É assim que a leitura vai ficar.
Reliquias de Casa Velha
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ACABA DE SER PUBLICADO
O
Plano Pangermanista
desmascarado
A temivel cilada Berlineza da "Partida Nulla"
POR
André Chéradame
Um vol. in-16 com 31 mappas no texto, brochado, 4$000
Á venda na LIVRARIA GARNIER
109, Rua do Ouvidor—Rio de Janeiro
Todos os direitos reservados
MACHADO DE ASSIS
DA ACADEMIA BRASILEIRA
Reliquias
de
Casa Velha
H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
71, RUA DO OUVIDOR, 71
RIO DE JANEIRO
6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6
PARIS
1906
INDICE
ADVERTENCIA
Uma casa tem muita vez as suas reliquias, lembranças de um dia ou de outro, da tristeza que passou, da felicidade que se perdeu. Suppõe que o dono pense em as arejar e expôr para teu e meu desenfado. Nem todas serão interessantes, não raras serão aborrecidas, mas, se o dono tiver cuidado, póde extrair uma duzia dellas que mereçam sair cá fóra.
Chama-lhe á minha vida uma casa, dá o nome de reliquias aos ineditos e impressos que aqui vão, idéas, historias, críticas, dialogos, e verás explicados o livro e o titulo. Possivelmente não terão a mesma supposta fortuna daquella duzia de outras, nem todas valerão a pena de sair cá fóra. Depende da tua impressão, leitor amigo, como dependerá de ti a absolvição da má escolha.
Machado de Assis.
A Carolina
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descanças dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquelle affecto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existencia appetecida
E n'um recanto poz um mundo inteiro.
Trago-te flores,—restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho nos olhos mal feridos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
Pae contra Mãe
A escravidão levou comsigo officios e apparelhos, como terá succedido a outras instituições sociaes. Não cito alguns apparelhos senão por se ligarem a certo officio. Um delles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia tambem a mascara de folha de Flandres. A mascara fazia perder o vicio da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a bocca. Tinha só tres buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atraz da cabeça por um cadeado. Com o vicio de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vintens do senhor que elles tiravam com que matar a sêde, e ahi ficavam dous peccados extinctos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal mascara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, á venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de mascaras.
O ferro ao pescoço era applicado aos escravos fujões. Imaginae uma colleira grossa, com a haste grossa tambem, á direita ou á esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atraz com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que signal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Ha meio seculo, os escravos fugiam com frequencia. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Succedia occasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas reprehendida; havia alguem de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a acção, porque dinheiro tambem dóe. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Vallongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raros, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhal-o fóra, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lh'o levasse. Punha annuncios nas folhas publicas, com os signaes do fugido, o nome, a roupa, o defeito physico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: «gratificar-se-ha generosamente,»—ou «receberá uma boa gratificação.» Muita vez o annuncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao hombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.
Ora, pegar escravos fugidos era um officio do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implicita das acções reivindicadoras. Ninguem se mettia em tal officio por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir tambem, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem á desordem.
Candido Neves,—em familia, Candinho,—é a pessoa a quem se liga a historia de uma fuga, cedeu á pobreza, quando adquiriu o officio de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não aguentava emprego nem officio, carecia de estabilidade; é o que elle chamava caiporismo. Começou por querer aprender typographia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compôr bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que elle disse a si mesmo. O commercio chamou-lhe a attenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de attender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartorio, continuo de uma repartição annexa ao ministerio do imperio, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.
Quando veiu a paixão da moça Clara, não tinha elle mais que dividas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de officio. Depois de varias tentativas para obter emprego, resolveu adoptar o officio do primo, de que aliás já tomára algumas licções. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos communs para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.
voltando para onde você parou…
carregando o resto…