tale.fyi

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Inhalt
  1. AO LEITOR
  2. CAPITULO I
  3. Obito do autor
  4. CAPITULO II
  5. O emplasto
  6. CAPITULO III
  7. Genealogia
  8. CAPITULO IV
  9. A idéa fixa
  10. CAPITULO V
  11. Em que apparece a orelha de uma senhora
  12. CAPITULO VI
  13. Chimène, qui l'eut dit?—Rodrigue, qui l'eut cru?
  14. CAPITULO VII
  15. O delirio
  16. CAPITULO VIII
  17. Razão contra Sandice
  18. CAPITULO IX
  19. Transição
  20. CAPITULO X
  21. Naquelle dia...
  22. CAPITULO XI
  23. O menino é pai do homen.
  24. CAPITULO XII
  25. Um episodio de 1814
  26. CAPITULO XIII
  27. Um salto
  28. CAPITULO XIV
  29. O primeiro beijo
  30. CAPITULO XV
  31. Marcella
  32. CAPITULO XVI
  33. Uma reflexão immoral
  34. CAPITULO XVII
  35. Do trapezio e outras cousas
  36. CAPITULO XVIII
  37. Visão do corredor
  38. CAPITULO XIX
  39. A bordo
  40. CAPITULO XX
  41. Bacharelo-me
  42. CAPITULO XXI
  43. O almocreve
  44. CAPITULO XXII
  45. Volta ao Rio
  46. CAPITULO XXIII
  47. Triste, mas curto
  48. CAPITULO XXIV
  49. Curto, mas alegre
  50. CAPITULO XXV
  51. Na Tijuca
  52. CAPITULO XXVI
  53. O autor hesita
  54. CAPITULO XXVII
  55. Virgilia?
  56. CAPITULO XXVIII
  57. Contanto que...
  58. CAPITULO XXIX
  59. A visita
  60. CAPITULO XXX
  61. A flor da moita
  62. CAPITULO XXXI
  63. A borboleta preta
  64. CAPITULO XXXII
  65. Coxa de nascença
  66. CAPITULO XXXIII
  67. Bemaventurados os que não descem
  68. CAPITULO XXXIV
  69. A uma alma sensivel
  70. CAPITULO XXXV
  71. O caminho de damasco
  72. CAPITULO XXXVI
  73. A proposito de botas
  74. CAPITULO XXXVII
  75. Emfim
  76. CAPITULO XXXVIII
  77. A quarta edição
  78. CAPITULO XXXIX
  79. O visinho
  80. CAPITULO XL
  81. Na sege
  82. CAPITULO XLI
  83. A allucinação
  84. CAPITULO XLII
  85. Que escapou a Aristoteles
  86. CAPITULO XLIII
  87. Marqueza, porque eu serei marquez
  88. CAPITULO XLIV
  89. Um Cubas!
  90. CAPITULO XLV
  91. Notas
  92. CAPITULO XLVI
  93. A herança
  94. CAPITULO XLVII
  95. O recluso
  96. CAPITULO XLVIII
  97. Um primo de Virgilia
  98. CAPITULO XLIX
  99. A ponta do nariz
  100. CAPITULO L
  101. Virgilia casada
  102. CAPITULO LI
  103. É minha!
  104. CAPITULO LII
  105. O embrulho mysterioso
  106. CAPITULO LIII
  107. ..........
  108. CAPITULO LIV
  109. A pendula
  110. CAPITULO LV
  111. O velho dialogo de Adão e Eva
  112. CAPITULO LVI
  113. O momento opportuno
  114. CAPITULO LVII
  115. Destino
  116. CAPITULO LVIII
  117. Confidencia
  118. CAPITULO LIX
  119. Um encontro
  120. CAPITULO LX
  121. O abraço
  122. CAPITULO LXI
  123. Um projecto
  124. CAPITULO LXII
  125. O travesseiro
  126. CAPITULO LXIII
  127. Fujamos!
  128. CAPITULO LXIV
  129. A transacção
  130. CAPITULO LXV
  131. Olheiros e escutas
  132. CAPITULO LXVI
  133. As pernas
  134. CAPITULO LXVII
  135. A casinha
  136. CAPITULO LXVIII
  137. O vergalho
  138. CAPITULO LXIX
  139. Um grão de sandice
  140. CAPITULO LXX
  141. D. Placida
  142. CAPITULO LXXI
  143. O senão do livro
  144. CAPITULO LXXII
  145. O bibliomano
  146. CAPITULO LXXIII
  147. O lunch
  148. CAPITULO LXXIV
  149. Historia de D. Placida
  150. CAPITULO LXXV
  151. Commigo
  152. CAPITULO LXXVI
  153. O estrume
  154. CAPITULO LXXVII
  155. Entrevista
  156. CAPITULO LXXVIII
  157. A presidencia
  158. CAPITULO LXXIX
  159. Compromisso de gato
  160. CAPITULO LXXX
  161. Do secretario
  162. CAPITULO LXXXI
  163. A reconciliação
  164. CAPITULO LXXXII
  165. Questão de botanica
  166. CAPITULO LXXXIII
  167. 13
  168. CAPITULO LXXXIV
  169. O conflicto
  170. CAPITULO LXXXV
  171. O cimo da montanha
  172. CAPITULO LXXXVI
  173. O mysterio
  174. CAPITULO LXXXVII
  175. Geologia
  176. CAPITULO LXXXVIII
  177. O enfermo
  178. CAPITULO LXXXIX
  179. In extremis
  180. CAPITULO XC
  181. O velho colloquio de Adão e Caim
  182. CAPITULO XCI
  183. Uma carta extraordinaria
  184. CAPITULO XCII
  185. Um homem extraordinario
  186. CAPITULO XCIII
  187. O jantar
  188. CAPITULO XCIV
  189. A causa secreta
  190. CAPITULO XCV
  191. Flores de antanho
  192. CAPITULO XCVI
  193. A carta anonyma
  194. CAPITULO XCVII
  195. Entre a boca e a testa
  196. CAPITULO XCVIII
  197. Supprimido
  198. CAPITULO XCIX
  199. Na platéa
  200. CAPITULO C
  201. O caso provavel
  202. CAPITULO CI
  203. A revolução dalmata
  204. CAPITULO CII
  205. De repouso
  206. CAPITULO CIII
  207. Distracção
  208. CAPITULO CIV
  209. Era elle!
  210. CAPITULO CV
  211. Equivalencia das janellas
  212. CAPITULO CVI
  213. Jogo perigoso
  214. CAPITULO CVII
  215. Bilhete
  216. CAPITULO CVIII
  217. Que se não entende
  218. CAPITULO CIX
  219. O philosopho
  220. CAPITULO CX
  221. 31
  222. CAPITULO CXI
  223. O muro
  224. CAPITULO CXII
  225. A opinião
  226. CAPITULO CXIII
  227. A solda
  228. CAPITULO CXIV
  229. Fim de um dialogo
  230. CAPITULO CXV
  231. O almoço
  232. CAPITULO CXVI
  233. Philosophia das folhas velhas
  234. CAPITULO CXVII
  235. O Humanitismo
  236. CAPITULO CXVIII
  237. A terceira força
  238. CAPITULO CXIX
  239. Parenthesis
  240. CAPITULO CXX
  241. Compelle intrare
  242. CAPITULO CXXI
  243. Morro abaixo
  244. CAPITULO CXXII
  245. Uma intenção mui fina
  246. CAPITULO CXXIII
  247. O verdadeiro Cotrim
  248. CAPIULO CXXIV
  249. Vá de intermedio
  250. CAPITULO CXXV
  251. Epitaphio
  252. CAPITULO CXXVI
  253. Desconsolação
  254. CAPITULO CXXVII
  255. Formalidade
  256. CAPITULO CXXVIII
  257. Na camara
  258. CAPITULO CXXIX
  259. Sem remorsos
  260. CAPITULO CXXX
  261. Para intercalar no cap. CXXIX
  262. CAPITULO CXXXI
  263. De uma calumnia
  264. CAPITULO CXXXII
  265. Que não é serio
  266. CAPITULO CXXXIII
  267. O principio de Helvetius
  268. CAPITULO CXXXIV
  269. Cincoenta annos
  270. CAPITULO CXXXV
  271. Oblivion
  272. CAPITULO CXXXVI
  273. Inutilidade
  274. CAPITULO CXXXVII
  275. A barretina
  276. CAPITULO CXXXVIII
  277. A um Critico
  278. CAPITULO CXXXIX
  279. De como não fui ministro de estado
  280. CAPITULO CXL
  281. Que explica o anterior
  282. CAPITULO CXLI
  283. Os cães
  284. CAPITULO CXLII
  285. O pedido secreto
  286. CAPITULO CXLIII
  287. Não vou
  288. CAPITULO CXLIV
  289. Utilidade relativa
  290. CAPITULO CXLV
  291. Simples repetição
  292. CAPITULO CXLVI
  293. O programma
  294. CAPITULO CXLVII
  295. O desatino
  296. CAPITULO CXLVIII
  297. O problema insoluvel
  298. CAPITULO CXLIX
  299. Theoria do beneficio
  300. CAPITULO CL
  301. Rotação e translação
  302. CAPITULO CLI
  303. Philosophia dos epitaphios
  304. CAPITULO CLII
  305. A moeda do Vespasiano
  306. CAPÍTULO CLIII
  307. O alienista
  308. CAPITULO CLIV
  309. Os navios do Pireu
  310. CAPITULO CLV
  311. Reflexão cordial
  312. CAPITULO CLVI
  313. CAPITULO CLVII
  314. Phase brilhante
  315. CAPITULO CLVIII
  316. Dous encontros
  317. CAPITULO CLIX
  318. A semi-demencia
  319. CAPITULO CLX
  320. Das negativas
  321. FIM
  322. ÍNDICE
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Memorias Posthumas de Braz Cubas

Machado de Assis

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Memorias Posthumas de Braz Cubas
Helena, romance
Yayá Garcia, romance
Resurreição, romance
A mão e a luva, romance
Historias da meia noite
Contos Fluminenses
Americanas, poesias
Phalenas, poesias
Chrysalidas, poesias
Tu só, tu, puro amor, comédia
Os deuses de casaca, comédia
Desencantos, comédia
Theatro


AO LEITOR

Que, no alto do principal de seus livros, confessasse Stendhal havel-o escripto para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cincoenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra diffusa, na qual eu, Braz Cubas, se adoptei a fórma livre de um Sterne, de um Lamb, ou de um de Maistre, não sei se lhe metti algumas rabugens de pessimismo. Póde ser. Obra de finado. Escrevi-a com a penna da galhofa e a tinta da melancholia; e não é difficil antever o que poderá sair desse connubio. Accresce que a gente grave achará no livro umas apparencias de puro romance, ao passo que a gente frivola não achará nelle o seu romance usual; e eil-o ahi fica privado da estima dos graves e do amor dos frivolos, que são as duas columnas maximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as sympatias da opinião, e o meio efficaz para isso é fugir a um prologo explicito e longo. O melhor prologo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um geito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinario que empreguei na composição destas Memorias, trabalhadas cá no outro seculo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessario ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Braz Cubas.


AO VERME

QUE

PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES

DO MEU CADAVER

DEDICO

COMO SAUDOSA LEMBRANÇA

ESTAS

MEMORIAS POSTHUMAS


CAPITULO I

Obito do autor

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memorias pelo principio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro logar o meu nascimento ou a minha morte. Supposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adoptar differente methodo: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escripto ficaria assim mais galante e mais novo. Moysés, que tambem contou a sua morte, não a poz no introito, mas no cabo: differença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei ás duas horas da tarde de uma sexta feira do mez de agosto de 1869, na minha bella chacara de Catumby. Tinha uns sessenta e quatro annos, rijos e prosperos, era solteiro, possuia cerca de tresentos contos e fui acompanhado ao cemiterio por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem annuncios. Accresce que chovia—peneirava—uma chuvinha miuda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daquelles fieis da ultima hora a intercalar esta engenhosa idéa no discurso que proferiu á beira de minha cova:—«Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer commigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparavel de um dos mais bellos caracteres que tem honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do ceu, aquellas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funereo, tudo isso é a dor crua e má que lhe róe á natureza as mais intimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso illustre finado.»

Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apolices que lhe deixei. E foi assim que cheguei á clausula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ancias nem as duvidas do moço principe, mas pausado e tropego, como quem se retira tarde do expectaculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez pessoas, entre ellas tres senhoras,—minha irmã Sabina, casada com o Cotrim,—a filha, um lyrio do valle,—e... Tenham paciencia! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora. Contentem-se de saber que essa anonyma, ainda que não parenta, padeceu mais do que as parentas. É verdade, padeceu mais. Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, epileptica. Nem o meu obito era cousa altamente dramatica... Um solteirão que expira aos sessenta e quatro annos, não parece que reuna em si todos os elementos de uma tragedia. E dado que sim, o que menos convinha a essa anonyma era apparental-o. De pé, á cabeceira da cama, com os olhos estúpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia crêr na minha extincção.

—Morto! morto! dizia comsigo.

E a imaginação della, como as cegonhas que um illustre viajante viu desferirem o vôo desde o Illysso ás ribas africanas, sem embargo das ruinas e dos tempos,—a imaginação dessa senhora tambem voou por sobre os destroços presentes até ás ribas de uma Africa juvenil... Deixal-a ir; lá iremos mais tarde; lá iremos quando eu me restituir aos primeiros annos. Agora, quero morrer tranquillamente, methodicamente, ouvindo os soluços das damas, as fallas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chacara, e o som estridulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fóra, á porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orchestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer; e de certo ponto em deante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns impetos de vaga marinha, esvaia-se-me a consciencia, eu descia á immobilidade physica e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma.

Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéa grandiosa e util, a causa da minha morte, é possivel que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe summariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.


CAPITULO II

O emplasto

Com effeito, um dia de manhã, estando a passear na chacara, pendurou-se-me uma idéa no trapezio que eu tinha no cerebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volantim, que é possivel crer. Eu deixei-me estar a contemplal-a. Subito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a fórma de um X: decifra-me ou devoro-te.

Essa idéa era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hypocondriaco, destinado a alliviar a nossa melancholica humanidade. Na petição de privilegio que então redigi, chamei a attenção do governo para esse resultado, verdadeiramente christão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniarias que deviam resultar da distribuição de um producto de tamanhos e tão profundos effeitos, Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornaes, mostradores, folhetos, esquinas, e emfim nas caixinhas do remedio, estas tres palavras: emplasto Braz Cubas. Para que negal-o? Eu tinha a paixão do arruido, do cartaz, do foguete de lagrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio porém que esse talento me hão de reconhecer os habeis; e eu era habil. Assim, a minha idéa trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o publico, outra para mim. De um lado, philanthropia e lucro; de outro lado, sêde de nomeada. Digamos:—amor da gloria.

Um tio meu, conego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da gloria temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a gloria eterna. Ao que retorquia outro tio, official de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da gloria era a cousa mais verdadeiramente humana que ha no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuina feição.

Decida o leitor entre o militar e o conego; eu volto ao emplasto.


CAPITULO III

Genealogia

Mas, já que fallei nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto esboço genealogico.

O fundador da minha familia foi um certo Damião Cubas, que floreceu na primeira metade do seculo XVIII. Era tanoeiro de officio, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na penuria e na obscuridade, se sómente exercesse a tanoaria. Mas não; fez-se lavrador, plantou, colheu, permutou o seu producto por boas e honradas patacas, até que morreu, deixando grosso cabedal a um filho, o licenciado Luiz Cubas. Neste rapaz é que verdadeiramente começa a serie de meus avós—dos avós que a minha familia sempre confessou—, porque o Damião Cubas era afinal de contas um tanoeiro, e talvez mau tanoeiro, ao passo que o Luiz Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos particulares do vice-rei conde da Cunha.

Como este appellido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, allegava meu pae, bisneto do Damião, que o dito appellido fôra dado a um cavalleiro, heroe nas jornadas da Africa, em premio da façanha que praticou, arrebatando tresentas cubas aos mouros. Meu pae era homem de imaginação; escapou á tanoaria nas azas de um calembour. Era um bom caracter meu pae, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns fumos de pacholice; mas quem não é um pouco pachola nesse mundo? Releva notar que elle não recorreu á inventiva, senão depois de experimentar a falsificação; primeiramente, entroncou-se na familia daquelle meu famoso homonymo, o capitão-mór Braz Cubas, que fundou a villa de S. Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de Braz. Oppoz-se-lhe porém a familia do capitão-mór; e foi então que elle imaginou as tresentas cubas mouriscas.

Vivem ainda alguns membros de minha familia, minha sobrinha Venancia, por exemplo, o lyrio do valle, que é a flor das damas do seu tempo; vive o pae, o Cotrim, um sujeito que... Mas não anticipemos os successos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto.


CAPITULO IV

A idéa fixa

A minha idéa, depois de tantas cabriolas, constituira-se idéa fixa. Deus te livre, leitor, de uma idéa fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho. Vê o Cavour; foi a idéa fixa da unidade italiana que o matou. Verdade é que o Bismark não morreu; mas, cumpre advertir que a natureza é uma grande caprichosa e a historia uma eterna loureira. Por exemplo, o Suetonio deu-nos um Claudio, que era um verdadeiro banana,—ou «uma abobora» como lhe chamou Seneca, e um Tito, que mereceu ser as delicias de Roma. Veiu modernamente um professor e achou meio de demonstrar que ambos esses conceitos eram erroneos e abstrusos, e que dos dous cesares, o delicioso, o verdadeiramente delicioso, foi o «abobora» de Seneca. E tu, madama Lucrecia, flor dos Borgias, se um poeta te pintou como a Messalina catholica, appareceu um Gregorovius incredulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a lyrio, tambem não ficaste pantano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o sabio.

Viva pois a historia, a voluvel historia que dá para tudo; e, tornando á idéa fixa, direi que é ella a que faz os varões fortes e os doudos; a idéa mobil, vaga ou furta-cor é a que faz os Claudios,—formula Suetonio.

Era fixa a minha idéa, fixa como... Não me occorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pyramides do Egypto, talvez a finada dieta germanica. Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja dahi a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegámos á parte narrativa destas memorias. Lá iremos. Creio que prefere a anecdota á reflexão, como os outros leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que este livro é escripto com pachorra, com a pachorra de um homem já desaffrontado da brevidade do seculo, obra supinamente philosophica, de uma philosophia desegual, agora austera, logo brincalhona, cousa que não edifica nem destróe, não inflamma nem regéla, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado.

Vamos lá; rectifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a historia com os seus caprichos de dama elegante. Nenhum de nós pelejou a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confissão do Augsburgo; pela minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é só pela idéa de que Sua Alteza, com a mesma mão que trancara o parlamento, teria imposto aos inglezes o emplasto Braz Cubas. Não se riam dessa victoria commum da pharmacia e do puritanismo. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, publica, ostensiva, ha muitas vezes varias outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteam e fluctuam á sombra daquella, com ella cahem, e não poucas vezes lhe sobrelevam? Mal comparando, é como a arraia-miuda, que se acolhia á sombra do castello-feudal; cahiu este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castellã... Não, a comparação não presta.


CAPITULO V

Em que apparece a orelha de uma senhora

Vae se não quando, estando eu occupado em preparar e apurar a minha invenção, recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me tratei. Tinha o emplasto no cerebro; trazia commigo a idéa fixa dos doudos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do chão das turbas, e remontar ao ceu, como uma aguia immortal; e não é deante de tão excelso expectaculo que um homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia estava peor; tratei-me emfim, mas incompletamente, sem methodo, nem cuidado, nem persistencia; tal foi a origem do mal que me trouxe á eternidade. Sabem ja que morri n'uma sexta feira, dia aziago, e creio haver provado que foi a minha invenção que me matou. Ha demonstrações menos lucidas e não menos triumphantes.

Não era impossivel, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um seculo, e a figurar nas folhas publicas, entre macrobios. Tinha saude e robustez. Supponha-se que, em vez de estar lançando os alicerces de uma invenção pharmaceutica, tratava de colligir os elementos de uma instituição politica, ou de uma reforma religiosa. Vinha a corrente do ar, que vence, em efficacia, o calculo humano, e lá se ia tudo. Um sopro de ar foi portanto o meu grão de arêa de Cromwell. Assim corre a sorte dos homens.

Com esta reflexão me despedi eu da mulher, não direi mais discreta, mas com certeza mais formosa entre as contemporaneas suas, a anonyma do primeiro capitulo, a tal, cuja imaginação á semelhança das cegonhas do Illysso... Tinha então 54 annos, era uma ruina, uma imponente ruina. Imagine o leitor que nos amámos, ella e eu, muitos annos antes, e que um dia, já enfermo, vejo-a assomar á porta da alcova...


CAPITULO VI

Chimène, qui l'eut dit?—Rodrigue, qui l'eut cru?

Vejo-a assomar á porta da alcova, pallida, commovida, trajada de preto, e alli ficar durante uns dez segundos, sem animo de entrar, ou detida pela presença de um homem que estava commigo. Da cama, onde jazia, contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada ou de fazer nenhum gesto. Havia já dous annos que nos não viamos; e eu via-a agora não qual era, mas qual fôra, quaes foramos ambos, porque um Ezechias mysterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis. Recuou o sol, sacudi todas as miserias; e este punhado de pó, que a morte ia espalhar na eternidade do nada, pôde mais do que tempo, que é o ministro da morte. Nenhuma agua de Juventa egualaria alli a simples saudade.

Cream-me, o menos mau é recordar; ninguem se fie da felicidade presente; ha nella uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se póde gozar deveras, porque entre uma e outra dessas duas illusões, melhor é a que se gosta, sem doer.

Não durou muito a evocação; a realidade dominou logo; o presente expelliu o passado. Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste livro, a minha theoria das edições humanas. O que por agora importa saber é que Virgilia—chamava-se Virgilia—entrou na alcova, firme, com a gravidade que lhe davam as roupas e os annos, e veiu até o meu leito. O extranho levantou-se e sahiu. Era um sujeito, que me visitava todos os dias para fallar do cambio, da colonisação e da necessidade de desenvolver a viação ferrea; nada mais interessante para um moribundo. Saiu; Virgilia deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dous grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia alli, vinte annos depois; havia apenas dous corações murchos, devastados pela vida e saciados della, não sei se em egual dóse, mas emfim saciados. Virgilia tinha agora a belleza da velhice, um ar austero e maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela ultima vez, n'uma festa de S. João, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, só agora começavam os cabellos escuros a intercalar-se de alguns fios de prata.

—Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu.—Ora, defuntos! respondeu Virgilia com um muxoxo. E depois de me apertar as mãos:—Ando a ver se ponho os vadios para a rua.

Não tinha a caricia lacrymosa de outro tempo; mas a voz era amiga e doce. Sentou-se. Eu estava só, em casa, com um simples enfermeiro; podiamos fallar um ao outro, sem perigo. Virgilia deu-me longas noticias de fóra, narrando-as com graça, com um certo travo de má lingua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer satanico em mofar delle, em persuadir-me que não deixava nada.

—Que idéas essas! interrompeu-me Virgilia um tanto zangada. Olhe que eu não volto mais. Morrer! Todos nós havemos de morrer; basta estarmos vivos.

E vendo o relogio:

—Jesus! são tres horas. Vou-me embora.

—Já?

—Já; virei amanhã ou depois.

—Não sei se faz bem, retorqui; o doente é um solteirão e a casa não tem senhoras...

—Sua mana?

—Ha de vir cá passar uns dias, mas não póde ser antes de sabbado.

Virgilia reflectiu um instante, levantou os hombros e disse com gravidade:

—Estou velha! Ninguem mais repara em mim. Mas, para cortar duvidas, virei com o Nhonhô.

Nhonhô era um bacharel, unico filho de seu casamento, que, na edade de cinco annos, fôra complice inconsciente de nossos amores. Vieram juntos, dous dias depois; e confesso que, ao vel-os alli, na minha alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permittiu corresponder logo ás palavras affaveis do rapaz. Virgilia adivinhou-mo e disse ao filho:

—Nhonhô, não repares nosso grande manhoso que ahi está; não quer fallar para fazer crer que está á morte.

Sorriu o filho; eu creio quo tambem sorri; e tudo acabou em pura galhofa. Virgilia estava serena e risonha, tinha o aspecto das vidas immaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse denunciar nada; uma egualdade de palavra e de espirito, uma dominação sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocassemos, casualmente, n'uns amores illegitimos, meio secretos, meio divulgados, vi-a fallar com desdem e um pouco de indignação da mulher de que se tratava, aliás sua amiga; e o filho sentia-se satisfeito, ouvindo aquella palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião...

Era o meu delirio que começava.


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enthalten in

  • Before Magical Realism
  • Books That Play with the Book
  • Em português

—

danke fürs Lesen

Memorias Posthumas de Braz Cubas von Machado de Assis. Der Text ist in den USA gemeinfrei, digitalisiert von den Freiwilligen von Project Gutenberg. Wir liefern ihn aus unserer eigenen Kopie aus.

Gesprochen von Leni für LibriVox, ebenfalls gemeinfrei.

tale.fyi