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  1. FLORBELA ESPANCA
  2. Livro de Máguas
  3. MCMXIX
  4. LIVRO DE MÁGUAS
  5. FLORBELA ESPANCA
  6. Livro de Máguas
  7. MCMXIX
  8. A meu Pai
  9. Ao meu melhor amigo
  10. Á querida Alma irmã da minha,
  11. Ao meu Irmão
  12. Êste livro...
  13. ÊSTE LIVRO...
  14. Vaidade
  15. VAIDADE
  16. Eu...
  17. EU...
  18. Castelã da Tristêsa
  19. CASTELÃ DA TRISTÊSA
  20. Tortura
  21. TORTURA
  22. Lágrimas ocultas
  23. LÁGRIMAS OCULTAS
  24. Torre de névoa
  25. TORRE DE NÉVOA
  26. A minha Dôr
  27. A MINHA DÔR
  28. Dizêres íntimos
  29. DIZÊRES INTIMOS
  30. As minhas Ilusões
  31. AS MINHAS ILUSÕES
  32. Neurastenia
  33. NEURASTENIA
  34. Pequenina
  35. PEQUENINA
  36. A Maior Tortura
  37. A MAIOR TORTURA
  38. A Flôr do Sonho
  39. A FLÔR DO SONHO
  40. Noite de Saudade
  41. NOITE DE SAUDADE
  42. Angustia
  43. ANGUSTIA
  44. Amiga
  45. AMIGA
  46. Desejos vãos
  47. DESEJOS VÃOS
  48. Peor velhice
  49. PEOR VELHICE
  50. A um livro
  51. A UM LIVRO
  52. Alma perdida
  53. ALMA PERDIDA
  54. De joelhos
  55. DE JOELHOS
  56. Languidez
  57. LANGUIDEZ
  58. Para quê?!
  59. PARA QUÊ?!
  60. Ao vento
  61. AO VENTO
  62. Tédio
  63. TÉDIO
  64. A minha Tragédia
  65. A MINHA TRAGÉDIA
  66. Sem remédio
  67. SEM REMÉDIO
  68. Mais triste
  69. MAIS TRISTE
  70. Velhinha
  71. VELHINHA
  72. Em busca do Amôr
  73. EM BUSCA DO AMOR
  74. Impossivel
  75. IMPOSSIVEL
  76. ÍNDICE
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Livro de Máguas

Florbela Espanca

kostenlos · 3.426 Wörter · ~14 Min. Lesezeit

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NOTA: Este texto tem uma versão em língua
portuguesa moderna,
a que pode ser aceder clicando na ligação:

TEXT










FLORBELA ESPANCA



Livro de Máguas













MCMXIX







LIVRO DE MÁGUAS







FLORBELA ESPANCA



Livro de Máguas













MCMXIX






A meu Pai

Ao meu melhor amigo





Á querida Alma irmã da minha,

Ao meu Irmão





Procuremos sòmente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia resequida,
Um som dágua ou de bronze e uma sombra que passa...



Eugénio de Castro.




Isolés dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,
Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible,
Seront deux rossignols qui chantent dans le soir.



Verlaine.






Êste livro...



ÊSTE LIVRO...



Êste livro é de máguas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorae ao lê-lo!
Sòmente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo...

Este livro é p'ra vós, Abençoados
Os que o sentirem, sem sêr bom nem belo!
Bíblia de tristes... Ó Desventurados,
Que a vossa imensa dôr se acalme ao vê-lo!

Livro de Máguas... Dôres... Ansiedades!
Livro de Sombras... Névoas... e Saudades!
Vai pelo mundo... (Trouxe-o no meu seio...)

Irmãos na Dôr, os olhos razos de agua,
Chorae comigo a minha imensa mágua,
Lendo o meu livro só de máguas cheio!...






Vaidade



VAIDADE



Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguem cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no ceu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...

E não sou nada!...






Eu...



EU...



Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguem vê...
Sou a que chamam triste sem o sêr...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguem sonhou,
Alguem que veio ao mundo p'ra me vêr,
E que nunca na vida me encontrou!






Castelã da Tristêsa



CASTELÃ DA TRISTÊSA



Altiva e couraçada de desdem,
Vivo sòsinha em meu castelo: a Dôr!
Passa por êle a luz de todo o amôr....
E nunca em meu castelo entrou alguem!

Castelã da Tristêsa, vês?... A quem?!...
—E o meu olhar é interrogadôr—
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...
Chora o silêncio... nada... ninguem vem...

Castelã da Tristêsa, porque choras
Lendo, toda de branco, um livro de oras,
Á sombra rendilhada dos vitrais?...

Á noite, debruçada p'las ameias,
Porque rezas baixinho?... Porque anseias?...
Que sonho afagam tuas mãos reais?...






Tortura



TORTURA



Tirar dentro do peito a Emoção,
A lucida Verdade, o Sentimento!
—E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso d'alto pensamento,
E puro como um rythmo d'oração!
—E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento!...

São assim ôcos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavaes dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me déra encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, extranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!






Lágrimas ocultas



LÁGRIMAS OCULTAS



Se me ponho a scismar em outras éras
Em que ri e cantei, em que era qu'rida,
Parece-me que foi noutras esféras,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste bôca dolorida
Que dantes tinha o rir das primavéras,
Esbate as linhas graves e severas
E cae num abandôno de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rôsto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguem as vê brotar dentro da alma!
Ninguem as vê cair dentro de mim!






Torre de névoa



TORRE DE NÉVOA



Subi ao alto, á minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E puz-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: «Que fantasia,

Creança doida e crente! Nós tambêm
Tivemos ilusões, como ninguem,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!...»

Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao Ceu!...






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—

danke fürs Lesen

Livro de Máguas von Florbela Espanca. Der Text ist in den USA gemeinfrei, digitalisiert von den Freiwilligen von Project Gutenberg. Wir liefern ihn aus unserer eigenen Kopie aus.

tale.fyi