Só
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L.V.
SÓ
ANTONIO NOBRE
SÓ
PARIS
LÉON VANIER, ÉDITEUR
19, QUAI SAINT-MICHEL, 19
1892
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MEMORIA Á MINHA MÃE AO MEU PAE
Aquelle que partiu no brigue Boa Nova,
E na barca Oliveira, annos depois, voltou;
Aquelle santo (que velhinho e jà corcova)
Uma vez, uma vez, linda menina amou:
Tempos depois, por uma certa lua-nova,
Nasci eu… O velhinho ainda cà ficou,
Mas ella disse:—«Vou, alli adiante, à Cova,
Antonio, e volto jà…» E ainda não voltou!
Antonio é vosso. Tomae là a vossa obra!
«Só» é o poeta-nato, o lua, o santo, a cobra!
Trouxe-o d'um ventre: não fiz mais do que escrever…
Lede-o e vereis surgir do poente as idas magoas,
Como quem ve o sol sumir-se, pelas agoas,
E sobe aos alcantis para o tornar a ver!
*Antonio*
Que noite de inverno! Que frio, que frio!
Gelou meu carvão:
Mas boto-o á lareira, tal qual pelo estio,
Faz sol de verão!
Nasci, n'um Reino d'Oiro e flores
Á beira-mar.
Ó velha Carlota, tivesse-te ao lado,
Contavas-me historias:
Assim… desenterro, do val do passado,
As minhas Memorias.
Sou neto de Navegadores,
Heroes, Lobos d'agoa, Senhores
Da India, d'Aquém e d'Além-mar!
Moreno coveiro, tocando viola,
A rir e a cantar!
Empresta, bom homem, a tua sachola,
Eu quero cavar:
E o vento mia! e o vento mia!
Que irà no mar!
Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
Qual Lua, a distancia!
Vizões enterradas no adro da Igreja,
Branquinha, da Infancia…
Que noite! ó minha Irmã Maria,
Accende um cyrio à Virgem Pia,
Pelos que andam no alto mar…
Lá vem a Carlota que embala uma aurora
Nos braços, e diz:
«Meu lindo menino, que Nossa Senhora
O faça feliz!»
Ao mundo vim, em terça-feira,
Um sino ouvia-se dobrar!
E Antonio crescendo, sãosinho e perfeito,
Feliz que vivia!
(E a Dor, que morava com elle no peito,
Com elle crescia…)
Vim a subir pela ladeira
E, n'uma certa terça-feira,
Estive jà p'ra me matar…
Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
Que fado cruel!
E a Antonio calhou-lhe levar, coitadinho!
A Esponja do Fel…
Ides gelar, agoas dos montes!
Ides gelar!
A Tia Delphina, velhinha tão pura,
Dormia a meu lado
E sempre rezava por minha ventura…
E sou desgraçado!
Agoas do rio! agoas das fontes!
Cantigas d'agoa pelos monles,
Que sois como amas a cantar…
E eu ia ás novenas, em tardes de Maio,
Pedir ao Senhor:
E, ouvindo esses cantos, tremia em desmaio,
Mudava de cor!
Passam na rua os estudantes
A vadrulhar…
E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
A mail-os francezes,
Quando ia ao confesso, á ermida da serra,
Levava-me, ás vezes.
Assim como elles era eu d'antes!
Meus camaradas! estudantes!
Deixae o Poeta trabalhar…
Santinho como ia, santinho voltava:
Peccados? Nem um!
E a instancias do padre dizia (e chorava):
«Não tenho nenhum…»
Ó Job, coberto de gangrenas,
Meu avatar!
As noites, rezava (e rezo ainda agora)
Ao pé da lareira.
(A chuva gemente caia lá fóra,
Fervia a chaleira…)
Conservo as mesmas tuas penas,
Mais tuas chagas e gangrenas,
Que não me farto de coçar!
—Que Deus se amercie das almas do Inferno!
—Amen! Oxalá…
E o moço rosnava, tranzido de inverno:
—Que bom lá está!
E a neve cae, como farinha,
Là d'esse moinho a moer, no Ar:
O sino da Igreja tocava, á tardinha:
Que tristes seus dobres!
Era a hora em que eu ia provar, á cozinha,
O caldo dos pobres…
Ó bom Moleiro, cautellinha!
Não desperdices a farinha
Que tanto custa a germinar…
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