tale.fyi

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Inhalt
  1. CHRYSALIDAS, PHALENAS
  2. AMERICANAS, OCCIDENTAES
  3. H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
  4. 71-73, RUA DO OUVIDOR, 71-73
  5. RIO DE JANEIRO
  6. 6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6
  7. PARIS
  8. 1901
  9. ADVERTÊNCIA
  10. CHRYSALIDAS
  11. 1864
  12. MUSA CONSOLATRIX
  13. VISIO
  14. QUINZE ANNOS
  15. STELLA
  16. EPITAPHIO DO MEXICO
  17. POLONIA
  18. ERRO
  19. ELEGIA
  20. SINHÁ
  21. HORAS VIVAS
  22. VERSOS A CORINNA
  23. I
  24. II
  25. III
  26. IV
  27. AS BRISAS
  28. A LUZ
  29. AS AGUAS
  30. AS SELVAS
  31. O POETA
  32. V
  33. VI
  34. ULTIMA FOLHA
  35. PHALENAS
  36. (1870)
  37. FLOR DA MOCIDADE[1]
  38. QUANDO ELLA FALLA
  39. MANHÃ DE INVERNO
  40. LA MARCHESA DE MIRAMAR[2]
  41. SOMBRAS
  42. ITE, MISSA EST
  43. RUINAS
  44. MUSA DOS OLHOS VERDES
  45. NOIVADO
  46. A ELVIRA
  47. (LAMARTINE)
  48. LAGRIMAS DE CÊRA
  49. LIVROS E FLORES
  50. PASSAROS
  51. O VERME
  52. UN VIEUX PAYS[3]
  53. LUZ ENTRE SOMBRAS
  54. LYRA CHINEZA[4]
  55. I
  56. O POETA A RIR
  57. (Han-Tiê.)
  58. II
  59. A UMA MULHER
  60. (Tchê-Tsi.)
  61. III
  62. O IMPERADOR
  63. (Tchu-Fu)
  64. IV
  65. O LEQUE
  66. (Tan-Jo-Lu.)
  67. V
  68. A FOLHA DO SALGUEIRO
  69. (Tchan-Tiú-Lin.)
  70. VI
  71. AS FLORES E OS PINHEIROS
  72. (Tin-Tun-Sing.)
  73. VII
  74. REFLEXOS
  75. (Thu-Fu.)
  76. VIII
  77. CORAÇÃO TRISTE FALLANDO AO SOL
  78. (Su-Tebon.)
  79. UMA ODE DE ANACREONTE
  80. (A MANUEL DE MELLO)
  81. PALLIDA ELVIRA
  82. (A FRANCISCO PAZ)
  83. I
  84. II
  85. III
  86. IV
  87. V
  88. VI
  89. VII
  90. VIII
  91. IX
  92. X
  93. XI
  94. XII
  95. XIII
  96. XIV
  97. XV
  98. XVI
  99. XVII
  100. XVIII
  101. XIX
  102. XX
  103. XXI
  104. XXII
  105. XXIII
  106. XXIV
  107. XXV
  108. XXVI
  109. XXVII
  110. XXVIII
  111. XXIX
  112. XXX
  113. XXXI
  114. XXXII
  115. XXXIII
  116. XXXIV
  117. XXXV
  118. XXXVI
  119. XXXVII
  120. XXXVIII
  121. XXXIX
  122. XL
  123. XLI
  124. XLII
  125. XLIII
  126. XLIV
  127. XLV
  128. XLVI
  129. XLVII
  130. XLVIII
  131. XLIX
  132. L
  133. LI
  134. LII
  135. LIII
  136. LIV
  137. LV
  138. LVI
  139. LVII
  140. LVIII
  141. LIX
  142. LX
  143. LXI
  144. LXII
  145. LXIII
  146. LXIV
  147. LXV
  148. LXVI
  149. LXVII
  150. LXVIII
  151. LXIX
  152. LXX
  153. LXXI
  154. LXXII
  155. LXXIII
  156. LXXIV
  157. LXXV
  158. LXXVI
  159. LXXVII
  160. LXXVIII
  161. LXXIX
  162. LXXX
  163. LXXXI
  164. LXXXII
  165. LXXXIII
  166. LXXXIV
  167. LXXXV
  168. LXXXVI
  169. LXXXVII
  170. LXXXVIII
  171. LXXXIX
  172. XC
  173. XCI
  174. XCII
  175. XCIII
  176. XCIV
  177. XCV
  178. XCVI
  179. XCVII
  180. AMERICANAS
  181. (1875)
  182. POTYRA[6]
  183. I
  184. II
  185. III
  186. IV
  187. V
  188. VI
  189. VII
  190. VIII
  191. IX
  192. X
  193. XI
  194. XII
  195. XIII
  196. XIV
  197. XV
  198. XVI
  199. NIANI
  200. (HISTORIA GUAYCURU)
  201. I
  202. II
  203. III
  204. IV
  205. V
  206. A CHRISTÃ NOVA
  207. PARTE I
  208. I
  209. II
  210. III
  211. IV
  212. V
  213. VI
  214. VII
  215. VIII
  216. IX
  217. PARTE II
  218. I
  219. II
  220. III
  221. IV
  222. V
  223. VI
  224. VII
  225. VIII
  226. IX
  227. X
  228. XI
  229. XII
  230. XIII
  231. XIV
  232. XV
  233. XVI
  234. XVII
  235. XVIII
  236. XIX
  237. JOSÉ BONIFÁCIO
  238. A VISÃO DE JACIUCA
  239. A GONÇALVES DIAS
  240. OS SEMEADORES[25]
  241. (Século XVI)
  242. A FLOR DO EMBIROÇU
  243. LUA NOVA[26]
  244. SABINA
  245. ULTIMA JORNADA[27]
  246. I
  247. II
  248. OS ORISES[28]
  249. (Fragmento)
  250. I
  251. II
  252. III
  253. IV
  254. V
  255. OCCIDENTAES
  256. O DESFECHO
  257. CIRCULO VICIOSO
  258. UMA CREATURA
  259. A ARTHUR DE OLIVEIRA, Enfermo
  260. MUNDO INTERIOR
  261. O CORVO
  262. (EDGAR POE)
  263. PERGUNTAS SEM RESPOSTA
  264. TO BE OR NOT TO BE
  265. (SHAKESPEARE)
  266. LINDOYA
  267. SUAVE MARI MAGNO
  268. A MOSCA AZUL
  269. ANTONIO JOSE
  270. (21 DE OUTUBRO DE 1739)
  271. SPINOZA
  272. GONÇALVES CRESPO
  273. ALENCAR
  274. CAMÕES
  275. I
  276. II
  277. III
  278. IV
  279. 1802-1835
  280. JOSÉ DE ANCHIETA
  281. SONETO DE NATAL
  282. OS ANIMAIS ISCADOS DA PESTE
  283. (LA FONTAINE)
  284. DANTE
  285. (PURGATORIO, canto XXV)
  286. A FELICIO DOS SANTOS
  287. MARIA
  288. A UMA SENHORA QUE ME PEDIU VERSOS
  289. CLODIA
  290. VELHO FRAGMENTO
  291. I
  292. II
  293. III
  294. IV
  295. V
  296. VI
  297. VII
  298. VIII
  299. NO ALTO
  300. NOTAS
  301. INDICE
  302. CHRYSALIDAS
  303. PHALENAS
  304. AMERICANAS
  305. OCCIDENTAES
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Poesias Completas

Machado de Assis

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CHRYSALIDAS, PHALENAS

AMERICANAS, OCCIDENTAES

H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR

71-73, RUA DO OUVIDOR, 71-73
RIO DE JANEIRO
6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6
PARIS
1901

ADVERTÊNCIA

Podia dizer, sem mentir, que me pediram a reunião de versos que andavam esparsos; mas, a verdade anterior è que era minha intenção dal-os um dia. Ao cuidar disto agora achei que seria melhor ligar o novo livro aos ires publicados, Chrysalidas, Phalonas, Americanas. Chamo ao ultimo Occidentaes.

Não direi de uns e de outros versos senão que os fiz com amor, e dos primeiros que os reli com saudades. Supprimo da primeira série algumas paginas; as restantes bastam para notar a differença de edade e de composição. Supprimo tambem o prefacio de Caetano Filgueiras, que referiu as nossas reuniões diarias, quando já elle era advogado e casado, e nós outros apenas moços e adolescentes; menino chama-me elle. Todos se foram para a morte, ainda na flôr da edade, e, excepto o nome de Casimiro de Abreu, nenhum se salvou.

Não deixo esse prefacio, porque a affeição do meu difunto amigo a tal extremo lhe cegára o juizo que não viria a ponto reproduzir aqui aquella saudação inicial. A recordação só teria valor para mim. Baste aos curiosos o encontro casual das datas, a daquelle, 22 de Julho de 1864, e a deste.

Rio, 22 de Julho do 1900.

MACHADO DE ASSIS.


CHRYSALIDAS

1864

MUSA CONSOLATRIX

Que a mão do tempo e o halito dos homens
Murchem a flôr das illusões da vida,
Musa consoladora,
E no teu seio amigo e socegado
Que o poeta respira o suave somno.

Não ha, não ha comtigo.
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De intima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flôr cheirosa,
Que vales tu, desillusão dos homens?
Tu que pódes, ó tempo.
A alma triste do poeta sobrenada
Á enchente das angustias,
E, affrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcyone divina.

Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A ultima illusão cair, bem como
Folha amarella e secca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me,—e haverá minha alma afflicta,
Em vez de algumas illusões que teve,
A paz, o ultimo bem, ultimo e puro!


VISIO

Eras pallida. E os cabellos,
Aereos, soltos novellos,
Sobre as espaduas as cahiam...
Os olhos meio-cerrados
De volupia e de ternura
Entre lagrimas luziam...
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiam...

Depois, naquelle delirio,
Suave, doce martyrio
De pouquissimos instantes,
Os teus labios sequiosos,
Frios, tremulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes...

Depois... depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquelle sonho desperto,
Olhei... silencio de morte
Respirava a natureza—
Era a terra, era o deserto,
Fôra-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira:
Tu e o teu olhar ardente,
Labios tremulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e vehemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a phantasia doente.

E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquelle sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indifferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a visão do passado.

Foi, sim, mas visão apenas;
Daquellas visões amenas
Que á mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes;
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raizes.

Inda assim, embora sonho,
Mas, sonho doce e risonho,
Désse-me Deus que fingida
Tivesse aquella ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora.
Chorára de agradecida!


QUINZE ANNOS

Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fanée,
Insouciant enfant, belle Eve bus blonds cheveux?

ALFRED DE MUSSET

Era uma pobre criança...
—Pobre criança, se o eras!—
Entre as quinze primaveras
De sua vida cançada
Nem uma flôr de esperança
Abria a medo. Eram rosas
Que a douda da esperdiçada
Tão festivas, tão formosas,
Desfolhava pelo chão.
—Pobre criança, se o eras!—
Os carinhos mal gozados
Eram por todos comprados,
Que os affectos de sua alma
Havia-os levado á feira,
Onde vendera sem pena
Até a illusão primeira
Do seu doudo coração!

Pouco antes, a candura,
Co'as brancas azas abertas,
Em um berço de ventura
A criança acalentava
Na santa paz do Senhor;
Para accordal-a era cedo,
E a pobre ainda dormia
Naquelle mudo segredo
Que só abre o seio um dia
Para dar entrada a amor.

Mas, por teu mal, acordaste!
Junto do berço passou-te
A festiva melodia
Da seducção... e acordou-te!
Colhendo as limpidas azas,
O anjo que te velava
Nas mãos tremulas e frias
Fechou o rosto... chorava!

Tu, na sede dos amores,
Colheste todas as flôres
Que nas orlas do caminho
Foste encontrando ao passar;
Por ellas, um só espinho
Não te feriu... vás andando...
Corre, criança, até quando
Fores forçada a parar!

Então, desflorada a alma
De tanta illusão, perdida
Aquella primeira calma
Do teu somno de pureza;
Esfolhadas, uma a uma,
Essas rosas de belleza
Que se esvaem como a escuma
Que a vaga cospe na praia
E que por si se desfaz;

Então, quando nos teus olhos
Uma lagrima buscares,
E seccos, seccos de febre,
Uma só não encontrares
Das que em meio das angustias
São um consolo e uma paz;

Então, quando o frio spectro
Do abandono e da penuria
Vier aos teus soffrimentos
Juntar a ultima injuria:
E que não vires ao lado
Um rosto, um olhar amigo
Daquelles que são agora
Os desvellados comtigo;

Criança, verás o engano
E o erro dos sonhos teus;
E dirás,—então já tarde,—
Que por taes gozos não vale
Deixar os braços de Deus.


STELLA

Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o ultimo pranto
Por todo o vasto espaço.

Tibio clarão já córa
A téla do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora.

Á muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.

Uma por uma, vão
As pallidas estrellas,
E vão, e vão com ellas
Teus sonhos, coração.

Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o humido seio?

Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a nevoa fria,
Virá do roxo oriente.

Dos intimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera,
Em lagrimas a pares,

Do amor silencioso,
Mystico, doce, puro,
Dos sonhos de futuro,
Da paz, do ethereo gozo,

De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.

A virgem da manhã
Já todo o céu domina....
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã.


EPITAPHIO DO MEXICO

Dobra o joelho:—é um tumulo.
Em baixo amortalhado
Jaz o cadaver tepido
De um povo aniquilado;
A prece melancolica
Reza-lhe em torno á cruz.

Ante o, universo attonito
Abriu-se a extranha liça,
Travou-se a luta fervida
Da força e da justiça;
Contra a justiça, ó seculo,
Venceu a espada e o obuz.

Venceu a força indomita;
Mas a infeliz vencida
A magoa, a dôr, o odio,
Na face envilecida
Cuspiu-lhe. E a eterna macula
Seus louros murchará.

E quando a voz fatidica
Da santa liberdade
Vier em dias prosperos
Clamar á humanidade,
Então revivo o Mexico
Da campa surgirá.


POLONIA

E ao terceiro dia a alma deve voltar ao
corpo, e a nação resuscitará.

MICKIEWIEZ.

Como aurora de um dia desejado,
Clarão suave o horizonte innunda.
E talvez amanhã. A noite amarga
Como que chega ao termo; e o sol dos livres,
Cangado de te ouvir o inutil pranto,
Alfim resurge no dourado Oriente.

Eras livre,—tão livre como as aguas
Do teu formoso, celebrado rio;
A corôa dos tempos
Cingia-te a cabeça veneranda;
E a desvellada mãe, a irmã cuidosa,
A santa liberdade,
Como junto de um berço precioso,
Á porta dos teus lares vigiava.

Eras feliz demais, demais formosa;
A sanhuda cobiça dos tyranos
Veio enlutar teus venturosos dias...
Infeliz! a medrosa liberdade
Em face dos canhões espavorida
Aos reis abandonou teu chão sagrado;
Sobre ti, moribunda,
Viste cahir os duros oppressores:
Tal a gazella que percorre os campos,
Se o caçador a fere,
Cae convulsa de dôr em mortaes ancias,
E vê no extremo arranco
Abater-se sobre ella
Escura nuvem de famintos corvos.
Presa uma vez da ira dos tyranos,
Os membros retalhou-te
Dos senhores a explendida cobiça;
Em proveito dos reis a terra livre
Foi repartida, e os filhos teus—escravos—
Viram descer um véu de luto á patria
E apagar-se na historia a gloria tua.

A gloria, não!—É gloria o captiveiro
Quando a captiva, como tu, não perde
A alliança de Deus, a fé que alenta,
E essa união universal e muda
Que faz communs a dôr, o odio, a esperança.

Um dia, quando o calix da amargura,
Martyr, até ás fezes esgotaste,
Longo tremor correu as fibras tuas;
Em teu ventre de mãe, a liberdade
Parecia-soltar esse vagido
Que faz rever o céu no olhar materno;
Teu coração estremeceu; teus labios
Tremulos de anciedade e de esperança,
Buscaram aspirar a longos tragos
A vida nova nas celestes auras.
Então surgiu Kosciusko;
Pela mão do Senhor vinha tocado;
A fé no coração, a espada em punho,
E na ponta da espada a torva morte,
Chamou aos campos a nação caída.
De novo entre o direito e a força bruta
Empenhou-se o duello atroz e infausto
Que a triste humanidade
Inda verá por seculos futuros.
Foi longa a luta; os filhos dessa terra
Ah! não pouparam nem valor nem sangue!
A mãe via partir sem pranto os filhos,
A irmã o irmão, a esposa o esposo,
E todas abençoavam
A heroica legião que ia á conquista
Do grande livramento.

Coube ás hostes da força
Da pugna o alto premio;
A oppressão jubilosa
Cantou essa victoria de ignominia;
E de novo, ó captiva, o véu de luto
Correu sobre teu rosto!
Deus continha
Em suas mãos o sol da liberdade,
E inda não quiz que nesse dia infausto
Teu macerado corpo allumiasse.

Resignada á dôr e ao infortunio,
A mesma fé, o mesmo amor ardente
Davam-te a antiga força.
Triste viuva, o templo abriu-te as portas;
Foi a hora dos hymnos e das preces;
Cantaste a Deus; tua alma consolada
Nas azas da oração aos céus subia,
Como a refugiar-se e a refazer-se
No seio do infinito.
E quando a força do feroz cossaco
A casa do Senhor ia buscar-te,
Era ainda rezando
Que te arrastavas pelo chão da egreja.

Pobre nação!—é longo o teu martyrio;
A tua dôr pede vingança e termo;
Muito has vertido em lagrimas e sangue;
É propicia esta hora. O sol dos livres
Como que surge no dourado Oriente.
Não ama a liberdade
Quem não chora comtigo as dôres tuas;
E não pede, e não ama, e não deseja
Tua resurreição, finada heroica!


ERRO

Erro é teu. Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na phantasia
E não chega ao coração;
Nem foi amor, foi apenas
Uma ligeira impressão;
Um querer indifferente,
Em tua presença, vivo,
Morto, se estavas ausente,
E se ora me vês esquivo,
Se, como outr'ora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés,
É que,—como obra de um dia,
Passou-me essa phantasia.

Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras.
Tuas frivolas chimeras,
Teu vão amor de ti mesma,
Essa pendula gelada
Que chamavas coração,
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender;
Foram baldados tentames,
Saiu contra ti o azar,
E embora pouca, perdeste
A gloria de me arrastar
Ao teu carro... Vãs chimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras...


ELEGIA

A bondade choremos innoccente
Cortada em flôr que, pela mão da morte,
Nos foi arrebatada d'entre a gente.

CAMÕES.

Se, como outr'ora, nas florestas virgens,
Nos fosse dado—o esquife que te encerra
Erguer a um galho de arvore frondosa,
Certo, não tinhas um melhor jazigo
Do que alli, ao ar livre, entre os perfumes
Da florente estação, imagem viva
De teus cortados dias, e mais perto
Do clarão das estrellas.

Sobre teus pobres e adorados restos,
Piedosa a noite, alli derramaria
Do seus negros cabellos puro orvalho;
Á beira do teu ultimo jazigo
Os alados cantores da floresta
Iriam sempre modular seus cantos;
Nem letra, nem lavor de emblema humano,
Relembraria a mocidade morta;
Bastava só que ao coração materno,
Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos,
Um aperto, uma dôr, um pranto occulto,
Dissesse:—Dorme aqui, perto dos anjos,
A cinza de quem foi gentil transumpto
De virtudes e graças.

Mal havia transposto da existencia.
Os dourados umbraes; a vida agora
Sorria-lhe toucada dessas flôres
Que o amor, que o talento e a mocidade
Á uma repartiam.

Tudo lhe era presagio alegre e doce;
Uma nuvem sequer não sombreava,
Em sua fronte, o iris da esperança;
Era, emfim, entre os seus a copia viva
Dessa ventura que os mortaes almejam,
E que raro a fortuna, avessa ao homem,
Deixa gozar na terra.

Mas eis que o anjo pallido da morte
A presentiu feliz e bella e pura,
E, abandonando a região do olvido,
Desceu á terra, e sob a aza negra
A fronte lhe escondeu; o fragil corpo
Não pôde resistir; a noite eterna
Veio fechar seus olhos;
Emquanto a alma abrindo
As azas rutilantes pelo espaço,
Foi engolfar-se em luz, perpetuamente,
No seio do infinito;
Tal a assustada pomba, que na arvore
O ninho fabricou,—se a mão do homem
Ou a impulsão do vento um dia abate
O recatado asylo,—abrindo o vôo,
Deixa os inuteis restos
E, atravessando airosa os leves ares,
Vai buscar n'outra parte outra guarida.

Hoje, do que ora inda lembrança resta,
E que lembrança! Os olhos fatigados
Parecem ver passar a sombra della;
O attento ouvido inda lhe escuta os passos;
E as teclas do piano, em que seus dedos
Tanta harmonia despertavam antes,
Como que soltam essas doces notas
Que outr'ora ao seu contacto respondiam.

Ah! pezava-lhe este ar da terra impura,
Faltava-lhe esse alento de outra esphera,
Onde, noiva dos anjos, a esperavam
As palmas da virtude.

Mas, quando assim a flôr da mocidade
Toda se esfolha sobre o chão de morte,
Senhor, em que firmar a segurança
Das venturas da terra? Tudo morre;
Á sentença fatal nada se esquiva,
O que é fructo e o que é flôr. O homem cego
Cuida haver levantado em chão de bronze
Um edificio resistente aos tempos,
Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro,
O castello se abate,
Onde, doce illusão, fechado havias
Tudo o que de melhor a alma do homem
Encerra de esperanças.

Dorme, dorme tranquilla
Em teu ultimo asylo; e se eu não pude
Ir espargir tambem algumas flôres
Sobre a lagea da tua sepultura;
Se não pude,—eu que ha pouco te saudava
Em teu erguer, estrella,—os tristes olhos
Banhar nos melancolicos fulgores,
Na triste luz do teu recente occaso,
Deixo-te ao menos nestes pobres versos
Um penhor de saudade, e lá na esphera
Aonde approuve ao Senhor chamar-te cedo,
Possas tu ler nas pallidas estrophes
A tristeza do amigo.


SINHÁ

O teu nome é como o oleo derramado.

Cantico dos Canticos.

Nem o perfume que expira
A flôr, pela tarde amena,
Nem a nota que suspira
Canto de saudade e pena
Nas brandas cordas da lyra;
Nem o murmurio da veia
Que abriu sulco pelo chão
Entre margens de alva arêa,
Onde se mira e recreia
Rosa fechada em botão;

Nem o arrulho enternecido
Das pombas, nem do arvoredo
Esse amoroso arruido
Quando escuta algum segredo
Pela brisa repetido;
Nem esta saudade pura
Do canto do sabiá
Escondido na espessura,
Nada respira doçura
Como o teu nome, Sinhá!


HORAS VIVAS

Noite: abrem-se as flôres...
Que esplendores!
Cynthia sonha amores
Pelo céu.
Tenues os neblinas
Ás campinas
Descem das collinas,
Como um véu.

Mãos em mãos travadas,
Animadas,
Vão aquellas fadas
Pelo ar;
Soltos os cabellos,
Em novellos,
Puros, louros, bellos,
A voar.

—«Homem, nos teus dias
Que agonias,
Sonhos, utopias,
Ambições;
Vivas e fagueiras,
As primeiras,
Como as derradeiras
Illusões!

—«Quantas, quantas vidas
Vão perdidas
Pombas mal feridas
Pelo mal!
Annos apoz annos,
Tão insanos,
Vem os desenganos
Afinal.

—«Dorme: se os pesares
Repousares,
Vês?—por estes ares
Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
E lascivas,
Somos—horas vivas
De dormir—»


VERSOS A CORINNA

Tacendo il nome di questa gentilissima.

DANTE.

I

Tu nasceste de um beijo e de um olhar. O beijo
N'uma hora de amor, de ternura e desejo,
Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor,
Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor;
Depois, depois vestindo a fórma peregrina,
Aos meus olhos mortaes, surgiste-me, Corinna!

De um jubilo divino os cantos entoava
A natureza mãe, e tudo palpitava,
A flôr aberta e fresca, a pedra bronca e rude,
De uma vida melhor e nova juventude.

Minh'alma adivinhou a origem do teu ser;
Quiz cantar e sentir; quiz amar e viver;
A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura,
Palpitou, reviveu a pobre creatura;
Do amor grande, elevado, abriram-se lhe as fontes;
Fulgiram novos sóes, rasgaram-se horizontes;
Surgiu, abrindo em flôr, uma nova região;
Era o dia marcado á minha redempção.
Era assim quo eu sonhava a mulher. Era assim:
Corpo de fascinar, alma de cherubim;

Era assim: fronte altiva e gesto soberano,
Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano,
Em olhos senhoris uma luz tão serena,
E grave como Juno, e bella como Helena!
Era assim, a mulher que extasia e domina,
A mulher que reune a terra e o céu; Corinna!

N'este fundo sentir, nesta fascinação,
Que pede do poeta o amante coração?
Viver como nasceste, ó belleza, ó primor,
De uma fusão do ser, de uma effusão do amor.

Viver,—fundir a existencia
Em um osculo de amor,
Fazer de ambas—uma essencia,
Apagar outras lembranças,
Perder outras illusões,
E ter por sonho melhor
O sonho das esperanças
De que a unica ventura
Não reside em outra vida,
Não vem do outra creatura;
Confundir olhos mos olhos,
Unir um seio a outro seio,
Derramar as mesmas lagrimas
E tremer do mesmo enleio,
Ter o mesmo coração,
Viver um do outro viver...
Tal era a minha ambição.

Donde viria a ventura
Desta vida? Em que jardim
Colheria esta flôr pura?
Em que solitaria fonte
Esta agua iria beber?
Em que encendido horizonte
Podiam meus olhos ver
Tão meiga, tão viva estrella,
Abrir-se e resplandecer?
Só em ti:—em ti que és bella,
Em ti quo a paixão respiras,
Em ti cujo olhar se embebe
Na illusão de que deliras,
Em ti, que um osculo de Hebe
Teve a singular virtude
De encher, de animar teus dias,
De vida e de juventude...

Amemos! diz a flôr á brisa peregrina,
Amemos! diz a brisa, arfando em torno á flôr
Cantemos esta lei e vivamos, Corinna,
De uma fusão do ser, de uma effusão do amor.

II

A minha alma, talvez, não é tão pura,
Como era pura nos primeiros dias;
Eu sei: tive choradas agonias
De que conservo alguma nodoa escura,

Talvez. Apenas á manhã da vida
Abri meus olhos virgens e minha alma,
Nunca mais respirei a paz e a calma,
E me perdi na porfiosa lida.

Não sei que fogo interno me impellia
Á conquista da luz, do amor, do gozo,
Não sei que movimento imperioso
De um desusado ardor minha alma enchia.

Corri de campo em campo e plaga em plaga.
(Tanta ansiedade o coração encerra!)
A ver o lyrio que brotasse a terra,
A ver a escuma que cuspisse—a vaga.

Mas, no areal da praia, no horto agreste,
Tudo aos meus olhos avidos fugia...
Desci ao chão do valle que se abria,
Subi ao cume da montanha alpestre.

Nada! Volvi o olhar ao céu. Perdi-me
Em meus sonhos de moço e de poeta;
E contemplei, nesta ambição inquieta,
Da muda noite a pagina sublime.

Tomei nas mãos a cythara saudosa,
E soltei entre lagrimas um canto...
A terra brava recebeu meu pranto
E o éco repetiu-me a voz chorosa.

Foi em vão. Como um languido suspiro,
A voz se me calou, e do invio monte
Olhei ainda as linhas do horizonte,
Como se olhasse o ultimo retiro.

Nuvem negra e veloz corria solta
O anjo da tempestade annunciando;
Vi ao longe as alcyones cantando
Doidas correndo á flôr da agua revolta.

Desilludido, exausto, ermo, perdido,
Busquei a triste estancia do abandono,
E esperei, aguardando o ultimo somno,
Volver á terra, de que foi nascido.

—«Ó Cybele fecunda, é no remanso
Do teu seio—que vive a creatura,
Chamem-te outros morada triste e escura,
Chamo-te gloria, chamo-te descanso!»

Assim fallei. E murmurando aos ventos
Uma blasphemia atroz—estreito abraço
Homem e terra uniu, e em longo espaço
Aos écos repeti meus vãos lamentos.

Mas, tu passaste... Houve um grito
Dentro de mim. Aos meus olhos
Visão de amor infinito,
Visão de perpetuo gozo
Perpassava e me attrahia,
Como um sonho voluptuoso
De sequiosa fantasia.
Ergui-me logo do chão,
E pousei meus olhos fundos
Em teus olhos soberanos,
Ardentes, vivos, profundos,
Como os olhos da belleza
Que das escumas nasceu...
Eras tu, maga visão
Eras tu o ideal sonhado
Que em toda a parte busquei,
E por quem houvera dado
A vida que fatiguei;
Por quem verti tanto pranto,
Por quem nos longos espinhos
Minhas mãos, meus pés sangrei!

Mas se minh'alma, acaso, é menos pura
Do que era pura nos primeiros dias,
Porque não soube em tantas agonias
Abençoar a minha desventura;

Se a blasphemia os meus labios polluira,
Quando, depois do tempo e do cansaço,
Beijei a terra no mortal abraço
E espedacei desanimado a lyra;

Podes, visão formosa e peregrina,
No amor profundo, na existencia calma,
Desse passado resgatar minha alma
E levantar-me aos olhos teus,—Corinna!

III

Quando voarem minhas esperanças,
Como um bando de pombas fugitivas;
E destas illusões doces e vivas
Só me restarem pallidas lembranças;

E abandonar-me a minha mãe Quimera,
Que me aleitou aos seios abundantes;
E vierem as nuvens flammejantes
Encher o céu da minha primavera;

E raiar para mim um triste dia,
Em que, por completar minha tristeza,
Nem possa ver-te, musa da belleza,
Nem possa ouvir-te, musa da harmonia;

Quando assim seja, por teus olhos juro,
Voto minh'alma á escura soledade,
Sem procurar melhor felicidade,
E sem ambicionar prazer mais puro,

Como o viajor que, de fallaz miragem
Volta desenganado ao lar tranquillo,
E procura, naquelle ultimo asylo,
Nem evocar memorias da viagem;

Envolvido em mim mesmo, olhos cerrados
A tudo mais,—a minha phantasia
As asas colherá com que algum dia
Quis alcançar os cimos elevados.

És tu a maior gloria de minha alma,
Se o meu amor profundo não te alcança,
De que me servirá outra esperança?
Que gloria tirarei de alheia palma?

IV

Tu que és bella e feliz, tu que tens por diadema
A dupla irradiação da belleza e do amor;
E sabes reunir, como o melhor poema,
Um desejo da terra e um toque do Senhor;

Tu que, como a ilusão, entre nevoas deslisas
Aos versos do poeta um desvellado olhar,
Corinna, ouve a canção das amorosas brisas,
Do poeta e da luz, das selvas e do mar.

AS BRISAS

Deu-nos a harpa colia a excelsa melodia
Que a folhagem desperta e torna alegre a flôr,
Mas que vale esta voz, ó musa da harmonia,
Ao pé da tua voz, filha da harpa do amor?

Diz-nos tu como houveste as notas do teu canto?
Que alma de serafim volteia aos labios teus?
Donde houveste o segredo e o poderoso encanto
Que abre a ouvidos mortais a harmonia dos céus?

A LUZ

Eu sou a luz fecunda, alma da natureza;
Sou o vivo alimento á viva creação.
Deus lançou-me no espaço. A minha realeza
Vai até onde vae meu vivido clarão.

Mas se derramo vida a Cybelle fecunda,
Que sou eu ante a luz dos teus olhos? Melhor,
A tua é mais do céu, mais doce, mais profunda,
Se a vida vem de mim, tu dás a vida e o amor.

AS AGUAS

Do nume da belleza o berço celebrado
Foi o mar; Venus bella entre espumas nasceu.
Veio a edade de ferro, e o nume venerado
Do venerado altar baqueou:—pereceu.

Mas a belleza és tu. Como Venus marinha,
Tens a ineffavel graça e o ineffavel ardor.
Se páras, és um nume; andas, uma rainha,
E se quebras um olhar, és tudo isso e és amor!

Chamam-te as aguas, vem! tu irás sobre a vaga
A vaga, a tua mãe, que te abre os seios nús,
Buscar adorações de uma plaga a outra plaga,
E das regiões da nevoa ás regiões da luz!

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tale.fyi