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  1. traduzido por Machado de Assis
  2. RIO DE JANEIRO
  3. TYP.—PERSEVERANÇA—RUA DO HOSPICIO N. 91.
  4. 1866.
  5. Indice
  6. PRIMEIRA PARTE
  7. O Sr. Clubin.
  8. LIVRO PRIMEIRO
  9. Elementos de uma má reputação
  10. I
  11. PALAVRA ESCRIPTA EM UMA PAGINA BRANCA
  12. II
  13. O TUTÚ DA RUA
  14. III
  15. PARA TUA MULHER, QUANDO TE CASARES
  16. IV
  17. IMPOPULARIDADE
  18. V
  19. OUTROS PONTOS AMBIGUOS DE GILLIATT
  20. VI
  21. A PANÇA
  22. VII
  23. CASA EMBRUXADA, MORADOR VISIONARIO
  24. VIII
  25. A CADEIRA GILD-HOLM-'UR
  26. LIVRO SEGUNDO
  27. Mess Lethierry
  28. I
  29. VIDA AGITADA E CONSCIENCIA TRANQUILLA
  30. II
  31. UMA PREFERENCIA DE MESS LETHIERRY
  32. III
  33. A VELHA LINGUA DO MAR
  34. IV
  35. VULNERABILIDADE POR AMOR
  36. LIVRO TERCEIRO
  37. Durande e Deruchette.
  38. I
  39. GARRULICE E EFFLUVIOS
  40. II
  41. A ETERNA HISTORIA DA UTOPIA
  42. III
  43. RANTAINE
  44. IV
  45. CONTINUAÇÃO DA HISTORIA DA UTOPIA
  46. V
  47. O NAVIO-DIABO
  48. VI
  49. LETHIERRY ENTRA NA GLORIA
  50. VII
  51. O MESMO PADRINHO E A MESMA PADROEIRA
  52. VIII
  53. A MELODIA BONNY DUNDEE
  54. IX
  55. O HOMEM QUE ADVINHOU QUEM ERA RANTAINE
  56. X
  57. NARRATIVAS DE VIAGENS DE LONGO CURSO
  58. XI
  59. LANCE DE OLHOS AOS MARIDOS EVENTUAES
  60. XII
  61. EXCEPÇÃO NO CARACTER DE LETHIERRY
  62. XIII
  63. O DELEIXO FAZ PARTE DA GRAÇA
  64. LIVRO QUARTO
  65. O bug-pipe.
  66. I
  67. PRIMEIROS RUBORES DE AURORA OU DE INCENDIO
  68. II
  69. GILLIATT VAI ENTRANDO PASSO A PASSO NO DESCONHECIDO
  70. III
  71. A CANÇÃO BONNY DUNDEE ACHA UM ECHO NA COLLINA
  72. IV
  73. V
  74. JUSTA VICTORIA É SEMPRE MALQUISTA
  75. VI
  76. FORTUNA DOS NAUFRAGOS ENCONTRANDO A CHALUPA
  77. VII
  78. BOA FORTUNA DE APPARECER A TEMPO
  79. LIVRO QUINTO
  80. O revolver.
  81. I
  82. A PALESTRA NA POUSADA JOÃO
  83. II
  84. CLUBIN DESCOBRE ALGUEM
  85. III
  86. CLUBIN LEVA UNS OBJECTOS E NÃO OS TRAZ
  87. IV
  88. PLAINMONT
  89. V
  90. OS FURTA-NINHOS
  91. VI
  92. A JACRESSARDE
  93. VII
  94. COMPRADORES NOCTURNOS E VENDEDOR TENEBROSO
  95. VIII
  96. CARAMBOLA DA BOLA VERMELHA E DA BOLA PRETA
  97. IX
  98. INFORMAÇÃO UTIL ÁS PESSOAS QUE ESPERAM, OU RECEIAM CARTAS DE ALEM-MAR
  99. FIM DO 1° TOMO.
  100. TRABALHADORES DO MAR
  101. POR
  102. VICTOR HUGO
  103. traduzido por Machado de Assis
  104. 2° TOMO
  105. RIO DE JANEIRO
  106. TYP.—PERSEVERANÇA—RUA DO HOSPICIO N. 91.
  107. 1866.
  108. PRIMEIRA PARTE
  109. O Sr. Clubin.
  110. NOTA
  111. LIVRO SEXTO
  112. O timoneiro ebrio e o capitão sobrio
  113. I
  114. OS ROCHEDOS DOUVRES
  115. II
  116. COCNAC INESPERADO
  117. III
  118. PALESTRA INTERROMPIDA
  119. IV
  120. MOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO CAPITÃO CLUBIN
  121. V
  122. CLUBIN LEVA A ADMIRAÇÃO AO CUMULO
  123. VI
  124. ALLUMIA-SE O INTERIOR DE UM ABISMO
  125. VII
  126. INTERVEM O INESPERADO
  127. LIVRO SETIMO
  128. Imprudencia de interrogar um livro
  129. I
  130. A PEROLA NO FUNDO DO PRECIPICIO
  131. II
  132. GRANDE ESPANTO NA COSTA OESTE
  133. III
  134. NÃO TENTEIS A BIBLIA
  135. FIM DA PRIMEIRA PARTE.
  136. SEGUNDA PARTE
  137. O engenhoso Gilliatt
  138. LIVRO PRIMEIRO
  139. O escolho
  140. I
  141. INCOMMODA CHEGADA, DIFFICIL SAHIDA
  142. II
  143. AS PERFEIÇÕES DO DESASTRE
  144. III
  145. SÃ, MAS NÃO SALVA
  146. IV
  147. PREVIO EXAME LOCAL
  148. V
  149. UMA PALAVRA A RESPEITO DAS COLLABORAÇÕES SECRETAS DOS ELEMENTOS
  150. VI
  151. CAVALLARIÇA PARA O CAVALLO
  152. VII
  153. QUARTO PARA O VIAJANTE
  154. VIII
  155. IMPORTUNAQUE VOLUCRES
  156. IX
  157. O ESCOLHO E A MANEIRA DE SE SERVIR DELLE
  158. X
  159. A FORJA
  160. XI
  161. DESCOBERTA
  162. XII
  163. O INTERIOR DE UM EDIFICIO DEBAIXO DO MAR
  164. XIII
  165. O QUE SE VÊ E O QUE SE ENTREVÊ
  166. LIVRO SEGUNDO
  167. O trabalho
  168. I
  169. OS RECURSOS DAQUELLE QUE NÃO TEM RECURSOS
  170. II
  171. DE QUE MODO SHAKESPEARE PODE ENCONTRAR-SE COM ESCHYLO
  172. III
  173. A OBRA PRIMA DE GILLIATT AJUDA A OBRA PRIMA DE LETHIERRY
  174. IV
  175. SUBRE
  176. V
  177. SUB UMBRA
  178. VI
  179. GILLIATT COLLOCA A PANÇA EM POSIÇÃO
  180. VII
  181. SURGE UM PERIGO
  182. VIII
  183. MAIS PERIPECIA QUE DESENLACE
  184. IX
  185. INTERROMPE-SE O EXITO
  186. X
  187. AS ADVERTENCIAS DO MAR
  188. XI
  189. PARA UM BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA
  190. FIM DO 2° VOLUME.
  191. TRABALHADORES DO MAR
  192. POR
  193. VICTOR HUGO
  194. traduzido por Machado de Assis
  195. RIO DE JANEIRO
  196. TYP.—PERSEVERANÇA—RUA DO HOSPICIO N. 91.
  197. 1866.
  198. SEGUNDA PARTE
  199. O engenhoso Gilliatt
  200. LIVRO TERCEIRO
  201. A luta
  202. I
  203. O EXTREMO TOCA O EXTREMO E O CONTRARIO ANNUNCIA O CONTRARIO
  204. II
  205. OS VENTOS DO LARGO
  206. III
  207. EXPLICAÇÃO DO RUMOR OUVIDO POR GILLIATT
  208. IV
  209. TURBA, TURMA
  210. V
  211. GILLIATT PÓDE ESCOLHER
  212. VI
  213. O COMBATE
  214. LIVRO QUARTO
  215. O forro do obstaculo
  216. I
  217. QUEM TEM FOME ACHA MAIS QUEM TENHA
  218. II
  219. O MONSTRO
  220. III
  221. OUTRA FORMA DE COMBATE NO ABYSMO
  222. IV
  223. NADA SE ESCONDE, NADA SE PERDE
  224. V
  225. HA LUGAR PARA ALOJAR-SE A MORTE NO INTERVALLO QUE SEPARA SEIS POLLEGADAS DE DOUS PÉS
  226. VI
  227. DE PROFUNDIS AD ALTUM
  228. VII
  229. HA UM OUVIDO NO IGNOTO
  230. FIM DA SEGUNDA PARTE
  231. TERCEIRA PARTE
  232. Deruchette
  233. LIVRO PRIMEIRO
  234. Noite e lua
  235. I
  236. O SINO DO PORTO
  237. II
  238. AINDA O SINO DO PORTO
  239. LIVRO SEGUNDO
  240. Reconhecimento em pleno despotismo
  241. I
  242. ALEGRIA CERCADA DE ANGUSTIAS
  243. II
  244. A MALA DE COURO
  245. LIVRO TERCEIRO
  246. A Partida do Cashmere
  247. I
  248. O ANGRAZINHA PROXIMA DA IGREJA
  249. II
  250. O DESESPERO DIANTE DO DESESPERO
  251. III
  252. PREVIDENCIA DA ABNEGAÇÃO
  253. IV
  254. «PARA TUA MULHER QUANDO TE CASARES»
  255. V
  256. A GRANDE TUMBA
  257. INDICE
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Os Trabalhadores do Mar

Victor Hugo

kostenlos · 115.892 Wörter · ~8 Std. Lesezeit

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traduzido por Machado de Assis

RIO DE JANEIRO
TYP.—PERSEVERANÇA—RUA DO HOSPICIO N. 91.
1866.

Indice


PRIMEIRA PARTE

O Sr. Clubin.


Dedico este livro ao rochedo de hospitalidade e de liberdade, a este canto da velha terra normanda onde vive o nobre e pequeno povo do mar, á ilha de Guernesey, severa e branda, meu actual asylo, meu provavel tumulo.

V. H.


A religião, a sociedade, a natureza: taes são as tres lutas do homem. Estas tres lutas são ao mesmo tempo as suas tres necessidades; precisa crer, dahi o templo; precisa crear, dahi a cidade; precisa viver, dahi a charrua e o navio. Mas ha tres guerras nestas tres soluções. Sahe de todas a mysteriosa difficuldade da vida. O homem tem de lutar com o obstaculo sob a forma superstição, sob a fórma preconceito e sob a fórma elemento. Triplice ananke pesa sobre nós, o ananke dos dogmas, o ananke das leis, o ananke das cousas. Na Notre Dame de Paris, o autor denunciou o primeiro; nos Miseraveis, mostrou o segundo; neste livro indica o terceiro.

A estas tres fatalidades que envolvem o homem junta-se a fatalidade interior, o ananke supremo, o coração humano.

Hauteville-House, março de 1866.


LIVRO PRIMEIRO

Elementos de uma má reputação


I

PALAVRA ESCRIPTA EM UMA PAGINA BRANCA

O christmas (Natal) de 182* foi notavel em Guernesey. Cahio neve naquelle dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que ha neve, é memoravel: a neve é um acontecimento.

Naquella manhã de christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre Port au Valle assemelhava-se a um lençol branco: nevára desde a meia noite até o romper do dia.

Pelas nove horas, pouco depois de nascer o sol, como não era ainda occasião dos anglicanos irem á igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos á capella Eldad, o caminho estava quasi deserto. Na parte da estrada comprehendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas tres viandantes, um menino, um homem e uma mulher.

Estes tres viandantes, caminhando separados, uns dos outros, não tinham visivelmente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oito annos parára e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo atras da mulher, uns cem passos, dirigia-se como ella, para o lado de Saint-Sampson.

Era elle moço ainda e parecia ser operario ou marinheiro. Vestia as roupas ordinarias, isto é, uma grossa camisa de panno escuro e uma calça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apezar da festa, não iria á igreja. Os grossos sapatos de couro crú e solas taixadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.

A viandante, essa evidentemente trajava roupa de ir á igreja; envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta, debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazenda da Irlanda com listas brancas e côr de rosa, e, se não fossem as meias vermelhas, tomal-a-hiam por uma parisiense. Caminhava com desembaraço e viveza; e pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era moça. Tinha aquella graça fugitiva que indica a mais delicada transição, a adolescencia, a mistura dos dous crepusculos, o principio de uma mulher e o fim de uma menina.

O homem não reparava nella.

De subito, perto de uma mouta de azinheiras, que fórma o angulo de uma horta rustica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, e esse movimento chamou a attenção do homem.

Parou, pareceu reparar nelle um instante, abaixou-se, e o homem julgou vêl-a escrever com o dedo alguma cousa na neve. Levantou-se e poz-se de novo a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desappareceu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao castello de Lierre. O homem, quando ella se voltou pela segunda vez, reconheceu Deruchette, linda mocinha do lugar. Mas não sentio necessidade alguma de appressar o passo.

Alguns instantes depois estava junto á mouta de azinheiras no angulo da horta. Já não pensava na passageira, e é provavel que se nessa occasião pulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no golfinho. Casualmente tinha os olhos baixos, e assim os levou machinalmente ao lugar em que parára a menina. Dous pésinhos ahi estavam impressos e ao lado delles a palavra escripta por ella: Gilliatt.

Era este o nome delle.

Chamava-se Gilliatt.

Ficou por muito tempo immovel, contemplando o nome, os pésinhos, a neve; e depois continuou pensativo o seu caminho.


II

O TUTÚ DA RUA

Gilliatt residia na parochia de Saint-Sampson, onde não era estimado e havia razões para isso.

Em primeiro lugar, morava em uma casa mal assombrada.

Acontece algumas vezes em Jersey e Guernesey, no campo e até na cidade, que, ao passar por um lugar deserto ou por uma rua muito habitada, vê-se uma casa, cuja entrada está obstruida. O azevinho cresce á porta, as janellas do rez do chão estão fechadas por feios emplastros de taboas pregadas; as dos andares superiores estão fechadas e abertas ao mesmo tempo: ha ferrôlhos, mas não ha vidros. No pateo, se o ha, alastra-se a herva e cahem os muros; se ha jardim, nascem a ortiga, o espinheiro, a cicuta; raros insectos esvoaçam. Racham-se as chaminés, o tecto se abate; o que se vê dos quartos está arruinado, a madeira podre, a pedra carcomida; cahe o papel das paredes. Pode-se estudar ahi os antigos gostos do papel pintado, os gryphos do imperio, as sanefas em fórma de crescente do Directorio, os balaustres e cippos de Luiz XVI. A espessura das téas de aranha, cheias de moscas, indicam a profunda tranquillidade em que vivem aquelles insectos. Algumas vezes vê-se um pucaro quebrado sobre uma taboa.

É uma casa mal assombrada. O diabo apparece lá durante a noite.

A casa, como o homem, pode tornar-se cadaver; basta que uma superstição a mate. Então é terrivel.

Essas casas mortas não são raras nas ilhas da Mancha.

As populações campesinas e maritimas não vivem tranquillas a respeito do diabo. As da Mancha, archipelago inglez e littoral francez, tem a respeito delle noções muito precisas. O diabo possue delegados por todo mundo. É certo que Belphegor é embaixador do inferno em França, Hutgin na Italia, Belial na Turquia, Thamuz na Hespanha, Martinet na Suissa e Mammon na Inglaterra. Satanaz é um imperador, como outro qualquer. Satanaz Cesar. A casa delle é muito bem servida: Dagon é o saquetario; Succor Benoth, chefe dos eunuchos; Asmodeu, banqueiro dos jogos; Kobal, director do theatro; Verdelet, grão-mestre de ceremonias e Nybbas bobo. Wiérus, homem de sciencia, bom estrygologo e demonographo distincto, chama Nybbas—o grande parodista.

Os pescadores normandos da Mancha precisam aprecatar-se quando andam no mar, por causa das artes do diabo. Por muito tempo acreditou-se que S. Maclou habitava o grande rochedo quadrado Ortach, situado ao largo entre Aurigny e Casquets, e muitos velhos marinheiros de outros tempos affirmavam tel-o visto não poucas vezes sentado e lendo um livro. Por isso os maritimos, quando passavam, ajoelhavam-se muitas vezes diante do rochedo Ortach, até que um dia dissipou-se a fabula e esclareceu-se a verdade. Descobrio-se e sabe-se hoje que quem habita aquelle rochedo não é um santo, mas sim um diabo, chamado Jochmus, que por muitos seculos teve a malicia de fazer-se passar por S. Maclou. Demais, a propria igreja cahe em taes enganos. Os diabos Raguhel, Oribel e Tobiel foram santos, até que em 745 o papa Zacarias, tendo-lhes tomado o faro, deitou-os fóra. Para fazer taes expulsões, que são muito uteis, é necessario ser muito conhecedor de diabos.

Conta a gente velha da terra, mas estes casos pertencem ao seculo passado, que a população catholica do archipelago normando estivera outr'ora, bem a seu pezar, mais em communicação com o diabo do que a população huguenote. Ignoramos a razão, mas a verdade é que a minoria catholica andou outr'ora muito incommodada por elle.

Affeiçoára-se aos catholicos e procurava frequental-os, o que leva a crer que o diabo é antes catholico que protestante.

Uma de suas mais insupportaveis liberdades era visitar á noite os leitos conjugaes catholicos, quando os maridos dormiam de todo, e as mulheres, a meio. Disto resultavam equivocos. Patouillet pensava que Voltaire nascera assim. Não é inverosimil. É caso perfeitamente conhecido e descripto nos formularios de exorcismo sob o titulo de erroribus nocturnis et de semine diabolorum.

O diabo fez violencias destas especialmente em Saint-Hélier, em fins do seculo passado: é provavel que para punição dos crimes da revolução. As consequencias dos excessos revolucionarios são incalculaveis. Fosse como fosse, essa apparição possivel do demonio durante a noite, quando reina a escuridão e todos dormem, inquietava muitas mulheres orthodoxas. Dar nascimento a um Voltaire não é cousa agradavel. Uma dellas, assustada, foi consultar o confessor sobre a maneira de desfazer-se em tempo o quiproquo. O confessor respondeu: para saber se está com o diabo ou com seu marido, apalpe-lhe a cabeça e se encontrar pontas, pode estar certa....—de que? perguntou a mulher.

A casa em que morava Gilliatt tinha sido mal assombrada e já não era; portanto, tornava-se mais suspeita; é sabido que, quando um feiticeiro vem habitar uma casa visitada pelo diabo, este, julgando-a bem guardada, tem a delicadeza de não voltar, salvo o caso de ser chamado, como medico.

Chamava-se a casa 0 tutú da rua. Era situada na ponta de uma lingua de terra ou antes de rochedo, que formava uma pequena angra de bastante profundidade na enseada de Houmet Paradis. A casa estava sósinha nessa ponta, quasi fora da ilha, tendo apenas a terra sufficiente para um pequeno jardim ás vezes inundado por occasião das aguas vivas.

Entre o porto de Saint-Sampson e a enseada de Houmet Paradis ha uma grande coluna, sobre a qual levanta-se um amontoado de torres e de hera chamado o castello do Valle ou do Archanjo, de sorte que de Saint-Sampson não se via o tutú da rua.

Não são raros os feiticeiros em Guernesey. Exercem a profissão em certas parochias, apezar de vivermos no seculo dezenove. Praticam acções verdadeiramente criminosas. Fazem ferver ouro. Colhem hervas á meia noite. Olham de travez para o gado. Consultam-n'os; elles mandam buscar em garrafas a agua dos doentes, e dizem em voz baixa: a agua parece bem triste. Affirmou um feiticeiro em Março de 1857, que na agua de um doente havia sete diabos. São temidos e temiveis. Ha pouco tempo um delles enfeitiçou um padeiro e mais o forno. Outro tem a perversidade de fechar e lacrar uma porção de sobrecartas, sem haver nada dentro. Outro chega ao ponto de ter em casa, em cima de uma taboa, tres garrafas com um B em cada uma. Estes factos monstruosos são conhecidos. Alguns feiticeiros são complacentes, e por dous ou tres guinéos incumbem-se de soffrer as nossas molestias. Rolam e gritam em cima da cama. Enquanto elles se estorcem diz o doente: «E esta! já estou bom!» Outros curam todas as molestias amarrando um lenço ao redor do corpo do doente. É um remedio tão simples que admira não se ter ainda ninguem lembrado delle.

No seculo passado o tribunal real de Guernesey collocava-os sobre uma porção de achas de lenha e queimava-os vivos. Presentemente condemna-os a oito semanas de prisão, quatro a pão e agua e quatro no segredo, alternando. Amant alterna catenœ.

A ultima queima de feiticeiros em Guernesey foi em 1747, sendo theatro do espectaculo a praça de Bordage, que de 1565 a 1700 vio queimarem-se onze feiticeiros. Em geral esses culpados confessavam seus crimes: eram para isso ajudados pela tortura.

A praça de Bordage prestou serviços á sociedade e á religião. Queimaram-se ahi os hereticos. No tempo de Maria Tudor, entre outros huguenotes, queimou-se uma mãe e duas filhas: a mãe chamava-se Perrotine Massy. Uma das filhas estava gravida e teve o successo sobre o brazeiro.

A chronica diz: Arrebentou-lhe o ventre. Sahio desse ventre um menino vivo; o recem-nascido rolou na fogueira, um tal House apanhou-o. O bailio, Helier Grosselin, bom catholico, mandou atirar a criança ao fogo.


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