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Contos d'Aldeia

Alberto Leal Barradas Monteiro Braga

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COMPANHIA PORTUGUEZA EDITORA

PORTO—1916

ALBERTO BRAGA

CONTOS D'ALDEIA

PORTO COMPANHIA PORTUGUESA EDITORA 1916

A MINHAS IRMÃS

A GUERRA

Logo abaixo dos açudes, ficava de uma banda do rio a azenha do Euzebio moleiro, e da margem opposta, um pouco mais abaixo, a azenha do tio Anselmo.

Eram dous velhotes viuvos, de bons sessenta annos, e amigos desde creanças. Para contradicção do anexim popular, estes dois moleiros queriam-se como dois irmãos, a despeito de serem do mesmo officio.

Parece que o rio, n'aquelle sitio, era até mais pittoresco! Por detraz das azenhas descia a enfesta de uma cerrada deveza de carvalhos e sobreiros, com o atalho aberto ao meio, que era por onde seguiam os machos carregados com os taleigos da fornada. Mesmo á ourela havia alguns amieiros e choupos, que se debruçavam sobre o rio. As aguas cahidas nos açudes, vinham costeando uma gandara, escondiam-se em meio de um canavial, e surgiam depois mais limpidas até ás rodas do moinho, que as marulhavam e batiam constantemente.

No verão, quando a levada era minguada, os dois velhotes visitavam-se a miudo, atravessando destemidamente pelas poldras; mas, quando as chuvas do outomno principiavam a tornar o rio caudaloso, limitavam-se então a falar d'um lado para o outro. Era triste! Já tão velhotes! E depois dizia o Euzebio:

—Anselmo, fala mais alto, que te não oiço.

—O que é?—perguntava o outro, inclinando o pavilhão da orelha.

O Euzebio fazia um porta-voz com as mãos, e gritava:

—Não te intendo.

Quando chegavam a falar, concordavam sempre que era o barulho das rodas do moinho, que os não deixava ouvir. Isso sim! Era o peso dos annos que os tinha quasi surdos de todo. Pobres velhos!

O Euzebio tinha um filho, que era um rapagão de vinte e dois annos, como um castello! Ainda o dia vinha longe, já elle estava a trabalhar, que era um regalo a gente vel-o.

—Lida como um moiro!—diziam os conhecidos.

E se havia esfolhada, ou espadellada, quem lá não faltava era elle.

O pae, que, n'outros tempos, tinha sido um folião, dizia-lhe, á bôcca da noite:

—Simão, se tens de ir a algures, parte, que eu cá fico, para aviar os freguezes.

—Estava arranjado!—respondia o moço a rir.—Vocemecê já deu o que tinha a dar. Agora coma e beba, e deixe-me cá com a vida!

Primeiro que tudo estava a sua obrigação. O rapaz assim que não tinha mais freguezes a aviar, fechava a ucha do moinho, e partia então para a brincadeira.

E o velhote do pae, quando alguem lhe contava as diabruras do filho, parece que até a alma se lhe ria na menina dos olhos.

O Anselmo tinha uma filha. Chamava-se ella Margarida, e era formosa, d'aquella formusura campesinha, sem artificio, jovial e expansiva. Em dotes do coração—que é a principal belleza!—nem as mais virtuosas a excediam.

Desde pequenina foi Margarida creada com Simão. Se não ficasse mal estabelecer agora parallelos já sabidos e repetidos, estava em dizer que os dois se queriam e estimavam como Paulo e Virginia.

Quando os quinze annos de Margarida, que era mais nova dois do que Simão, vieram pôr termo aos brinquedos d'infancia, então principiou elle a olhal-a com aquelle respeito com que se olha para uma irmã mais velha.

Mas vá-se desde já sabendo que esse respeito não estorvava, antes acrysolava um outro sentimento, que principiava a exercer e a avultar no generoso coração do rapaz.

Margarida, quando Simão lhe falava na sua tristeza e no seu amor, fingia-se contrariada, carregava o sobr'olho e mudava de conversa. D'estas esquivanças repetidas ateou-se o fogo da paixão na alma do moleiro.

—Margarida—dizia-lhe elle d'uma vez—se não quizeres casar comigo, hei de morrer solteiro.

—Não te faltam mulheres, Simão.

—E se te vejo ser d'outro—protestava o rapaz com as lagrimas nos olhos—não sei que faça, que me não mate.

E Margarida era tão cruel, que assim despresasse o seu amigo e companheiro d'infancia?!

Nós veremos já até onde vae a dedicação de uma mulher.

* * * * *

Isto passava-se no tempo em que se guerreavam os partidos de D. Pedro e de D. Miguel.

Quando ás aldeias chegavam noticias aterradoras, as mães estremeciam ao contemplar os filhos afadigados na lavoura.

—De mortos nem a conta se sabe!—diziam os mensageiros. Vae por ahi a fim do mundo!

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