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  1. DEZOITO ANNOS
  2. DEZOITO ANNOS
  3. TIO BARREIROS
  4. TIO BARREIROS
  5. SOLTEIRÃO
  6. SOLTEIRÃO
  7. HAMLET
  8. HAMLET
  9. A SENHORA ANGELICA
  10. A SENHORA ANGELICA
  11. ALGARVE
  12. ALGARVE
  13. CÚMULO
  14. CÚMULO
  15. A AMA
  16. A AMA
  17. ENTARDECER
  18. ENTARDECER
  19. BRETAN
  20. BRETAN
  21. VICTORIA
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  23. A TERRA
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  27. SOMBRAS
  28. SOMBRAS
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Infelizes: Historias Vividas

Ana de Castro Osório

kostenlos · 17.890 Wörter · Hörbuch (2 Std. 10 Min.), gelesen von MarinaFikota für LibriVox

Text von Project Gutenberg

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  • DEZOITO ANNOS
  • TIO BARREIROS
  • SOLTEIRÃO
  • HAMLET
  • A SENHORA ANGELICA
  • ALGARVE
  • CÚMULO
  • A AMA
  • ENTARDECER
  • BRETAN
  • VICTORIA
  • A TERRA
  • FREIRAS
  • SOMBRAS

 

 

 

Áquelles que no mundo estimo

 

 

 

omo n'essa noite uma febre intensa me tomasse, uma grande saudade, uma grande piedade, me invadiu o espirito, por todos os tristes, por todos os humildes—os infelizes da terra...

No principio da doença, quando o corpo começa de sentir o embate grosseiro do mal, que o vencerá; quando o frio nos arrepia a carne, n'um estremecer sangrento, n'um espicaçar de venenosas agulhas; vem-nos um profundo egoismo, um completo esquecimento dos outros. Na contemplação das nossas dôres, tudo mais desapparece sem nenhum valor.

Depois, a intensidade da febre espiritualisa-nos, a alma desliga-se do corpo extenuado e sóbe a mais alto. O proprio soffrimento se desdobra n'uma vaga e serena piedade por tudo o que existe, por todos os que choram...

Então, n'uma d'essas horas de sonho e de nitidas recordações, eu lembrei pobres almas inferiores, tristes desvairamentos em grandes espiritos, máguas inconfessadas—que a minha alma conheceu ou presente nos humildes, nos desprezados...

D'alguns me lembrei fallar; outros ficaram na piedosa tristeza da minha memoria—não porque as suas lagrimas me pareçam menos dignas de serem recolhidas, não porque sejam menos estimados, mas porque quasi nada poderia interessar aos outros a repetição d'essas singelas historias de vidas simples, monotonamente eguaes pelo soffrimento.

Phantasmas sympathicos ao meu espirito, elles vieram todos rodear o leito, onde, febril, o meu corpo fatigado cahia.

A minha cabeça dorida abysmava-se n'um confuso recordar de cousas passadas.

E elles vieram, um a um, mostrar as suas pobres figuras empallidecidas pela distancia ou pela morte, n'um desejo de serem evocados...

Setubal, maio de 96.


DEZOITO ANNOS


DEZOITO ANNOS

tia Clara, essa adoravel velhinha que fez ha dias cento e quatro annos, teve tambem os seus dezoito—e por signal encantadores de frescura e graça.

Mal podemos crêr isto, nós que a vemos hoje tão serena, tão identificada com a nossa vida, tão egual a nós pela lucidez do espirito, sempre d'uma intelligencia e d'um interesse perfeitamente juvenil.

Eu adoro essa querida velhinha que não se envolveu nas recordações e remordimentos egoistas como n'uma antipathica couraça eriçada d'espinhos.

Não! Ella recorda todo o passado, mas suavemente, sem comparações desfavoraveis para nós, como os velhos impertinentes costumam!... Relembra, levemente melancolica, os tempos longinquos da mocidade, tão distante aos nossos olhos, tão vivos ainda na sua memoria.

A sua alma é um piedoso Campo Santo habitado pela saudade de todos os seus amigos, de toda a sua familia mais proxima, que a um e um a foram deixando na velha casa senhorial, já em parte abandonada de grande que é!... mas o seu coração santissimo vae florindo sempre joven, amando com egual affecto todos os que de novo chegam á familia...

Ah! Eu não me esqueço, minha boa amiga, da saudade reconhecida que me ficou na alma quando, a ultima vez que a visitei, a vi affastar-se lentamente na meia obscuridade do longo corredor. Seguia-a um ligeiro esvoaçar de recordações, toadas simples vindas de muito longe—os francezes, guerras, mortes, nascimentos, toda a sua vida singela passada na hereditaria quinta perdida entre serras, onde os echos do mundo devem ter chegado sempre esbatidos em meias tintas pallidas.

Tenho ainda no meu ouvido o som inolvidavel da sua vózinha quebrada dizendo serena e sorridente: «assisti ás ultimas endoenças no convento de Maceira Dão!...» E tudo morto n'esse passado cheio de poesia, visto assim de longe, evocado pelo seu espirito bondoso!...

Mas a desvairada fuga aos francezes é que eu, mais do que tudo, gosto de lhe ouvir contar.

*
*     *

—Era uma tarde de fins de setembro, luminosa, quente ainda. O céo, todo em fogo no poente, flammejava n'um incendio colossal—toda a alma da Patria agonisante levantando para Deus a ultima esperança, no ultimo clarão de tiros ao longe.

«Os francezes, os francezes!...» Esse grito estridente como uivos de animaes apavorados corria de bocca em bocca, era um signal de fuga, de miseria, d'espanto geral.

O povo ignorante e bom voltava para o céo os punhos cerrados n'uma desesperada ameaça. Abandonado por todos na sua patria invadida, agarrava-se á terra como á sua unica defeza, o seu unico amôr, a unica razão d'existir.

As mães uivavam de dôr pelos caminhos, torciam os braços convulsos vendo do alto dos montes os filhos que partiam para a guerra. Outras estarreciam-se n'um silencio medroso...

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Infelizes: Historias Vividas von Ana de Castro Osório. Der Text ist in den USA gemeinfrei, digitalisiert von den Freiwilligen von Project Gutenberg. Wir liefern ihn aus unserer eigenen Kopie aus.

Gesprochen von MarinaFikota für LibriVox, ebenfalls gemeinfrei.

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