Livro de Máguas
kostenlos · 3.426 Wörter · ~14 Min. Lesezeit
Text von Project Gutenberg
scroll mal ↓weiter ↓
(von vorn beginnen)
NOTA: Este texto tem uma versão em língua
portuguesa moderna,
a que pode ser aceder clicando na ligação:
TEXT
FLORBELA ESPANCA
Livro de Máguas
MCMXIX
LIVRO DE MÁGUAS
FLORBELA ESPANCA
Livro de Máguas
MCMXIX
A meu Pai
Ao meu melhor amigo
Á querida Alma irmã da minha,
Ao meu Irmão
Procuremos sòmente a
Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia resequida,
Um som dágua ou de bronze e uma sombra que passa...
Eugénio de Castro.
Isolés dans l'amour ainsi
qu'en un bois noir,
Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible,
Seront deux rossignols qui chantent dans le soir.
Verlaine.
Êste livro...
ÊSTE LIVRO...
Êste livro é de
máguas.
Desgraçados
Que no mundo passais, chorae ao lê-lo!
Sòmente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo...
Este livro é p'ra vós, Abençoados
Os que o sentirem, sem sêr bom nem belo!
Bíblia de tristes... Ó Desventurados,
Que a vossa imensa dôr se acalme ao vê-lo!
Livro de Máguas... Dôres... Ansiedades!
Livro de Sombras... Névoas... e Saudades!
Vai pelo mundo... (Trouxe-o no meu seio...)
Irmãos na Dôr, os olhos razos de agua,
Chorae comigo a minha imensa mágua,
Lendo o meu livro só de máguas cheio!...
Vaidade
VAIDADE
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguem cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!
E quando mais no ceu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...
E não sou nada!...
Eu...
EU...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguem vê...
Sou a que chamam triste sem o sêr...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguem sonhou,
Alguem que veio ao mundo p'ra me vêr,
E que nunca na vida me encontrou!
Castelã da Tristêsa
CASTELÃ DA TRISTÊSA
Altiva e couraçada de
desdem,
Vivo sòsinha em meu castelo: a Dôr!
Passa por êle a luz de todo o amôr....
E nunca em meu castelo entrou alguem!
Castelã da Tristêsa, vês?... A quem?!...
—E o meu olhar é interrogadôr—
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...
Chora o silêncio... nada... ninguem vem...
Castelã da Tristêsa, porque choras
Lendo, toda de branco, um livro de oras,
Á sombra rendilhada dos vitrais?...
Á noite, debruçada p'las ameias,
Porque rezas baixinho?... Porque anseias?...
Que sonho afagam tuas mãos reais?...
Tortura
TORTURA
Tirar dentro do peito a
Emoção,
A lucida Verdade, o Sentimento!
—E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...
Sonhar um verso d'alto pensamento,
E puro como um rythmo d'oração!
—E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento!...
São assim ôcos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavaes dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me déra encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, extranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
Lágrimas ocultas
LÁGRIMAS OCULTAS
Se me ponho a scismar em outras
éras
Em que ri e cantei, em que era qu'rida,
Parece-me que foi noutras esféras,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste bôca dolorida
Que dantes tinha o rir das primavéras,
Esbate as linhas graves e severas
E cae num abandôno de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rôsto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguem as vê brotar dentro da alma!
Ninguem as vê cair dentro de mim!
Torre de névoa
TORRE DE NÉVOA
Subi ao alto, á minha
Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E puz-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.
Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: «Que fantasia,
Creança doida e crente! Nós tambêm
Tivemos ilusões, como ninguem,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!...»
Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao Ceu!...
deine Stelle wird wiederhergestellt…
der Rest wird geladen…