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  1. Do
  2. MACHADO DE ASSIS
  3. da Academia Brasileira
  4. Livraria Garnier
  5. 109, Rua do Ouvidor,109 RIO DE JANEIRO
  6. 6, Rue des Saints-Pères, 6 PARIS
  7. COLLECÇÃO DOS AUTORES CELEBRES
  8. DA
  9. LITTERATURA
  10. 1919
  11. ADVERTÊNCIA DE 1907
  12. ADVERTÊNCIA DE 1874
  13. A MÃO E A LUVA
  14. I
  15. O fim da carta.
  16. II
  17. Um roupão.
  18. III
  19. Ao pé da cerca.
  20. IV
  21. Latet anguis.
  22. V
  23. Meninice.
  24. VI
  25. O post-scriptum.
  26. VII
  27. Um rival.
  28. VIII
  29. Golpe.
  30. IX
  31. Conspiração.
  32. X
  33. A revelação.
  34. XI
  35. Luiz Alves.
  36. XII
  37. A viagem.
  38. XIII
  39. Explicações.
  40. XIV
  41. Ex abrupto.
  42. XV
  43. Embargos de terceiro.
  44. XVI
  45. A confissão.
  46. XVII
  47. A carta.44814481448144814481448144814481448144814481
  48. XVIII
  49. A escolha.
  50. XIX
  51. Conclusão.
  52. FIM
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A Mão e a Luva

Machado de Assis

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Text von Project Gutenberg

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Do

MACHADO DE ASSIS

da Academia Brasileira

Livraria Garnier
109, Rua do Ouvidor,109 RIO DE JANEIRO
6, Rue des Saints-Pères, 6 PARIS
COLLECÇÃO DOS AUTORES CELEBRES
DA
LITTERATURA
1919

ADVERTÊNCIA DE 1907

Os trinta e tantos annos decorridos do apparecimento desta novella á reimpressão que ora se faz parece que explicam as differenças de composição e de maneira do autor. Se este não lhe daria agora a mesma feição, é certo que lh'a deu outr'ora, e, ao cabo, tudo pode servir a definir a mesma pessoa.

Não existia, ha muito, no mercado. O autor acceitou o conselho de confiar a reimpressão ao editor dos outros livros seus. Não lhe alterou nada; apenas emendou erros typographicos, fez correcções de orthographia, e eliminou cerca de quinze linhas. Vae como saiu em 1874.

M. De A.


ADVERTÊNCIA DE 1874

Ésta novella, sugeita ás urgências da publicação diaria, saiu das mãos do autor capitulo a capitulo, sendo natural que a narração e o estylo padecessem com esse methodo de composição, um pouco fóra dos hábitos do autor. Se a escrevêra em outras condições, dera-lhe desenvolvimento maior, e algum colorido mais aos caracteres, que ahi ficam esboçados. Convem dizer que o desenho de taes caracteres,—o de Guiomar, sobretudo,—foi o meu objecto principal, senão exclusivo, servindo-me a acção apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis. Incompletos embora, terão elles saido naturaes e verdadeiros?

Mas talvez estou eu a dar proporções muito graves a uma cousa de tão pequeno tomo. O que ahi vae são umas poucas paginas que o leitor esgotará de um trago, se ellas lhe aguçarem a curiosidade ou se lhe sobrar alguma hora que absolutamente não possa empregar em outra cousa,—mais bella ou mais util.

Novembro de 1874.

M. De A.


Indice

A MÃO E A LUVA


I

O fim da carta.

—Mas que pretendes fazer agora?

—Morrer.

—Morrer? Que ideia! Deixa-te disso, Estevão. Não se morre por tão pouco....

—Morre-se. Quem não padece estas dores não as póde avaliar. O golpe foi profundo, e o meu coração é pusillanime; por mais aborrecivel que pareça a ideia da morte, peior, muito, peior do que ella, é a de viver. Ah! tu não sabes o que isto é?

—Sei: um namoro gorado....

—Luiz!

—.... E se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha já diminuído muito o genero humano, e Malthus perderia o latim. Anda, sobe.

Estevão metteu a mão nos cabellos com um gesto de augustia; Luiz Alves sacudiu a cabeça e sorriu. Achavam-se os dous no corredor da casa de Luiz Alves, á rua da Constituição,—que então se chamava dos Ciganos;—então, isto é, em 1853, uma bagatella de vinte annos que lá vão, levando talvez comsigo as illusões do leitor, e deixando-lhe em troca (usurarios!) uma triste, crua e desconsolada experiencia.

Eram nove horas da noite; Luiz Alves recolhia-se para casa, justamente no occasião em que Estevão o ia procurar; encontraram-se á porta. Alli mesmo lhe confiou Estevão tudo o que havia, e que o leitor saberá daqui a pouco, caso não aborreça estas historias de amor, velhas como Adão, e eternas como o ceu. Os dous amigos demoraram-se ainda algum tempo no corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar que queria ir morrer, tão tenazes ambos, que não haveria meio de os vencer, se a Luiz não occoresse uma transacção.

—Pois sim, disse elle, convenho em que deves morrer, mas ha de ser amanhã. Cede da tua parte, e vem passar a noite commigo. Nestas ultimas horas que tens de viver na terra dar-me-has uma lição de amor, que eu te pagarei com outra de philosophia.

Dizendo isto, Luiz Alves travou do braço de Estevão, que não resistiu dessa vez, ou porque a ideia da morte não se lhe houvesse entranhado deveras no cerebro, ou porque cedesse ao doloroso gosto de falar da mulher amada, ou, o que é mais provavel, por esses dous motivos juntos. Vamos nós com elles, escada acima, até a sala de visitas, onde Luiz foi beijar a mão de sua mãe.

—Mamãe, disse elle, hade fazer-me o favor de mandar o chá ao meu quarto; o Estevão passa a noite commigo.

Estevão murmurou algumas palavras, a que tentou dar um ar de gracejo, mas que eram funebres como um cypreste. Luiz viu-lhe então, á luz das estearinas, alguma vermelhidão nos olhos, e adivinhou,—não era difficil,—que houvesse chorado. Pobre rapaz! suspirou elle mentalmente. D'alli foram os dous para o quarto, que era uma vasta sala, com tres camas, cadeiras de todos os feitios, duas estantes com livros e uma secretaria,—vindo a ser ao mesmo tempo, alcova e gabinette, de estudo.

O chá subiu dahi a pouco. Estevão, a muito rogo do hospede, bebeu dous goles; accendeu um cigarro e entrou a passear ao longo do aposento, em quanto Luiz Alves, preferindo um charuto e um sophá, accendeu o primeiro e estirou-se no segundo, cruzando beatificamente as mãos sobre o ventre e contemplando o bico das chinellas, com aquella placidez de um homem a quem se não gorou nenhum namoro. O silencio não era completo; ouvia-se o rodar de carros que passavam fóra; no aposento, porêm, o unico rumor era dos botins de Estevão na palhinha do chão.

Cursavam estes dous moços a academia de S. Paulo, estando Luiz Alves, no quarto anno e Estevão no terceiro. Conheceram-se na academia, e ficaram amigos intimos, tanto quanto podiam sel-o dous espiritos differentes, ou talvez por isso mesmo que o eram. Estevão, dotado de extrema sensibilidade, e não menor fraqueza de animo, affectuoso e bom, não daquella bondade varonil, que é apanagio de uma alma forte, mas dessa outra bondade molle e de cera, que vai á mercê de todas as circumstancias, tinha, além de tudo isso, o infortunio de trazer ainda sobre o nariz os oculos côr de rosa de suas virginaes illusões. Luiz Alves via bem com os olhos da cara. Não era mau rapaz, mas tinha o seu grão de egoismo, e se não era incapaz de affeições, sabia regel-as, moderal-as, e sobretudo guial-as ao seu proprio interesse. Entre estes dous homens travara-se amizade intima, nascida para um na sympathia, para outro no costume. Eram elles os naturaes confidentes um do outro, com a differença que Luiz Alves dava menos do que recebia, e, ainda assim, nem tudo o que dava exprimia grande confiança.

Estevão referira ao amigo, desde tempos, toda a historia do amor, agora mallogrado, suas esperanças, desalentos e glorias, e, emfim, o inesperado desfecho. O pobre rapaz, que folheava o capitulo mais delicioso do romance—no sentir delle—caiu de toda a altura das illusões na mais dura, prosaica e miseravel realidade.

A namorada de Estevão,—é tempo de dizer alguma cousa della,—era uma moça de 17 annos, e, por ora, simples alumna-professora no collegio de uma tia do nosso estudante, á rua dos Invalidos. Estevão tinha-a visto, pela primeira vez, seis mezes antes, e desde logo sentiu-se preso por ella, «até á morte», disse elle ao amigo, referindo-lhe o encontro, o que o fez sorrir de tão estirado prazo. Qualquer que elle fosse, porém, o prazo fatal daquelle captiveiro, a verdade é que Estevão no mesmo ponto em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira vez na vida—amor um pouco estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ella? Estevão dizia que sim, e devia crel-o; alguns olhares ternos, meia duzia de apertos de mão significativos, embora a largos intervallos, davam a entender que o coração de Guiomar—chamava-se Guiomar—não era surdo á paixão do academico. Mas, fora disso, nada mais, ou pouco mais.

O pouco mais foi uma flor, não colhida do pé em toda a original frescura, mas já murcha e sem cheiro, e não dada, senão pedida.

—Faz-me um favor? disse um dia Estevão apontando para a flor que ella trazia nos cabellos; esta flor está murcha, e, naturalmente, vai deital-a fóra ao despentear-se; eu desejava que m'a désse.

Guiomar, sorrindo, tirou a flor do cabello, e deu-lh'a; Estevão recebeu-a com egual contentamento ao que teria se lhe antecipassem o seu quinhão do ceu. Além da flor, e para supprir as cartas, que não havia, nada mais obtivera. Estevão durante aquelles seis compridos mezes, a não serem os taes olhares, que afinal são olhares, e vão-se com os olhos donde vieram. Era aquillo amor, capricho, passatempo ou que outra cousa era?

Naquella tarde, a tarde fatal, estando ambos a sós, o que era raro e difficil, disse-lhe elle que em breve ia voltar para S. Paulo, levando comsigo a imagem della, e pedindo-lhe em cambio, que uma vez ao menos lhe escrevesse. Guiomar franziu a testa e fitou nelle o seu magnifico par de olhos castanhos, com tanta irritação e dignidade, que o pobre rapaz ficou attonito e perplexo. Imagina-se a augustia delle diante do silencio que reinou entre ambos por alguns segundos; o que se não imagina é a dor que o prostrou,—a dor e o espanto,—quando ella, erguendo-se da cadeira em que estava, lhe respondeu, saindo:

—Esqueça-se disso.

—Pois quanto a mim,—disse Luiz Alves ouvindo pela terceira vez a narração de tão cru desenlace; quanto a mim, obedecia-lhe pontualmente; esquecia-me disso e ia curar-me cima dos compendios; direito romano e philosophia, não conheço remedio melhor para taes achaques.

Estevão não ouvia as palavras do amigo; estava então assentado na cama, com os cotovellos fincados nas pernas, e a cabeça mettida nas mãos, parecendo que chorava. A principio chorou em silencio; mas não tardou que Luiz Alves o visse deitar-se na cama, estorcer-se convulsivamente, a soluçar, a abafar quanto podia os gritos que lhe saiam do peito, a puxar os cabellos, a pedir a morte, tudo entremeado com o nome de Guiomar, tão d'alma tudo aquillo, tão lastimosamente natural, que emfim o commoveu, e não houve remedio se não dizer-lhe algumas palavras de conforto. A consolação veiu a tempo; a dor, chegada ao paroxismo, declinou pouco a pouco, e as lagrimas estancaram, ao menos por algum tempo.

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—

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A Mão e a Luva von Machado de Assis. Der Text ist in den USA gemeinfrei, digitalisiert von den Freiwilligen von Project Gutenberg. Wir liefern ihn aus unserer eigenen Kopie aus.

Gesprochen von Leni für LibriVox, ebenfalls gemeinfrei.

tale.fyi