga rua de Matacavallos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquella outra, que desappareceu. Constructor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo predio assobradado, tres janellas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do tecto e das paredes é mais ou menos egual, umas grinaldas de flores miudas e grandes passaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de Cesar, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de taes personagens. Quando fomos para a casa de Matacavallos, já ella estava assim decorada; vinha do decennio anterior. Naturalmente era gosto do tempo metter sabor classico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é tambem analogo e parecido. Tenho chacarinha, flôres, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobilia velha. Emfim, agora, como outr'ora, ha aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescencia. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é egual, a physionomia é differente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante á pintura que se põe na barba e nos cabellos, e que apenas conserva o habito externo, como se diz nas autopsias; o interno não aguenta tinta. Uma certidão que me desse vinte annos de edade poderia enganar os extranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto ás amigas, algumas datam de quinze annos, outras de menos, e quasi todas creem na mocidade. Duas ou tres fariam crer nella aos outros, mas a lingua que falam obriga muita vez a consultar os diccionarios, e tal frequencia é cançativa.
Entretanto, vida differente não quer dizer vida peor; é outra cousa. A certos respeitos, aquella vida antiga apparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é tambem exacto que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memoria, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco appareco e menos falo. Distracções raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.
Ora, como tudo cança, esta monotonia acabou por exhaurir-me tambem. Quiz variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudencia, philosophia e politica acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessarias. Depois, pensei em fazer uma Historia dos Suburbios, menos secca que as memorias do padre Luiz Gonçalves dos Santos, relativas á cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares, tudo arido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que elles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da penna e contasse alguns. Talvez a narração me désse a illusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Ahi vindes outra vez, inquietas sombras...?
Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a penna na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande Cesar, que me incitas a fazer os meus commentarios, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscencias que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma celebre tarde de Novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e peores, mas aquella nunca se me apagou do espirito. É o que vás entender, lendo.
III
A denuncia.
Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atraz da porta. A casa era a da rua de Matacavallos, o mez Novembro, o anno é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas á minha vida só para agradar ás pessoas que não amam historias velhas; o anno era de 1857.
—D. Gloria, a senhora persiste na ideia de metter o nosso Bentinho no seminario? É mais que tempo, e já agora póde haver uma difficuldade.
—Que difficuldade?
—Uma grande difficuldade.
Minha mãe quiz saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de concentrarão, veiu ver se havia alguem no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a difficuldade estava na casa ao pé, a gente do Padua.
—A gente do Padua?
—Ha algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande mettido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a difficuldade, porque se elles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separal-os.
—Não acho. Mettidos nos cantos?
—É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quasi que não sae de lá. A pequena é uma desmiolada; o pae faz que não vê; tomara elle que as cousas corressem de maneira, que... Comprehendo o seu gesto; a senhora não crê em taes calculos, parece-lhe que todos têm a alma candida...
—Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a edade; Bentinho mal tem quinze annos. Capitú fez quatorze á semana passada; são dous creançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquella grande enchente, ha dez annos, em que a familia Padua perdeu tanta cousa; d'ahi vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer...? Mano Cosme, você que acha?
Tio Cosme respondeu com um «Ora!» que, traduzido em vulgar, queria dizer: «São imaginações do José Dias; os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está o gamão?»
—Sim, creio que o senhor está enganado.
—Póde ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar...
—Em todo caso, vae sendo tempo, interrompeu minha mãe; vou tratar de mettel-o no seminario quanto antes.
—Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho ha de satisfazer os desejos de sua mãe. E depois a egreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o padre Feijó governou o imperio...
—Governou como a cara d'elle! atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores politicos.
—Perdão, doutor, não estou defendendo ninguem, estou citando. O que eu quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.
—Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer missa atraz das portas. Mas, olhe cá, mana Gloria, ha mesmo necessidade de fazel-o padre?
—É promessa, ha de cumprir-se.
—Sei que você fez promessa... mas, uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você que acha, prima Justina?
—Eu?
—Verdade é que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme; Deus é que sabe do todos. Comtudo, uma promessa de tantos annos... Mas, que é isso, mana Gloria? Está chorando? Ora esta! Pois isto é cousa de lagrimas?
Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ella. Seguiu-se um alto silencio, durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção... Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima Justina exhortava: «Prima Gloria! prima Gloria!» José Dias desculpava-se: «Se soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo affecto, para cumprir um dever amargo, um dever amarissimo...»
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