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Os filhos do padre Anselmo
text from Project Gutenberg
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SÁ D'ALBERGARIA
OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
ROMANCE
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
DE
Lello & Irmão,
Editores
1904
178, rua de D. Pedro, 184
OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
I
Os irmãos da mão negra
O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze badaladas da meia noite.
O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado, recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito.
Era em fins do outono.
As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima, despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e sussurrante protesto de espoliadas.
Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria, encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella noite agreste e frigidissima.
Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a meia noite no relogio da torre, levou a mão ao bolso e, aproximando-se de um dos candieiros da illuminação publica, consultou o seu relogio.
—Aquelle anda adiantado cinco minutos—murmurou.
E deu alguns passos distrahidamente como para illudir a sua impaciencia.
Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão, notaremos que é um rapaz de 18 annos, decentemente vestido e de gentil presença, não obstante as feições finas e delicadas quasi lhe desapparecerem encobertas pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini.
Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do lado da rua do Calvario avançou a trote rasgado um trem, que parou em frente d'elle.
—És tu, Paulo?—disse de dentro uma voz.
—Sou.
—Entra depressa, que a noite está agreste!
E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a entrada.
O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola fechou-se, e os cavallos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da Restauração e subindo a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario.
Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se trava dentro d'elle.
Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28 a 30 annos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu joven companheiro:
—Meu amigo, como já te expliquei, isto são negocios em que se requer a maior circumspecção e escrupulo na observancia das praxes. Has-de consentir que te vende os olhos.
—Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?
—De modo algum. Mas é uma obrigação que o regulamento me impõe, e eu não posso faltar a ella sem trahir o meu dever.
—Pois bem, seja!
O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então do bolso um lenço e vendou com elle os olhos do companheiro.
—Has-de dar-me a tua palavra de honra que não tentarás arrancar a venda sem que para isso recebas ordem...
—Dou. Mas se o fizesse?
—Poderia isso custar-te a vida, meu caro.
—Apre!—fez o outro, sorrindo—vocês são intransigentes!
—Está n'isso a nossa força. Não violentamos ninguem a seguir-nos, damos ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associação, mas defendemos a nossa existencia e mantemos o nosso segredo.
—É justo.
—Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu juramento, reconsiderar e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecerá por isso, a tua vontade será respeitada, a tua independencia mantida. Mas não saberás dizer onde estiveste nem as pessoas com quem fallaste.
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