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  1. JULIO DINIZ
  2. UMA FAMILIA INGLEZA
  3. I
  4. ESPECIE DE PROLOGO, EM QUE SE FAZ UMA APRESENTAÇÃO AO LEITOR
  5. II
  6. MAIS DUAS APRESENTAÇÕES, E ACABA O PROLOGO
  7. III
  8. NA AGUIA D'OURO
  9. IV
  10. UM ANJO FAMILIAR
  11. V
  12. UMA MANHÃ DE MR. RICHARD
  13. VI
  14. AO DESPERTAR DE CARLOS
  15. VI
  16. REVISTA DA NOITE
  17. VIII
  18. NA PRAÇA
  19. IX
  20. NO ESCRIPTORIO
  21. X
  22. JENNY
  23. XI
  24. CECILIA
  25. XII
  26. OUTRO DEPOIMENTO
  27. XIII
  28. VIDA PORTUENSE
  29. XIV
  30. IMMINENCIAS DE CRISE
  31. XV
  32. VIDA INGLEZA
  33. XVI
  34. NO THEATRO
  35. XVII
  36. CONTAS DE CARLOS COM A CONSCIENCIA
  37. XVIII
  38. CONTAS DE JENNY COM A CONSCIENCIA DE CARLOS
  39. XIX
  40. AGGRAVAM-SE OS SYMPTOMAS
  41. XX
  42. MANOEL QUENTINO PROCURA DISTRACÇÕES
  43. XXI
  44. O QUE VALE UMA RESOLUÇÃO
  45. XXII
  46. EDUCAÇÃO COMMERCIAL
  47. XXIII
  48. DIPLOMACIA DO CORAÇÃO
  49. XXIV
  50. EM QUE A SENHORA ANTONIA PROCURA ENCHER-SE DE RAZÃO
  51. XXV
  52. TEMPESTADE DOMESTICA
  53. XXVI
  54. INEFFICAZ MEDIAÇÃO DE JENNY
  55. XXVII
  56. O MOTIVO MAIS FORTE
  57. XXVIII
  58. FORMA-SE A TEMPESTADE EM OUTRO PONTO
  59. XXIX
  60. OS AMIGOS DE CARLOS
  61. XXX
  62. PESO QUE PÓDE TER UMA LEVIANDADE
  63. XXXI
  64. O QUE SE PASSAVA EM CASA DE MANOEL QUENTINO
  65. XXXII
  66. OS CONVIVAS DE MR. RICHARD
  67. XXXIII
  68. EM HONRA DE JENNY
  69. XXXIV
  70. MANOEL QUENTINO ALLUCINADO
  71. XXXV
  72. A SENTENÇA DO PAE
  73. XXXVI
  74. A DEFEZA DA IRMÃ
  75. XXXVII
  76. COMO SE EDUCA A OPINIÃO PUBLICA
  77. XXXVIII
  78. JUSTIFICAÇÃO DE CARLOS
  79. XXXIX
  80. CORÔA-SE A OBRA
  81. CONCLUSÃO
  82. FIM.
  83. INDICE
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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto

Júlio Dinis

kostenlos · 119.204 Wörter · Hörbuch (13 Std. 17 Min.), gelesen von L.S.B.Seabra für LibriVox

Text von Project Gutenberg

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JULIO DINIZ

Terceira Edição

Porto

Em casa de A. R. da Cruz Coutinho, Editor

18—Rua dos Caldeireiros—20

1875

TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
Rua Ferreira Borges, 31

UMA FAMILIA INGLEZA

I

ESPECIE DE PROLOGO, EM QUE SE FAZ UMA APRESENTAÇÃO AO LEITOR

Entre os subditos da rainha Victoria, residentes no Porto, ao principiar a segunda metade do seculo dezenove, nenhum havia mais bemquisto e mais obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleugmaticos e genuinamente inglezes, do que Mr. Richard Whitestone.

Por tal nome era em toda a cidade conhecido um abastado negociante de fino tacto commercial e genio emprehendedor, cujo credito nas primeiras praças da Europa e da America, e com especialidade nos vastos emporios da Gran-Bretanha, se firmava em bases de uma solidez superabundantemente provada.

Nos livros de registro do Bank of England, bem como nos de alguns Joint-Stock banks e dos banqueiros particulares da City ou de West-End, podia-se procurar com exito documentos justificativos d'este credito florescente.

Não era Mr. Richard homem para seguir sómente caminhos batidos, nem para empallidecer ao abalançar-se em veredas não arroteadas, onde se achava a sós com os seus esforços e tenacidade.

Por vezes arriscára capitaes a inaugurar companhias, a plantar novos ramos de commercio, a auxiliar industrias nascentes, aventurando assim proveitosos exemplos, para serem seguidos depois, já com melhores garantias de lucro, por seus collegas, caracteres em geral cautelosos e positivos e sempre desconfiados a respeito de innovações.

Apesar d'isso, as crises, essas derruidoras tempestades tão frequentes na vida do commercio, tinham passado por cima da casa Whitestone, respeitando-a. Através das nuvens negras, que tantas vezes assombram o mundo monetario, vira-se sempre brilhar a firma do honrado Mr. Richard, com o esplendor tradicional; emquanto que não sorriram fados tão propicios ás de muitos meticulosos e precatados, não obstante egoistas abstenções.

Era o caso de mais uma vez repetir o Audaces fortuna… de já estafada memoria.

Esta immunidade, em parte devida á lucida intelligencia, com a qual Mr. Richard sabia superintender nos variados negocios do seu tracto, em parte a não sei que benigno espirito, ou acaso feliz, a que muitas vezes parece andar subordinada a fortuna, valera-lhe uma illimitada confiança entre todos, com quem o negocio o ligava, confiança da qual, nem em circumstancias frivolas, se mostrou nunca indigno depositario.

O quotidiano apparecimento do negociante estrangeiro na Praça—nome que entre nós se dá ainda á rua dos Inglezes, principal centro de transacções do alto commercio portuense—festejavam-o benevolentes sorrisos, rasgadas e pressurosas reverencias, phrases de insinuante amabilidade e affectuosos shake-hands, segundo o mais ou menos adiantado grau de familiaridade, que cada qual mantinha com elle.

Ninguem se dispensava de qualquer d'estas demonstrações de estima, ou as impozesse o prestigio dos avultados capitaes e da social liberalidade do commerciante britannico, ou—como de preferencia opinarão os que melhor conceito formam dos homens—um longo passado sem mancha, uma rectidão e cavalheirismo, aquilatados todos os dias.

Mr. Whitestone não se deixava porém desvanecer com estas homenagens dos seus confrades, aliás merecidas.

Decididamente não era a vaidade o seu defeito dominante. Aspirando essa especie de incenso moral, que tão bem formadas cabeças atordôa, não sentia, no intimo, turbar-se a limpidez, verdadeiramente crystallina, da razão, n'elle pouco sujeita a esvaîmentos.

Os gêlos d'aquelle coração, formado e desenvolvido a cincoenta e um graus de latitude septentrional, não se fundiam com tão pouco.

Lôas, hymnos encomiasticos, capazes, ainda que em prosa, de atemorisar as modestias menos esquivas, protestos hyperbolicos de veneração a todo o transe, tudo isso escutava friamente e sem nem sequer experimentar certa agradavel e voluptuosa titillação da alma—se me admittem a phrase—que em quasi todos os filhos de Eva,—primeira e mal estreiada victima da lisonja—produzem sempre os panegyricos do merecimento proprio, entoados por bôcas alheias.

A mesma indifferença, a mesma, se não absoluta impassibilidade, estabilidade de razão pelo menos, com que, uns após outros, esvasiava copos de cerveja e calices do Porto e Madeira, de rhum, de cognac, de kummel, de gingerbeer, e até de absintho, libações, que a qualquer pessoa menos inglezmente organisada ameaçariam, em pouco tempo, com as mais pavorosas consequencias de um completo alcoolismo; essa mesma indifferença e impassibilidade oppunha ao effeito, não menos inebriante, das lisonjas de que lhe enchiam os ouvidos.

A eloquencia cortezã dos seus muitos enthusiastas mais do que uma vez a recebia assobiando distrahidamente, mas sem a menor affectação, o nacional God save the queen, ao qual marcava compasso com a cabeça ou com a bengala.

Não se dava ao trabalho de retribuir um cumprimento com outro cumprimento. Aquelles que teem por costume semeiar lisonjas, para depois as colherem, em proveito proprio, encontravam em Mr. Richard Whitestone terreno ingrato para tal genero de cultura; não vingavam lá.

A chamar-se delicadeza a certos requebros de linguagem, a certas subtilezas de galanteios, a certos meneios, ares e olhares convencionaes, muito á moda nas salas e que variam com as épocas, hesitar-se-hia em conceder a Mr. Richard o nome de delicado.

A delicadeza que elle praticava não era de facto essa. Fazia-a consistir toda, a sua, nos sentimentos e nas acções inspiradas pelos eternos e invariaveis dictames da consciencia e da razão, superiores portanto ás fluctuações caprichosas da moda. Era uma delicadeza natural.

Verdadeiro inglez da velha Inglaterra, sincero, franco, ás vezes rude, mas nunca mesquinho e vil, podia tomar-se por uma vigorosa personificação do typico John Bull.

Alheio e pouco propenso á metaphysica, não o namoravam as transcendentes questões de philosophia, que preoccupam doentiamente as intelligencias da época; todo votado á contemplação da face positiva da vida, se não se arroubava, como os exaltados optimistas, a considerar nos destinos futuros da humanidade, evitava tambem o estorcer-se nas garras do demonio da hypocondria, como se estorcem tantos, a quem prolongadas meditações sobre os males que perseguem o homem acabam por envenenar o pensamento.

Possuia em compensação Mr. Richard, e em alto grau, para luctar contra as occorrentes resistencias da vida effectiva, aquella qualidade de espirito, que, segundo Sterne, se diz obstinação nas más applicações e perseverança nas boas.

Outra apreciavel disposição de animo caracterisava ainda o nosso commerciante:—era a de não ser sujeito a longas mortificações, ou pelo menos—e com mais rigor talvez—a de não as manifestar nos gestos ou por quaesquer signaes exteriores.

Dir-se-hia, a julgal-o pelas apparencias, que espessa camada de estoicismo lhe encrustára o coração, libertando-o da influencia dos estimulos, que mais dolorosamente costumam commover essa viscera de tão numerosas sympathias.

N'este mundo, ao qual os Heraclitos dos seculos christãos grangearam o titulo lutuoso e elegiaco de Valle de lagrimas, não sabia successo possivel, catastrophe realisavel, com força de alterar por muito tempo a costumada expressão physionomica de Mr. Richard, de lhe desbotar sequer o colorido vigoroso, ou,—como julgo se lhe chama em linguagem technica,—o colorido quente, do qual lhe vinha ao gesto certo ar de satisfação, despertador das mais justificadas invejas.

Nos typos inglezes, que as ondas do oceano arrojam todos os dias ás nossas praias, é este phenomeno mais vulgar do que porventura se pensa.

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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto von Júlio Dinis. Der Text ist in den USA gemeinfrei, digitalisiert von den Freiwilligen von Project Gutenberg. Wir liefern ihn aus unserer eigenen Kopie aus.

Gesprochen von L.S.B.Seabra für LibriVox, ebenfalls gemeinfrei.

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