This is how the story will feel to read.
O Cortiço
text from Project Gutenberg · read by Adriana Sacciotto for LibriVox
scroll plz ↓
E
6, Rue des Saints-Pères, 6
PARIS
«Periculum dicendi non recuso.»
(CICERO.)
«La vérité, toute la vérité, rien que la vérité.»
(Droit criminel.)
«Os meus honrados collegas do jornalismo, e todos esses grandes publicistas que fatigam o céo e a terra para provar que esta em que estamos é a verdadeira epoca de transição, esses nos dirão se a Providencia andaria bem ou mal se hoje suscitasse um novo Timon da verdadeira raça das furias, que com as pontas viperinas do azorrague vingador lacerasse sem piedade os crimes e os vicios que a deshonram.»
(JOÃO FRANCISCO LISBOA, Jornal de Timon. Prospecto—Obras completas, 1° vol., pag. 12.)
«Ung oyseau qui se nomme cigale estoit en un figuier, et François tendit sa main et appella celluy oyseau, et tantost il obeyt et vint sur sa main. Et il lui deist: Chante, ma seur, et loue nostre Seigneur. Et adoncques chanta incontinent, et ne sen alla devant quelle eust congé.»
(JACQUES DE VORAGINE, La Légende Dorée. Traduction française.)
INDICE
CAPITULO I
CAPITULO II
CAPITULO III
CAPITULO IV
CAPITULO V
CAPITULO VI
CAPITULO VII
CAPITULO VIII
CAPITULO IX
CAPITULO X
CAPITULO XI
CAPITULO XII
CAPITULO XIII
CAPITULO XIV
CAPITULO XV
CAPITULO XVI
CAPITULO XVII
CAPITULO XVIII
CAPITULO XIX
CAPITULO XX
CAPITULO XXI
CAPITULO XXII
CAPITULO XXIII
O CORTICO
I
João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco annos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro de Botafogo; e tanto economisou do pouco que ganhára n'essa duzia de annos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.
Proprietario e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delirio de enriquecer, que affrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da propria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um sacco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lh'a, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fóra e amigada com um portuguez que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade.
Bertoleza tambem trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguezada do bairro. De manhã vendia angú, e á noite peixe frito e iscas de figado; pagava de jornal a seu dono vinte mil réis por mez, e, apezar d'isso, tinha de parte quasi que o necessario para a alforria. Um dia, porém, o seu homem, depois de correr meia legua, puxando uma carga superior ás suas forças, cahio morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta.
João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até participante directo dos soffrimentos da vizinha, e com tamanho empenho a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas desventuras. Abrio-se com elle, contou-lhe a sua vida de amofinações e difficuldades. «Seu senhor comia-lhe a pelle do corpo! Não era brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar p'rali, todos os mezes, vinte mil réis em dinheiro!» E segredou-lhe então o que já tinha junto para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe guardasse as economias, porque já de certa vez fôra roubada por gatunos que lhe entraram na quitanda pelos fundos.
D'ahi em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o conselheiro da crioula. No fim de pouco tempo era elle quem tomava conta de tudo que ella produzia, e era tambem quem punha e dispunha dos seus peculios, e quem se encarregava de remetter ao senhor os vinte mil réis mensaes. Abrio-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até á venda e recebia-o das mãos do vendeiro, de «Seu João,» como ella dizia. Seu João debitava methodicamente essas pequenas quantias n'um quaderninho, em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escripto e em letras cortadas de jornal: «Activo e passivo de Bertoleza.»
E por tal fórma foi o taverneiro ganhando confiança no espirito da mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava d'elle, cegamente, todo e qualquer arbitrio. Por ultimo, se alguem precisava tratar com ella qualquer negocio, nem mais se dava ao trabalho de procural-a, ia logo direita a João Romão.
Quando deram fé estavam amigados.
Elle propoz-lhe morarem juntos, e ella concordou de braços abertos, feliz em metter-se de novo com um portuguez, porque, como toda a cafusa, Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instinctivamente o homem n'uma raça superior á sua.
João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas portas, dividida ao meio parallelamente á rua, sendo a parte da frente destinada á quitanda e a do fundo para um dormitorio que se arranjou com os cacarecos de Bertoleza. Havia, além da cama, uma commoda de jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarello já mareadas, um oratorio cheio de santos e forrado de papel de côr, um bahú grande de couro crú taxeado, dous banquinhos de páo feitos de uma só peça e um formidavel cabide de pregar na parede, com a sua competente coberta de retalhos de chita.
O vendeiro nunca tivera tanta mobilia.
—Agora, disse elle á crioula, as coisas vão correr melhor para você. Você vae ficar fôrra; eu entro com o que falta.
N'esses dias elle sahio muito á rua, e uma semana depois appareceu com uma folha de papel toda escripta, que leu em voz alta á companheira.
—Você agora não tem mais senhor! declarou em seguida á leitura, que ella ouvio entre lagrimas agradecidas. Agora está livre! De ora avante o que você fizer é só seu e mais de seus filhos, se os tiver. Acabou-se o captiveiro de pagar os vinte mil réis á peste do cego!
—Coitado! A gente se queixa é da sorte! Elle, como meu senhor, exigia o jornal, exigia o que era seu!
—Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova!
Contra todo o costume, abrio-se n'esse dia uma garrafa de vinho do Porto, e os dous beberam-n'a em honra ao grande acontecimento. Entretanto, a tal carta de liberdade era obra do proprio João Romão, e nem mesmo o sello, que elle entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar á burla maior formalidade, representava despeza, porque o esperto aproveitára uma estampilha já servida. O senhor de Bertoleza não teve sequer conhecimento do facto; o que lhe constou, sim, foi que a sua escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo.
—O cego que venha buscal-a aqui, se fôr capaz!... desafiou o vendeiro de si para si. Elle que caia n'essa e verá se tem ou não para peras!
Não obstante, só ficou tranquillo de todo d'ahi a tres mezes, quando lhe constou a morte do velho. A escrava passara naturalmente em herança a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que receiar: dous pandegos de marca maior que, empolgada a legitima, cuidariam de tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam de muitos annos áquella parte. «Ora! bastava já, e não era pouco, o que lhe tinham sugado durante tanto tempo!»
Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel triplice de caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre; ás quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o café para os freguezes e depois preparando o almoço para os trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão na taverna, quando o amigo andava occupado lá por fóra; fazia a sua quitanda durante o dia no intervallo de outros serviços, e á noite passava-se para a porta da venda, e, defronte de um fogareiro de barro, fritava figado e frigia sardinhas, que Romão ia pela manhã, em mangas de camisa, de tamancos e sem meias, comprar á praia do Peixe. E o demonio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e concertar, além da sua, a roupa do seu homem, que esta, valha a verdade, não era tanta e nunca passava em todo o mez de alguns pares de calças de zuarte e outras tantas camisas de riscado.
fetching the rest…