É assim que a leitura vai ficar.
Livro de "Soror Saudade"
texto de Project Gutenberg
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Deposito:—Sociedade Editora
Portugal-Brazil, Limitada
58, Rua Garrett, 60—Lisboa
DA AUTORA:
Livro de Máguas—1920
Tocar de aspiração a nossa vida,
Fazer do Mundo a Terra Prometida
Que ainda em sonho ás vezes me aparece!
Il n'a pas à se plaindre celui qui attend un sentiment plus ardent et plus généreux. Il n'a pas à se plaindre celui qui attend le désir d'un peu plus de bonheur, d'un peu plus de beauté, d'un peu plus de justice.
MAETERLINCK—La Sagesse et la Destinée.
INDICE
«SÓROR SAUDADE»
O NOSSO LIVRO
O QUE TU ÉS
FANATISMO
ALEMTEJANO
FUMO
QUE IMPORTA?...
O MEU ORGULHO
OS VERSOS QUE TE FIZ
FRIÊSA
O MEU MAL
A NOITE DESCE...
CARAVELAS
INCONSTANCIA
O NOSSO MUNDO
PRINCE CHARMANT...
ANOITECER
ESFINGE
TARDE DEMAIS...
CINZENTO
NOTURNO
MARIA DAS QUIMÉRAS
SAUDADES
RUINAS
CREPÚSCULO
ODIO?
RENUNCIA
A VIDA
HORAS RUBRAS
SUAVIDADE
PRINCEZA DESALENTO
SOMBRA
HORA QUE PASSA
DA MINHA JANELA
SOL POENTE
EXALTAÇÃO
«SÓROR SAUDADE»
A Américo Durão
E na minh'alma o nome iluminou-se
Como um vitral ao sol, como se fôsse
A luz do próprio sonho que sonháste.
Toda a mágua do outôno ele me trouxe;
Jámais me hão de chamar outro mais dôce:
Com ele bem mais triste me tornáste...
Como benção de sol que afaga e acalma,
Nas horas más de febre e de ansiedade,
Digo as palavras desse nome lindo
Que tu me déste: «Irmã, Sóror Saudade»...
O NOSSO LIVRO
A A. G.
Livro do nosso amôr, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com geito,
Como se fossem pétalas de flôr.
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lirios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dôr!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sôis!
Dirá, fechando o livro dôcemente:
«Versos só nossos, só de nós os dois!...»
O QUE TU ÉS
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a Mágua chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequér deslumbra, e ilumina e aquéce!
A rastejar no chão, como as mendigas,
Todo feito de lágrimas amargas!
Ah! Não seres como as outras raparigas
Ó Princeza Encantada da Quimera!...
FANATISMO
Meus olhos andam cegos de te vêr!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Passo no mundo, meu Amôr, a lêr
No misterioso livro do teu sêr
A mesma história tantas vezes lida!
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma bôca divina fala em mim!
«Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Principio e Fim!...»
ALEMTEJANO
Á Buja
Beijando a urze triste dos outeiros.
Nas ravinas do monte andam ceifeiros
Na faina, alegres, desde o sol nascente.
Brilham os olhos negros, feiticeiros;
E ha perfis delicados e trigueiros
Entre as altas espigas d'oiro ardente.
A cabeleira loira dos trigais
Sob a benção dulcissima dos ceus.
E eu sou uma daquelas raparigas...
E tu passas e dizes: «Salve-os Deus!»
FUMO
Longe de ti não ha luar nem rosas,
Longe de ti ha noites silenciosas,
Ha dias sem calor, beirais sem ninhos!
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos dôces, plênas de carinhos!
Ha crisantemos roxos que descóram...
Ha murmúrios dolentes de segrêdos...
E ele é, ó meu Amôr, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...
QUE IMPORTA?...
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violencias de paixão,
Como bate no peito á outra gente.
Sem sombra de desejo ou de emoção,
Enquanto as azas loiras da ilusão
Abrem dentro de mim ao sol nascente.
Como nascida em carinhoso monte,
Toda ela é riso e é frescura e graça!
Que importa?... Se o cançado viandante
Bebe em todas as fontes... quando passa?...
O MEU ORGULHO
Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Eu lembro-me que fui a primavera
Que em muros velhos fez nascer as rosas!
Pairavam como pombas... Quem soubéra
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos não dão rosas!
Mas digo para mim: «não me merécem...»
E já não fico tão abandonada!
Que tambem é orgulho ser sósinha,
E tambem é nobreza não ter nada!
OS VERSOS QUE TE FIZ
Que a minha bôca tem p'ra te dizer!
São talhados em mármore de Páros
Cinzelados por mim p'ra te oferecer.
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos p'ra te endoidecer!
Que a bôca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
E nêsse beijo, Amôr, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
FRIÊSA
E claros como os trágicos punhais;
Teem brilhos cortantes de metais
E fulgores de laminas geladas.
De abandonos crueis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!
Que viver nêste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!
E quanta vez dirás a soluçar:
«Ah! Quem me déra, Irmã, amar assim!...»
O MEU MAL
A meu irmão
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipréste e caravela e dôr!
Fui cisne e lirio e águia e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou um cínico riso de Chamfort...
Deram as minhas mãos arôma aos nardos...
Deu côr ao eloendro a minha bôca...
E foi de lá que eu trouxe esta ancia estranha!
Mágua não sei de quê! Saudade louca!
A NOITE DESCE...
Sobre uns olhos cançados, carinhosas,
A noite desce... Ah! dôces mãos piedosas
Que os meus olhos tristissimos fechassem!
Assim me adormecessem, caridosas,
E em braçadas de lirios e mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!
Perfume de baunilha ou de lilaz,
A noite põe-me embriagada, louca!
Meu dôce Amôr, tu beijas a minh'alma
Beijando nesta hora a minha bôca!
CARAVELAS
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho paiz que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde vélas de sonhos se rasgaram!
Ai, quem me déra as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei á vida, e não voltaram!...
INCONSTANCIA
Pedi á Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
E tanto beijo a bôca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Atraz do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que ha de partir tambem... nem eu sei quando...
O NOSSO MUNDO
Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu olhar eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos...
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno...
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e presagos!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bôcas unidas hêmos de bebê-la!
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O mundo, Amôr!... As nossas bôcas juntas!...
PRINCE CHARMANT...
A Raul Proença
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas!
Bôca sangrando beijos, flôr que sente...
Olhos postos num sonho, humildemente...
Mãos cheias de violetas e de rosas...
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!
Tecendo em frageis dedos frageis rendas...
—Nunca se encontra Aquele que se espéra!...
ANOITECER
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outr'ora...
Tenho bênçãos d'amor p'ra toda a gente!
E a minha alma sombria e penitente
Soluça no infinito desta hora...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Ó meu áspero e intérmino Calvario!
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...
ESFINGE
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d'oiro, p'los caminhos,
Desta minh'alma ardente são a imagem.
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca, e tu o Sol, sòsinhos,
Fossemos um pedaço da paisagem!
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da saudade...
Ficaria, olhos quietos, a scismar...
Esfinge olhando, na planicie enorme...
TARDE DEMAIS...
Abriu-se a noite em mágico luar;
E p'ra o som de teus passos conhecer
Pôz-se o silencio, em volta, a escutar...
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!
Procurára-te em vão! Braços abertos,
Pés nús, olhos a rir, a bôca em flôr!
E a minha bôca morta grita ainda:
Porque chegáste tarde, ó meu Amôr?!...
voltando para onde você parou…
carregando o resto…