A Viúva Simões
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Capítulo I
Apesar de moça e de rica, a viúva Simões raras vezes saía; dedicava-se absolutamente à sua casa, um bonito chalet em Santa Tereza. Vivia sempre ali; inquirindo, analisando tudo num exame fixo, demorado, paciente, que exasperava os seus cinco criados: a Benedita, cozinheira preta, ex-escrava da família; o Augusto, copeiro, francês, habituado a servir só gente de luxo; a lavadeira Ana, alemã, de rosto largo e olhos deslavados; o jardineiro João, português; homem já antigo no serviço, e uma mulatinha de quinze anos, cria de casa, a Simplícia, magra, baixa, com um focinho de fuinha e olhos pequenos, perspicazes e terríveis.
Não era fácil dirigir pessoal tão diferente em raças e em educação. A viúva; modesta, e um pouco indolente para os deveres exteriores, consumia ali, dentro das suas paredes, toda a sua atividade.
Em vida do marido freqüentara algum tanto a sociedade; mas depois que ele partiu sozinho para o outro mundo, ela encolheu-se com medo que se discutisse lá fora a sua reputação, coisa em que pensava numa obsessão quase nevrótica.
Adquirira fama de menagère exemplar; e então levava o escrúpulo a um ponto elevadíssimo para não desmerecer nunca do conceito de boa dona de casa. Levantava-se cedo; percorria o jardim, a horta, o pomar, o galinheiro; censurava o hortelão pelo menor descuido; via bem até as mais insignificantes ninharias: a grama precisava ser aparada... As roseiras careciam de poda; porque não se enxertavam estes ou aqueles pés de fruta? O homem respondia que já tinha deliberado aquilo mesmo, e ela passava adiante, sempre com perguntas ou ordens.
No interior era um chuveiro de recriminações. A cozinha tomava-lhe horas. Passava os dedos nas panelas e nos ferros do fogo, a ver se estavam limpos; cheirava as caçarolas; obrigava a Benedita a arear de novo tachos e grelhas, a lavar a tábua dos bifes e o mármore das pias e da mesa. Se havia alguma torneira pouco reluzente ou alguma nódoa no chão, detinha-se, exigindo que se corrigisse a falta logo ali, à sua vista. E era assim por todos os compartimentos, minuciosa, ativa, severa.
Lamentava-se da falta de método, que a obrigava a ter em casa tantos criados; mas se pensava em despedir algum deles, achava-o logo indispensável. A casa era grande e o dia curto para observá-la em todas as suas exigências. A viúva não fazia outra coisa senão mandar; entretanto não lhe sobrava tempo para mais nada!
Tinha de vez em quando as suas horas tristes, em que a inteligência se lhe revoltava contra a monotonia daqueles meses que se desfolhavam iguais em tudo, sempre iguais... O corpo cansado não reagia, e o pensamento nadava preguiçosamente em idéias vagas, coloridas pelo romantismo da idade em que as alegrias e entusiasmos da mocidade já não existem, e em que as friezas da velhice ainda não chegaram... Ela tinha uma filha, Sara, que era o seu conforto e a sua agonia. Por causa dela renunciava aos divertimentos do mundo, exagerando as suas atribuições caseiras. Tinha medo de apaixonar-se um dia, fugia do perigo de amar, de trazer para casa, para o gozo do seu corpo e da sua alma, um padrasto para a filha, um estranho com quem tivesse de repartir os seus cuidados e as suas riquezas.
O seu temperamento, aparentemente frio, dava-lhe por vezes momentaneamente, um ar de rija autoridade, muito em contradição com o seu tipo moreno, de brasileira. No trato comum era calma, e tinha sempre o cuidado de não trair as suas horas de desfalecimento, em que lhe passavam pela mente desejos e idílios irrealizáveis...
A viúva já não tinha a frescura da primeira mocidade, mas era ainda uma mulher bonita. Era alta e esbelta e tinha um par de olhos pretos belíssimos e uma pele morena delicadamente penujenta e macia.
A sua carne já não tinha a rijeza do pomo verde, que resiste à dentada, e caía sobre ela toda um ar de moleza, de doce cansaço, que lhe quebrantava a voz e o gesto. Vinha dela um encanto esquisito e delicado, que ninguém afirmaria ser da pureza das suas linhas ou da maneira que tinha de andar, de sorrir ou de dizer as coisas.
Aos domingos a vida era mais calma. Os criados trabalhavam afincadamente ao sábado, em lavagens, polimentos, renovações de plantas e de flores nas salas, e gozavam de lazeres maiores e permissões de passeios no dia imediato. A viúva então respirava de alívio com o silêncio e a ausência dos servos que se revezavam no serviço.
Num domingo de junho de 1891 ela sentou-se na sua sala, muito fresca e perfumada; e, estendida numa cadeira de balanço, perto da janela, pôs-se muito sossegadamente a ler um jornal do dia.
Estava num dos seus momentos de melancolia; almejava qualquer coisa que ela mesma não sabia definir. Era a revolta surda contra a pacatez da sua vida sem emoções, contra aquele propósito de enterrar a sua mocidade e a sua formosura longe dos gozos e dos triunfos mundanos.
O que lhe parecia agora um sacrifício parecera-lhe horas antes uma delícia.
A verdade era que a viúva além, do medo de comprometer a felicidade da filha, sentia preguiça de cortar de uma vez aquele sistema recolhido de vida, iniciado pelo marido, um pouco ciumento.
Os seus olhos percorriam superficialmente todo o jornal, quando de súbito estacaram num ponto. Por muito tempo não se despregaram de quatro linhas banais, lendo-as e relendo-as até que o jornal, levado por um dos seus gestos lânguidos, caiu aberto sobre os joelhos. Voltada para o sonho, ela continuou imóvel, com os membros lassos estendidos sob as roupagens longas e negras do seu ainda rigoroso luto de viuvez, e pôs-se a seguir com o olhar, que o pensamento erradio tornava ora abstrato, ora pensativo, uma barquinha de velas pandas que deslizava lá embaixo, isolada e pequenina, na solidão das águas.
Estava uma manhã gloriosa, céu azul cheio de sol, mar de um azul ainda mais denso, pacificado pela doçura da atmosfera.
Pelos socalcos abruptos da montanha desciam os quintais e o casario disperso. A grande alegria da luz envolvia tudo: manchas vermelhas de barro, tufos de vegetação, quadros domésticos encerrados entre a brancura de quatro muros caiados surpreendidos do alto, homens trabalhando nas suas hortas, mulheres estendendo roupa ao sol. O azul e o verde enchiam o ar com os seus tons fortes. Água, céu e montanhas, tudo isso a viúva olhava do alto, como se estivesse suspensa no espaço. Seguindo a linha alva de uma praia riscada além da baía, o seu pensamento ia agora em linha reta aos primeiros tempos da sua vida.
Mal se lembrava da mãe, um vulto tênue que fugia à sua lembrança... ficara órfã cedo... Do pai sim! Que bom velho! Que doce amigo fora ele sempre!...
A transparência do dia fazia realçar com nitidez todas as minúcias da paisagem, mas os olhos da viúva afeitos àquele esplendor não o observavam, tinham um fluído dourado, vago, de quem olha para coisas que outros não vêem...
Lembranças antigas de pessoas, de palavras, de idéias ou de sonhos, fugidios, apagados ou mortos.
Silenciosas, no meio das águas profundas e aniladas, as Fortalezas de Santa Cruz e da Laje viam-se distintamente, na sua triste cor de granito umedecido e velho. Na de Santa Cruz, poder-se-iam contar as seteiras da casamata, como órbitas vazias; nos recifes da Laje, a onda, embora branda, punha rendilhações brancas, de espuma salitrosa; e lá ao fundo, na barra, como outras sentinelas igualmente firmes e igualmente poderosas, levantavam os seus dorsos redondos, duas ilhas em tudo semelhantes, como dois irmãos gêmeos.
As montanhas sucediam-se, esmeraldinas, escuras, azuladas ou violáceas conforme o grau de distância e a luz que as feria, e para além das ilhas o mar estendia-se, até confundir-se no horizonte num tom enfumaçado e compacto.
A areia do jardim rangeu e a viúva voltou para a rabeca. Era a Simplícia, que ia lépida, de saias engomadas, procurando cravinas para enfeitar a carapinha, já amarrada com uma fita azul. Quando passou rente à janela, a viúva sentiu o cheiro das suas essências exageradamente impregnadas na mulatinha; fechou os olhos, sentindo preguiça de ralhar por aquela confiança...
A rapariga rabeou ligeira por entre os canteiros e sumiu-se.
O barco de vela ia também ligeiro, como uma asa branca cortando o azul, e a moça seguia-o, pensativa, lembrando fatos...
De repente o seu olhar perdeu aquela cor crepuscular, que dá a saudade, e fixou-se na cidade, como se quisesse indagar do que se passava por lá.
Surgindo de entre a verdura e a casaria, erguia-se logo em baixo, risonho e fresco, o outeiro da Glória, encimado pela igreja branca e pitoresca, contrapondo a sua poesia graciosa e aldeã à majestade ilimitada do mar.
Todo o bairro do Catete, com as suas ruas elegantes, parecia imerso numa grande paz. A esguia chaminé da City Improvements não sujava o ar com o seu fumo, denegrido e infecto. Subia de tudo uma poesia alegre, desde as pontes rústicas de madeira alcatroadas, que mal se viam numa curva de praia, até o deslizar da barca de Niterói que atravessava a baía, com a bandeira flutuante na ré e um rastro de espumarada na proa.
A filha da viúva jogava o croquet com um grupo de amigas, no pomar; mal se ouviam em casa a bulha seca dos martelos nas bolas, mais as risadas das jogadoras alegres. Tinha sido o pai, riograndense robusto e sangüíneo, quem a habituara àqueles exercícios e jogos ao ar livre.
Filho de uma senhora alemã e de um negociante português, o Simões de Porto Alegre, ele tinha recebido da mãe uma educação viril e uma saúde robusta, e do pai um pequeno patrimônio com que mais tarde se estabeleceu no Rio, quando, já órfão de mãe, o veio acompanhar até portas do hospício de D. Pedro II, onde o velho, louco, ainda viveu alguns anos terrivelmente agoniados!...
O olhar da viúva passou num vôo rápido por sobre o mar, as ilhas, a cidade e as montanhas e ficou abstrato, voltado de novo aos sonhos, inconscientemente preso ao Pão de Açúcar, cabeça da formidável esfinge que descansa sobre o leito misterioso do mar o seu enormíssimo corpo de montanha, com as garras sumidas nas águas e a fronte sumida nas nuvens. O seu pensamento lá ia esvoaçando como ave ligeira, pelo tempo antigo, sem que a vista se desfitasse da pedra arroxeada do monte, cortada de grandes laivos esbranquiçados ou escuros, escorregando de cima, como se fossem lágrimas.
voltando para onde você parou…
carregando o resto…